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Brasil

Rosinha, nascida no cárcere e separada da mãe com 1 ano

Mauricio Tonetto / Terra
19 nov 2014
11h11
atualizado em 19/10/2015 às 22h20
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As paredes foram decoradas com balões e desenhos. Sobre a mesa, bolo e salgadinhos. A música infantil soava alta e animada. Nem parecia que estávamos em um presídio. Mas ninguém se enganava, a alegria era apenas uma fantasia. Dentro de poucas horas uma criança de 1 ano de idade seria separada da mãe. 

"Quando é na rua, a festa de 1 ano é uma alegria, mas aqui é uma coisa triste", resumiu uma das presas, comiserada com o sofrimento da mãe, Maria, detenta que aproveitava os últimos instantes ao lado da filha, Rosa*, que naquele mesmo dia seria, por força da lei, entregue a uma família adotiva. 

Maria* tenta ainda convencer-se de que a filha sairia para um passeio. "Eu pensei que ela tá indo de férias, tipo pra Disney, onde eu não posso ter contato com ela". No momento da separação, a mãe a pega no colo, amamenta e embala para fazer a criança dormir. E para prolongar por um último instante seu vínculo mais íntimo com a filha.

O Terra acompanhou dois anos da vida de uma criança que viu o mundo pela primeira vez isolada da sociedade. Ela é filha de traficantes condenados a 10 anos de prisão. Durante esse tempo, observamos o impacto que os primeiros meses de vida dentro de um presídio tem na vida de uma criança. Quando mais velha, ela se lembra do que passou? Como ela assimila a separação da progenitora?

Era a mãe, e não a filha, quem cumpria pena de 10 anos por tráficos de drogas. Por este motivo ocorreu a separação. Isso evita que a criança passe seus primeiros anos de desenvolvimento sob a cultura do sistema carcerário. Por isso, nenhum juiz deixa as crianças ficarem com as mães até os 7 anos, idade limite permitida por lei.

“A criança, a partir de um ano, começa a se movimentar, começa a caminhar pelos cômodos, e começa a falar. E nesse caminhar, ela começa a incorporar muitos hábitos da prisão, inclusive, o vocabulário, linguajar, procedimentos etc. Já fizemos a experiência de deixar mais de um ano na prisão e isso não fazia bem para as crianças”, justifica o juiz da Vara de Execuções Penais do Rio Grande do Sul, Sidnei Brzuska.

Dados do Ministério da Justiça apontam que, em junho de 2013, 345 crianças viviam em presídios no País. No ano passado, 14 crianças nasceram em prisões gaúchas, mas esse número já tinha passado de 15 no começo de 2014. 

Passamos a testemunhar a trajetória de Rosa em maio de 2012, quando estava com quase 9 meses de idade. Normalmente a separação acontece quando a criança completa 6 meses, mas as crises de asma fizeram com que ela pudesse ficar mais tempo com a mãe no presídio.

Por dois anos vimos seus primeiros passos, acompanhamos a angústia da mãe com a separação, o acolhimento por uma nova família (a ex-empregada doméstica de Maria), o reencontro, uma nova gravidez no semiaberto e tudo mais que aconteceu e que ainda acontece na vida dessa família moldada pelo encarceramento.

*Todos os nomes são fictícios

Com Rosa nos seus Braços, Maria tenta prolongar os poucos minutos que ainda tem com a filha
Com Rosa nos seus Braços, Maria tenta prolongar os poucos minutos que ainda tem com a filha
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

Acompanhe essa história a partir de agora:

Capítulo 1: "A vida era boa, mas era um dinheiro maldito"

No dia em que começaria a dar aulas para um menino deficiente, Maria foi presa por tráfico de drogas. Com ela foram encarcerados seu marido e seu pai. Pouco mais de um ano depois, engravidou da primeira filha, Rosa.

 

Capítulo 2: O nascimento de Rosa: "vão te roubar ela porque tu é presidiária"

Maria teve que ficar isolada de todos por mais de um ano por conta da gravidez de risco que provocou sua transferência de Caxias do Sul para Porto Alegre. Mas após o nascimento, surgiram os receios que toda mãe tem, com a diferença de que ela estava dentro de um presídio.

 

Capítulo 3: Crescendo no presídio: "ela anda por tudo"

Conforme crescia, Rosa brincava pela ala materno-infantil do presídio. Mas quando via uma janela, apontava para fora como se sentisse que para além das paredes do cárcere existia um mundo novo, que ela estava prestes a conhecer longe da mãe.

 

Capítulo 4: Separação: "parece que vão arrancar a minha vida"

"Quando é na rua, a festa de 1 ano é uma alegria, mas aqui é uma coisa triste", dizia uma detenta que viveu com Maria e Rosa na festa de aniversário que precedeu a separação de uma mãe de sua filha, algo difícil para todos que viveram ou viram o que aconteceu.

 

Capitulo 5: Rosa em liberdade: "dá para ver a mudança no olhar dela, está feliz"

Com a liberdade que nunca teve e nos braços da família substituta, Rosinha começa a viver uma infância semelhante a de outras crianças, correndo de um lado para o outro em busca da sua codorna de estimação e do carinho dos vizinhos. Ela vira o xodó da casa, todos perguntam por ela, e o brilho nos olhos é evidente. "Dá para ver a mudança no olhar dela. Está feliz. Antes era meio comedida, parecia que brincava pouco", diz Terezinha.

 

Capitulo 6: Família no semiaberto: "ela não dá limites"

Maria consegue a progressão de pena para o regime semiaberto, mas a vida nas ruas começa a apresentar mais desafios. Conciliar a vida dormindo todos os dias na cadeia é mais complicado do que parecia, ainda mais com a filha tão próxima e tão longe de seus braços.

Na casa onde vive com a família, Maria sofre com a instabilidade que ainda a impedem de ter uma vida normal
Na casa onde vive com a família, Maria sofre com a instabilidade que ainda a impedem de ter uma vida normal
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

 

Capítulo 7: Em liberdade: "quando passa alguma coisa de presídio na TV ela fala 'é onde tu tava, mamãe'"

Coisas simples tornam-se vitórias, mas a dívida pelo crime cometido ainda é cobrada e a tão sonhada estabilidade é garantida por uma linha tênue, ainda mais com a chegada de mais uma nova criança, já nascida em liberdade. O gosto da vida normal, torna o desafio ainda maior. Quando vê algo relacionado com a prisão, Rosa diz para a mãe: "é onde tu estava".

 

Números da população carcerária no Brasil

População carcerária feminina do Brasil
População carcerária feminina do Brasil
Foto: Arte: Igor Queiroz / Terra

 

Fonte: Terra
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