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Veja relatos de sobreviventes e familiares após incêndio no RS

28 jan 2013
12h29
atualizado às 17h10
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Um incêndio em uma casa noturna de Santa Maria (RS), a 320 quilômetros de Porto Alegre, levou tragédia a centenas de famílias no último domingo. Mais de 230 pessoas, a maioria estudantes universitários, morreram na boate Kiss durante um show da banda Gurizada Fandangueira. Entre os sobreviventes, ao menos 300 ficaram feridos.

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Veja relatos de sobreviventes e familiares após incêndio no RS

Após a tragédia, depoimentos de amigos, familiares e autoridades ajudam a entender a dimensão da tragédia. De estudantes que perderam colegas a mães desesperadas pela morte dos filhos, os testemunhos ajudam a contar o que aconteceu. Veja relatos marcantes do incêndio em Santa Maria:

"Foi desesperador. Vi umas 20 pessoas morrerem"
Ricardo Felipe Rodrigues Lemos, 26 anos, trabalhava em um estacionamento próximo à boate Kiss quando aconteceu o incêndio. Ele disse que ouviu uma gritaria, mas viu que o incidente era grave quando três rapazes pediram ajuda. Ricardo correu para ajudar os feridos, que saíam "desnorteados" da casa noturna, gritando por socorro. "Fui socorrendo como podia. Joguei água em algumas das pessoas que saíram desesperadas, ajudei como pude até que as equipes de resgate chegassem", afirmou.

Os socorristas orientaram Ricardo a conversar com as vítimas para tentar evitar que elas desmaiassem. "Os paramédicos pediram pra eu tentar manter as pessoas acordadas. Eu falava: 'cara, fala comigo! Olha pra mim! Fica comigo!', mas foi desesperador. Vi umas 20 pessoas morrerem. Foi um negócio muito, muito triste", contou ele.

"Poderia ser a minha família sofrendo agora"
O estudante de administração Leandro Ozório, 21 anos, estava na boate Kiss, em Santa Maria, quando começou o incêndio, e disse que percebeu o fogo logo no início. "Eu estava bem na entrada, a poucos passos da porta. O meu amigo estava comigo, viu o fogo e me mostrou. Quando olhei, os integrantes da banda estavam tentando apagar, mas o fogo tomou conta (do palco) muito rápido. Vi que eles não conseguiriam apagar e resolvi sair", disse o jovem.

Leandro confirmou que os amigos mais próximos estavam bem e, sem ter ideia da dimensão da tragédia, foi para casa. "Dormi e, quando acordei, já falavam em mais de 150 mortos! Eu poderia ter morrido", disse o estudante. "Poderia ser a minha família que estaria sofrendo agora. Sinto um peso com tudo isso", afirmou Leandro, que acredita que nunca mais irá esquecer aquela noite. "Tu esqueceu os desastres dos Estados Unidos com as Torres Gêmeas? O terremoto no Haiti? A gente não esquece. E isso que, nesses casos, a gente não estava por perto, não estava no momento. Aqui, eu estava presente. É complicado".

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"Na hora do incêndio, ele estava no banheiro"
O estudante Lucas Oliveira, 20 anos, foi à boate Kiss na noite de sábado para comemorar o aniversário da namorada, Yasmim, 19 anos. Porém, pouco antes do início do incêndio, ele foi ao banheiro, onde morreu asfixiado pela fumaça. "Ele estava com a namorada dele, que comemorava seu aniversário, mas na hora que deu o incêndio ele estava no banheiro. Ela conseguiu escapar ilesa", disse o tio do jovem, Dirnoé Santos. O estudante, que era apaixonado pelas tradições gaúchas, foi velado em um caixão coberto pela bandeira do Rio Grande do Sul.

"Era para eu estar lá"
Foi o pai de João Vitório Tavares, 19 anos, que impediu o estudante de ir à boate Kiss na noite de sábado. "Os guris já tinham me ligado umas sete vezes para ir para a Kiss, já tinha até me arrumado, mas meu pai trancou o pé na porta e não me deixou sair. Acabei dormindo e fui acordado por várias ligações me perguntado se eu estava bem", disse o jovem, que perdeu pelo menos três amigos no incêndio. "Poderia ter sido eu, era para eu estar lá. (...) A ficha ainda não caiu, não sei como pode ter acontecido uma coisa dessas", afirmou João.

