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Capítulo 7 - Em liberdade: a criança ainda lembra da prisão

19 nov 2014 11h09
| atualizado às 16h21
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O ano de 2013 foi marcado pelo reencontro da família, mesmo que provisório. A rotina trazia a sensação de normalidade e coisas simples como horário de ir para a escola, esperar pelo pai, tornaram-se vitórias em uma vida pautada pela instabilidade de quem ainda paga por um crime cometido. Mas sob o manto da normalidade, as memórias do passado ainda assombram a todos. Andar na linha parece mais difícil, porque uma vez na rua, são julgados e desafiados a provarem que se regeneraram. Em agosto, mês em que Rosinha comemorava 3 anos, Maria descobriu que estava grávida da segunda filha. Violeta nasce no dia 4 de abril com 3,5 quilos.

Maria sofre com o apego que a filha mostra pela tutora
Maria sofre com o apego que a filha mostra pela tutora
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

Assim como na primeira vez, a gravidez foi de risco. Ela demora a conseguir um médico que se responsabilize pela sua gestação enquanto cumpre pena no semiaberto. “Não queriam me dar o laudo porque diziam que eu só queria para não ter que dormir (na cadeia). Até eu conseguir uma médica que disse que eu não tinha condições de voltar porque a criança tinha risco de nascer prematura”, relata, dizendo-se vítima de preconceito.

Maria pede para cumprir o resto da pena no regime aberto, mas tem o pedido negado pela juíza – a mesma que lhe condenou a 10 anos por tráfico. Munida de um laudo e com a compreensão de um juiz substituto, ela tem a pena suspensa  por 120 dias. Junto a isso,  consegue a guarda temporária de Rosa, que agora fica com ela o tempo todo.  Sem descontar da pena a remissão (dias trabalhados) e os dias em casa por causa da gravidez, Maria só poderia deixar o semiaberto no final de 2014.

A experiência de ficar em casa com as duas filhas em liberdade faz com que a possibilidade de uma nova separação seja insuportável. “Eu não vou passar por isso de novo”, dizia, revoltada com a situação.

Rosa se comporta como uma criança normal em casa e come de tudo como dizem todos os pais e mães
Rosa se comporta como uma criança normal em casa e come de tudo como dizem todos os pais e mães
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

Naquele período ressurgiam as memórias da angústia vivida havia bem pouco tempo, e cujas marcas ainda mexem com a cabeça de Maria.  Sua maior preocupação é com a filha mais velha, que já adaptada à vida com sua família, teria que passar por mais um processo traumático.

“E não é fácil, como vou fazer? Vou deixar na casa dos outros por três, quatro meses, e depois? Não é fácil para mim e não é fácil para os outros. Como vou deixar minha filhinha, ela está acostumada com os horários, com a TV no quarto dela, com o horário de banho, da janta", reclama Maria. "Ela é muito inteligente. Até hoje ela sacode as grades, e quando passa alguma coisa de presídio na TV, ela fala: ‘é onde tu estava, mamãe?’”.

Os erros cometidos pelo casal no passado parecem assombrar os dois, mesmo quando as coisas parecem melhorar. E a medida que Maria e Rosinha começam a sentir o gosto de uma vida normal, o desespero volta a bater, porque a dívida com a sociedade ainda é cobrada e parece implacável, o preço é alto independente da gravidade do crime cometido.

Capítulos anteriores:

Capítulo 1  - "A vida era boa, mas era um dinheiro maldito"

Capítulo 2 - Nasceu: vão roubá-la porque tu é presidiária

Capítulo 3 - Crescendo no presídio: "ela anda por tudo"

Capítulo 4 - Separação: "parece que vão arrancar minha vida"

Capitulo 5 - Rosa em liberdade: "tu vê a mudança no olhar"

Capitulo 6 - Família no semiaberto: "ela não dá limites"

 

 

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Fonte: Terra
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