PUBLICIDADE

Como é feito o trabalho de escolha da guardiã

19 nov 2014 10h59
| atualizado às 12h29
ver comentários
Publicidade

A escolha de um parente ou pessoa próxima que possa assumir a guarda de uma criança nascida dentro de um presídio é um processo delicado e complicado, que requer muita sensibilidade dos profissionais que realizam esse trabalho.

Quando uma gestante está com oito meses de gravidez se inicia um trabalho de resgate para buscar familiares que se disponham a ficar com as crianças enquanto a mãe cumpre sua pena. “Ela (a mãe) indica quem são os familiares com quem ela pode contar”, explica a psicóloga Daniela Canazaro, que atua no presídio feminino Madre Pelletier, onde Maria cumpre pena.

Após a mãe indicar parentes para assumirem a guarda provisória da criança são realizadas as entrevistas. Às vezes são três familiares para ver quem é que vai ter condições, se está motivado. Esclarecemos que é uma guarda provisória, porque pode ser que o familiar queira a adoção (definitiva). Isso já aconteceu, daí a gente explica que não, que é só enquanto a mãe estiver presa, que é temporário”, diz Daniela, ressaltando que a mãe participa ativamente dessa escolha.

Durante esse trâmite, é elaborado um relatório para o juiz da Vara de Execuções Penais, que determina a guarda da criança para a pessoa escolhida. No caso de Maria e Rosinha, a tutora escolhida foi Terezinha, sua antiga empregada doméstica, em virtude da impossibilidade de familiares assumirem a guarda da menina. “Perguntamos se é isso mesmo, se é com essa pessoa que tu quer deixar a tua filha, para sair, passear", relata a psicóloga.

Em meio a esse processo são realizadas visitas ao novo lar, e começam as saídas para adaptação da criança. “A gente vai acompanhando a família, através de contato telefônico, vê como está a criança. O que a mãe está observando quando a criança volta aqui com o familiar”, explica.

Gestação de abstinência de drogas
O próprio fato de estar encarcerada, de romper todos os vínculos já é uma situação muito peculiar, então algumas presas demonstram uma fragilidade emocional, um quadro de ansiedade anterior ao aprisionamento, que desencadeia e agrava os sintomas, principalmente quando aliado ao vício em drogas.

“É um numero bem elevado, aqui na unidade, acredito que 50% tem histórico de uso de drogas, o mais comum é o crack. Grande parte que tem histórico de uso de crack não usa medicação, porque a própria maternidade ocupa aquele vazio deixado pelas drogas. E como elas estão com o filho, durante a maternidade, cessam os sintomas de abstinência, até a identificação com o filho, por estar amamentando”, diz ela, citando que o apoio é muito maior e mais fácil de ser realizado na ala materno-infantil. “A autoestima se eleva. Elas são mães aqui, têm um identidade. Tudo isso favorece que elas consigam lidar melhor com essa situação da falta da droga”.

No interior do Estado do Rio Grande do Sul, esse processo de escolha, acompanhamento e adaptação muitas vezes não chega a ocorrer na entrega dos filhos, porque não existem alas materno-infantis nessas localidades. Para não terem que ser transferidas para Porto Alegre, onde podem ficar afastadas do contato familiar, por causa da distância, elas decidem entregar os filhos ainda recém-nascidos.

“Então, é essa dificuldade que nós enfrentamos por não ter uma unidade materno-infantil no interior, faz com que muitas mães presas ganhem seus filhos, e nem vem para cá, porque deixaram os filhos ainda recém nascidos com familiares”, relata Daniela.

Os efeitos de passar os primeiros anos de vida dentro de um presídio

Até os três anos de idade, tudo que acontece na vida de uma criança acaba por formar sua personalidade. Essa frase adquire importância ainda maior, quando se leva em conta a realidade de um presídio, onde diversas mulheres dividem espaço ao lado de seus filhos.

“Durante o tempo que elas estão aqui, eu trabalho muito com elas na questão do ambiente, do silêncio. Como elas moram todas juntas, às vezes são sete, oito bebês no mesmo alojamento, e a questão de relações de convivência é complicada, porque são muitas mulheres juntas com os bebês, mais os sintomas emocionais delas”, diz a psicóloga do presídio Madre Pelletier, Daniela Canazaro.

Segundo ela, o objetivo é clarificar “que esse bebê não está preso, quem está é a mãe, e sempre trabalhamos com elas para evitar brigas, discussões e um ambiente mais hostil para não deixar essas marcas no bebê”.

Para “evitar que essa criança tenha alguma sequela do período em que esteve aqui com a mãe” são realizados trabalhos em grupo e individualmente, conta Daniela.

A ala materno-infantil, onde as crianças ficam alojadas com as mães, é muito mais tranquila que as galerias, mas ainda assim, os conflitos são constantes. “Grande parte delas são mulheres muito jovens. Algumas muito imaturas, então o próprio ambiente já desencadeia alguns sintomas. Conviver 24 horas, com bebês recém-nascidos, são situações que acontecem: uma janela que está aberta, uma luz acesa, uma televisão é um motivo para uma briga”, relata a psicóloga.

Capítulos anteriores:

Capítulo 1  - "A vida era boa, mas era um dinheiro maldito"

Capítulo 2 - Nasceu: vão roubá-la porque tu é presidiária

Capítulo 3 - Crescendo no presídio: "ela anda por tudo"

Capítulo 4 - Separação: "parece que vão arrancar minha vida"

Capitulo 5 - Rosa em liberdade: "tu vê a mudança no olhar"

Capitulo 6 - Família no semiaberto: "ela não dá limites"

Capítulo 7 - Em liberdade: a criança ainda lembra da prisão

 

Leia também:

Lógica para tratamento de crianças é prisional

Crianças acabam assimilando hábitos do presídio

Na prisão, mulheres são abandonadas pela família

 

Fonte: Terra
Publicidade
Publicidade