Indignação "com o descaso"
Roberta Hardtori, 23 anos, perdeu pelo menos duas amigas e dois amigos na tragédia da boate Kiss. No domingo, a jovem descreveu o que sentia como indignação: "com tudo, com as autoridades, com o descaso, falta de preparo, estrutura". Roberta acredita que as mortes farão com que haja mais fiscalização nas casas noturnas. "Acho que os pais também vão ficar mais preocupados com os filhos, já que essa é uma cidade universitária", disse ela.

"Mataram meu filho! Mataram meu filho!"
Os gritos de uma mãe após reconhecer o corpo do filho no Centro Esportivo Municipal de Santa Maria foram os últimos antes de a mulher desmaiar. "Mataram meu filho! Mataram meu filho!", bradou ela, que não foi identificada. Enquanto isso, quase mil familiares se abraçavam e choravam do lado de fora do ginásio.

"Estou traumatizado"
O analista de sistemas Max Müller, 33 anos, filmou as cenas de horror em frente à boate Kiss após o incêndio e disse que não consegue esquecer de nada. "O que está no vídeo é 10% do que eu vi. A situação piorava à medida que a noite passava", disse. "Estou traumatizado. Vi vítimas com um lado do rosto derretido, pessoas que tentavam ajudar fazendo massagem cardíaca sem saber, quebrando ossos", afirmou Max. "É horrível ver tantos mortos, garotos, no chão, pessoas chorando, outras vomitando, sem conseguir respirar. Alguns arrancavam roupas para fazer massagem, mas nem todos estavam aptos a isso", disse o analista de sistemas.

Cenário de "guerra, de holocausto"
O delegado Mauro Mendes, que faz parte da força-tarefa montada para investigar as causas do incêndio, descreveu o que viu após o incêndio como um cenário de "guerra, de holocausto". Ele afirmou que o fogo pode ter se espalhado pelo sistema de ventilação do prédio, e que não havia janelas ou outras vias de escape das chamas e fumaça. "Se a gente analisar o ambiente, está totalmente tomado de fuligem, então a fumaça se espalhou lá dentro certamente por não ter saídas nem janelas. Isso fez com que a fumaça afetasse as pessoas e impedisse que algumas delas conseguissem sair", disse o delegado.

"Foi um sinalizador que o vocalista soltou"
Ana Paula Muller, 19 anos, estava muito perto do palco da boate Kiss na madrugada do último domingo, mas conseguiu escapar do incêndio. A estudante de engenharia civil disse que viu tudo desde o começo: "foi um sinalizador que o vocalista soltou, atingiu o teto e deu início ao incêndio. Foi tudo muito rápido". A jovem lembra que abriu caminho entre a multidão em direção à saída: "mais ou menos na metade, olhei para trás e estava tudo preto por causa da fumaça. Caí, mas consegui me levantar, e fugi. Vi pessoas caírem, mas, na hora do pânico, ninguém pensa nos outros". Ana Paula viu um amigo morrer do lado de fora da boate - "conseguiu sair, mas teve uma parada cardíaca e não resistiu. Também perdi outras pessoas que conheço da faculdade".

"Dizia que o teto estava pegando fogo, mas ninguém acreditava"
Rocheli Brondani, outra estudante de engenharia civil, também testemunhou o princípio do incêndio na boate Kiss. "Eu dizia que o teto estava pegando fogo, mas ninguém acreditava, ninguém me dava atenção. Saí correndo, não ajudei nem a minha amiga, não olhei para trás, e consegui sair", disse a garota, de 23 anos. Na porta, segundo ela, os seguranças "não entendiam o que estava acontecendo. Achavam que se tratava de uma briga, e, depois, perceberam que era um incêndio". "Vi pessoas feridas, vomitando, minha amiga foi pisoteada, mas sobreviveu. Ela contou que, quando estava perto da porta, as pessoas começaram a cair umas por cima das outras. Ela se segurou em outra pessoa e conseguiu sair", afirmou Rocheli.

"Um celular tinha mais de 100 chamadas não atendidas"
Os celulares de vários jovens mortos no incêndio em Santa Maria tocavam durante os trabalhos de resgate, segundo o coordenador da Defesa Civil da cidade, Adilomar Silva. "Realmente é chocante. Havia (...) celulares nos bolsos tocando. Um celular tinha mais de 100 chamadas não atendidas", disse ele. "A gente que está aqui no front, vivenciando a situação, imagina o que o pai está enfrentando. Santa Maria é uma cidade universitária, uma cidade que tem muitos estudantes de várias partes do Estado e do Brasil, inclusive. Então alguns jovens residem sozinhos na cidade", afirmou. "Por isso, a nossa preocupação - das equipes de segurança - de agirmos o mais rápido possível na identificação desses jovens, para que os familiares tenham uma notícia precisa. Porque, neste momento de dor, a dor aumenta mais ainda com a indefinição das informações", disse o coordenador da Defesa Civil.

