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Carandiru: defesa cita 'Tropa de Elite' e acusa governo para absolver PMs

Advogada afirma que policiais não podem ser acusados por uma ação coletiva da tropa, e diz que governo foi omisso

20 abr 2013
17h05
atualizado às 17h16
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Na defesa dos 26 réus acusados por 15 mortes no "Massacre do Carandiru", em outubro de 1992, a advogada Ieda Ribeiro de Souza comparou a corporação da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) ao Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), que atua no Rio de Janeiro. Ela afirmou que a tropa foi "vendida" pelo governo paulista  e que o ex-governador de São Paulo Luiz Antonio Fleury Filho se omitiu no episódio porque estava mais preocupado em fazer politicagem do que com o que aconteceu na Casa de Detenção.

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"Ele (Fleury) falou aqui: 'eu recebi a notícia dos 50 mortos e fui dormir'. Como assim? Autoridade tem de estar lá. É assim que funciona em um país sério", disse. "Ele divulgou o número de 111 mortes 5 minutos após fecharem as urnas. Porque ele estava mais interessado em politicagem. Essa corporação foi vendida. Ele disse aqui: 'a minha polícia não se omite'. E eu diria: o meu governo se omitiu." Para ela, em 2006, durante os ataques do PCC às forças policiais, a corporação foi vendida "de novo".

Ela defendeu a ação da Rota, que atuou no primeiro pavimento do Pavilhão 9, lembrando que a equipe é chamada normalmente quando os recursos convencionais não são suficientes. "Os senhores querem julgar a Rota? Julguem o que ela faz de bom. Vocês (jurados) lembram do filme Tropa de Elite? Quando polícia convencional não dá jeito, chega o Bope, chega a Rota. A Rota é muito mais antiga do que o Bope. Mas o Bope dá Ibope. A Rota, inclusive, foi quem deu treinamento a eles." Depois, concluiu: "esses homens cumprem ordens. Missão dada é missão cumprida".

Para ela, há um equívoco ao tentar convencer os jurados que os policiais agiram como tropa. "Acuse-me do que eu fiz para provar o que eu não fiz", afirmou, dirigindo-se ao conselho de sentença, formado por sete jurados. "Eu não posso punir um pela conduta do outro. A pessoa tem de ser julgada pelo que efetivamente fez. Entraram 330 policiais. Porque estou julgando 79?", perguntou. Ela mesma respondeu. "Porque eles tiveram a coragem de dizer que entraram e atiraram."

Em toda a fala, ela tentou desqualificar os depoimentos que a promotoria apontou aos jurados como essenciais para apontar a culpa dos réus. "O (Osvaldo) Negrini (que fez a perícia no Pavilhão 9) quis se promover em cima do laudo que produziu", disse. A advogada ironizou ainda o fato de a Polícia Civil ter dito que foi impedida pela PM de entrar no Carandiru. "Por que não levaram o caso para as suas chefias? Foi incompetência, covardia, ninguém quis enfrentar o que aconteceu lá." Segundo ela, falar de preservação de local hoje é fácil. "Havia 2 mil presos debaixo de chuva esperando para voltar para a prisão."

De acordo com ela, o processo só demorou 20 anos para ir a júri por falta de coragem daqueles que teriam de tomar a decisão. "Ninguém teve a coragem que eles (os réus) tiveram", disse ela, se referindo ao episódio do Carandiru.

Durante a sua fala, por diversas vezes ela enalteceu a Polícia Militar. "Estou neste caso desde 1997. O que a sociedade não entende é que os meus heróis estão aqui. Nem sempre a sociedade entende o dever, a missão. Eu me penitencio e peço desculpas porque a sociedade não os respeita. PM não é só a farda que veste. Orgulho-me dos senhores."

Aos policiais que faziam a segurança do Fórum, ela foi além: "vivam a profissão como esses homens viveram", disse ela, apontando para os réus. Sobre a tese defendida pela promotoria, de que a Polícia Militar introduziu 13 armas frias no presídio para dizer que foram apreendidas com os presos, ela se exaltou. "Eu não plantaria 13 armas, eu plantaria 111. Não me venham dizer que entrujaram 13 armas. Não estamos lidando com moleques."

Disse também que o fato de os militares estarem em julgamento pela Justiça comum provoca um desvio. "Qual o problema hoje de a Justiça comum de estar julgando militares? Não conhece, não sabe, não entende a corporação."

No final da sua defesa, ela disse que os policiais só estão no banco dos réus por conta da pressão social. A advogada afirmou que, em 2006, durante os ataques do PCC, nenhuma família de policial recebeu "visitinha de direitos humanos", e que a tropa agiu no estrito cumprimento do dever legal. "Só se pode condenar pelo que cada um fez." Dessa forma, pediu a absolvição de todos. Ao todo, 111 detentos do Carandiru morreram após a polícia invadir o pavilhão 9, depois de uma briga entre dois presos dar início ao tumulto.

Devido ao número de réus, o júri foi dividido por etapas, de acordo com o número de mortes ocorridas em cada pavimento: pelo menos outros três julgamentos devem ocorrer. Nesta etapa, 26 dos 84 policiais militares denunciados por homicídio serão julgados, acusados de participar das mortes de 15 presos do segundo pavimento. Como já se passaram mais de 20 anos da ocorrência dos fatos, ao menos cinco réus já morreram, sendo que 79 policiais militares que atuaram naquele dia serão julgados.

O júri é formado por seis homens e uma mulher, que decidirão se absolvem ou condenam os acusados. O julgamento acontece no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, e pode durar até a próxima semana.

Fonte: Terra
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