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Carandiru: 'não fui eu, não foram meus homens', diz ex-chefe da Rota

1 ago 2013
16h04
atualizado às 16h48
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O ex-comandante da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tenente-coronel Salvador Modesto Madia, que comandou a Rota em 2012, afirmou ao juiz Rodrigo Tellini, em seu interrogatório, que não é responsável pelas 73 mortes ocorridas no terceiro pavimento do Pavilhão 9 na Casa de Detenção, no episódio do "massacre do Carandiru", em que 111 presos foram mortos após ação em outubro de 1992.

<p>Em depoimento, ex-chefe da Rota negou responsabilidade de sua tropa no massacre</p>
Em depoimento, ex-chefe da Rota negou responsabilidade de sua tropa no massacre
Foto: Fernando Borges / Terra

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"Não fui eu, não foram meus homens", afirmou Madia. O juiz insistiu: "PMs mataram esses homens?". A resposta foi evasiva: "não sei". Madia assume que entrou na Casa de Detenção naquela data, que disparou a sua arma, uma metralhadora, e portava ainda um revólver na cintura.

O policial lembrou que nos dias seguintes à ação policial, viu nos jornais as fotos com mais de uma centena de mortos e que ficou chocado, como qualquer cidadão. "Aquele mar de mortos (...) Pensa que não me chocou? O senhor acha que eu tomei um copo de sangue em casa (para comemorar)?. Nós combatemos criminosos nas ruas. Falam que só matamos pobres e negros. Olha a cor deles (se referindo aos demais réus). Gente que se aposenta com R$ 2,7 mil."

Ele colocou ainda em xeque o que ouviu nos últimos dias, durante o depoimento de testemunhas e de seus colegas de tropa. "Ouvimos aqui todo o tipo de gente. Gente que disse que matamos presos com metralhadora, com marretada, como no holocausto."

Ele prossegue: "disseram que jogamos presos no fosso de elevadores, que entramos em celas, disparamos rajadas de metralhadoras. Que helicóptero com tripé atirou contra os presos. Entrei lá e não nego. Meus homens não negam. Nós atiramos e entregamos as nossas armas. Somos homens que vivemos nas ruas, não atrás das escrivaninhas. Eu nunca dei tiro na cabeça de ninguém. Fomos mandados a apresentarmos as armas", disse ele.

Madia disse que os seus homens estavam sob a sua responsabilidade. "Nós não fizemos. Não tivemos medo de dar a cara. Não fizemos e eu não admito desvio de conduta. Eu os prenderia em flagrante", disse ele, que entrou na detenção com uma equipe de cinco pessoas.

Ele conta que a ação foi um momento de grande estresse - o maior de sua carreira de 31 anos como policial. "Todos têm medo, é contido, mas existe. Todos sabem que ninguém é super-homem. Vinte e um anos depois parece muito simples e tranquilo. É muita adrenalina, existe uma dinâmica. Não é um DVD que inicia, para e passa quadro a quadro.”

Julgamento
O quarto dia do julgamento dos 25 policiais militares acusados por 73 das 111 mortes ocorridas em 2 de outubro de 1992, na Casa de Detenção de São Paulo, nesta quarta-feira, está reservado para o interrogatório do coronel Salvador Modesto Madia e para a apresentação de vídeos e parte do processo colhidos nesses quase 21 anos que separam a ocorrência e o seu julgamento.

Esta é a segunda etapa do julgamento, que começou em abril com a condenação de 23 policiais militares - todos integrantes do 1º Batalhão de Choque (a Rota - Rondas Ostensivas Tobias Aguiar). Eles receberam uma pena de 156 anos de prisão, em regime fechado, por conta de 13 das 15 mortes ocorridas no primeiro andar do prédio. Todos recorrem da sentença em liberdade.

Nessa primeira etapa, os policiais receberam a pena mínima para cada homicídio, que é de seis anos, somada a mais seis anos por impossibilitarem a defesa das vítimas. Os 12 anos foram multiplicados pelas 13 mortes para se chegar ao resultado final da sentença. Na ocasião, o júri ainda absolveu três PMs denunciados: Roberto Alberto da Silva, Eduardo Espósito e Maurício Marchese Rodrigues, seguindo recomendação do próprio Ministério Público. A justificativa é que eles não atuaram no 1º andar do pavilhão com a tropa.

Relembre o caso
Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre presos da Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e a morte de 111 detentos. Os policiais são acusados de disparar contra presos que estariam desarmados. A perícia constatou que vários deles receberam tiros pelas costas e na cabeça.

Entre as versões para o início da briga está a disputa por um varal ou pelo controle de drogas no presídio por dois grupos rivais. Ex-funcionários da Casa de Detenção afirmam que a situação ficou incontrolável e por isso a presença da PM se tornou imprescindível.

A defesa afirma que os policiais militares foram hostilizados e que os presos estavam armados. Já os detentos garantem que atiraram todas as armas brancas pela janela das celas assim que perceberam a invasão. Do total de mortos, 102 presos foram baleados e outros nove morreram em decorrência de ferimentos provocados por armas brancas. De acordo com o relatório da Polícia Militar, 22 policiais ficaram feridos.

Fonte: Terra
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