"Incêndio na Kiss, socorro"
O Facebook foi o único recurso encontrado por Michele Froehlich Cardoso para tentar pedir socorro, mas não adiantou - ela e a irmã, Clarissa, morreram na tragédia em Santa Maria. "Incêndio na Kiss, socorro", escreveu a garota. Amigos comentaram perguntando o que estava acontecendo e ficaram várias horas sem saber o desfecho do incidente para Michele. Quando a morte dela foi confirmada, muitos usaram a página social para homenageá-la. "Não imaginei que fosse sério quando vi um pedido de socorro pelo facebook nessa madrugada, até acordar com uma mensagem da minha mãe sobre o ocorrido. Sem muitas palavras para um dia como esse, Michele Cardoso, descanse em paz", postou Guilherme Kerwald Schneider.

"Me pisaram no pescoço, no peito e nas costas"
Após a prisão de dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava na boate quando teve início o incêndio, outros membros do grupo relataram o que aconteceu no palco no momento em que as chamas se espalharam. Segundo o guitarrista Rodrigo Martins, os músicos tiveram muita dificuldade para achar a saída, que não estava bem sinalizada. "Eu achava que ia morrer. Todos gritando ali na frente, não comparando, mas pareciam animais. Na hora que eu consegui sair, me pisaram no pescoço, no peito e nas costas, até estou machucado. Graças a Deus me puxaram, mas muita gente morreu pisada”, relatou

"Só lembro dos que não resgatei"
O estudante de Educação Física Ezequiel Corte Real, 23 anos, não sabe exatamente o número de pessoas que resgatou do incêndio. Tampouco se lembra da fisionomia daqueles que tirou da negra nuvem de fumaça que ocupara o local. No entanto, ele tem uma vívida memória dos muitos que não teve como ajudar: "lembro só do rosto das pessoas que me pediam socorro e não consegui resgatar". O barman da boate recorda os instantes anteriores ao incêndio. A canção era Amor de Chocolate, do cantor Naldo, reproduzida pela banda Gurizada Fandangueira. Foi neste momento que o vocalista do grupo disparou para o alto um artefato pirotécnico conhecido como Sputnik, cujas faíscas chegaram ao forro do teto, onde um pequeno clarão se abriu. "O teto ficava bem próximo, só que o extintor não funcionou. E as pessoas vaiaram", relata. "Aí começou a surgir uma manta de fogo e a pingar umas gotas, como aquelas de quando se queima um plástico."

"Não sei nem por quem chorar"
A fotógrafa Mariana Magalhães, 24 anos, conta que viu o início do fogo e saiu correndo para fora, salvando cinco pessoas, apesar da maioria não ter dado bola para o incêndio que se iniciava. "Não sei se fico feliz por ter salvado a minha vida ou triste porque não sei nem por quem chorar", afirmou. "Eu saí muito cedo. Acho que a maioria do pessoal estava bem embriagada e não deu muita importância: 'imagina que vai pegar fogo em uma boate tão famosa'. Acho que o pessoal pensou: 'daqui a pouco apaga, é só um foco pequeno de incêndio'", disse a fotógrafa, confessando que fez um escândalo ao sair do local. "Não sei por que me desesperei tanto, até pensei na hora: devo estar fazendo fiasco. Mas uma coisa me dizia: grita, corre", contou.

Incêndio na Boate Kiss
Um incêndio de grandes proporções deixou mais de 230 mortos na madrugada deste domingo em Santa Maria (RS). O incidente, que começou por volta das 2h30, ocorreu na Boate Kiss, na rua dos Andradas, no centro da cidade. O Corpo de Bombeiros acredita que o fogo iniciou com um sinalizador lançado por um integrante da banda que fazia show na festa universitária.

Segundo um segurança que trabalhava no local, muitas pessoas foram pisoteadas. "Na hora que o fogo começou foi um desespero para tentar sair pela única porta de entrada e saída da boate e muita gente foi pisoteada. Todos quiseram sair ao mesmo tempo e muita gente morreu tentando sair", contou. O local foi interditado e os corpos foram levados ao Centro Desportivo Municipal, onde centenas de pessoas se reuniam em busca de informações.

A prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias e anunciou a contratação imediata de psicólogos e psiquiatras para acompanhar as famílias das vítimas. A presidente Dilma Rousseff interrompeu viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde se reuniu com o governador Tarso Genro e parentes dos mortos.

Fonte: Terra
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