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Capítulo 3 - Crescendo no presídio: "ela anda por tudo"

19 nov 2014 11h04
| atualizado em 19/10/2015 às 22h16
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Mãe e filha juntas no presídio Madre Pelletier
Mãe e filha juntas no presídio Madre Pelletier
Foto: Daniel Favero / Terra
Capítulo 3 - Crescendo no presídio: "ela anda por tudo":

Entre as presas custodiadas na ala materno-infantil na Penitenciária Feminina Madre Pelletier, o colorido das paredes e a aparente tranquilidade disfarçam a tensão inerente a qualquer presídio. Entretanto, o local ainda está longe do ideal para se criar um filho, apesar de as funcionárias dizerem que muitas presas aprendem a se tornar mães lá dentro, mesmo já tendo filhos nas ruas. 

As detentas ficam alojadas em quartos, mas podem circular por diversas outras salas, onde recebem atendimento psicológico e social. Foi lá que Rosinha passou seus primeiros 12 meses de vida. Os corredores eram seu parquinho e ela vivia grudada na mãe, que não fazia outra coisa a não ser cuidar da filha. Entretanto, a menina não sabia o que era brincar em uma praça, bater os braços na água em uma piscina. Ela sempre apontava para a janela e batia nas grades com sua canequinha.

Corredores da ala Materno infantil do presídio Madre Pelletier
Corredores da ala Materno infantil do presídio Madre Pelletier
Foto: Daniel Favero / Terra

Quando começou a sair com Terezinha, ela conheceu o mundo exterior, mas não demorou para adaptar-se. “Com o que é bom a gente se acostuma logo”, dizia a mãe postiça. Rosa estranhava a presença de homens. Quando tivemos o primeiro contato com a criança, em maio de 2012, ela ainda não andava e se comportava como qualquer bebê de 9 meses.

Um mês depois, Rosa engatinhava para todo o lado. Sua maior diversão era correr com seu andador. Esse ímpeto lhe rendeu o apelido de “bebê monstro”. Neste mesmo mês, seu primeiro dentinho aparecia. Dois meses depois, já eram seis dentes nascendo.

Berço onde as crianças dormem no presídio
Berço onde as crianças dormem no presídio
Foto: Daniel Favero / Terra

"Ela já faz 'mã-mã', conhece a coordenadora da creche e a chama de Cacá. Ela é terrível... anda por tudo com o andador, atropela as gurias... ela conhece todas. Sabe quem dá atenção, quem dá manha para ela... tudo. Acho que ela vai sair daqui andando, porque, tem que ver, ela já sabe ficar de pé, se segura...", orgulha-se a mãe. 

Brinquedos das crianças abrigadas no presídio feminino de Porto Alegre
Brinquedos das crianças abrigadas no presídio feminino de Porto Alegre
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

De junho a agosto de 2012 as saídas de Rosinha começam a ficar cada vez mais frequentes e longas. Para ficar com a criança, Terezinha percorria mais de 240 quilômetros. Na rua, as marcas deixadas pelo encarceramento da mãe começam a transparecer em Rosa, que chorava ao voltar para os braços de Maria.

Nesse momento, a criança estava em uma das fases mais prazerosas de seu desenvolvimento. Começava a balbuciar algumas palavras e a dar os primeiros passos. Mas a alegria apenas esconde a ansiedade que cresce à medida que o aniversário de 1 ano da criança se aproxima, dia no qual seria separada da mãe.

Mãe e filha brincam na cela onde ficavam abrigadas no Madre Pelletier
Mãe e filha brincam na cela onde ficavam abrigadas no Madre Pelletier
Foto: Daniel Favero / Terra

Maria começa a ficar mais desestabilizada, relata frequentes ataques de asma da criança, que desaparecem na rua, e ela começa a temer pela segurança no presídio. "A gente tem medo de alguma presa brigar contigo e resolver descontar no teu filho. É muita droga... a falta da droga (...) aqui a gente sempre está em perigo, até pelo fato de as gurias brigarem entre si, alguma coisa pode acontecer, de jogarem água fervendo uma na outra, como já aconteceu, e respingar em uma criança (...) o tempo inteiro é baderna lá em cima, gritaria, rádio ligado. Eu já tenho um jeito diferente, é bem complicado ficar aqui", reclamava.

Carrinhos e cadeiras de bebê usado pelas detentas que tiveram filhos enquanto encarceiradas
Carrinhos e cadeiras de bebê usado pelas detentas que tiveram filhos enquanto encarceiradas
Foto: Daniel Favero / Terra

O desespero faz com que ela prometa para si mesma um futuro melhor. "Agora acho que sou uma mãe apaixonada pela minha filha, sou uma pessoa muito melhor, eu não era uma pessoa ruim, mas hoje sou muito, muito, melhor. Hoje eu vejo as coisas de uma forma muito diferente, minha mãe, meu pai...".

 

Fonte: Terra
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