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Carandiru: absolver PMs é 'cuspir na cara do bom policial', diz acusação

Promotor descreve perfil dos presos assassinados e lê "currículo" de mortes dos réus da Rota para pedir condenação

20 abr 2013
21h20
atualizado às 21h20
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O promotor público Márcio Friggi, um dos responsáveis pela acusação contra os 26 policiais militares acusados de participar do massacre do Carandiru, destacou neste sábado, durante o sexto dia de julgamento do caso, o histórico de relatos de abusos cometidos por integrantes do 1º Batalhão de Choque - Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) - contra a população pobre, para pedir a condenação dos réus. O grupo é acusado de ser responsável por 15 das 111 mortes ocorridas no 1º andar do Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, em 2 de outubro de 1992. Outros 53 policiais militares ainda devem ser julgados por participação no episódio em outros três júris.  O resultado do júri, que acontece no Fórum Criminal da Barra Funda, só deve ser conhecido entre o final da noite deste sábado e o início da madrugada de domingo.

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"Absolver diante dessas provas, diante deste cenário, acusados com esse perfil, é negar a possibilidade de se homenagear a Polícia Militar. É cuspir na cara do bom policial", disse o promotor, após ler o "currículo" com o histórico de mortes cometidas pelos réus durante a carreira.

Mais cedo, o Ministério Público pediu que os sete jurados absolvessem três dos 26 réus, pois eles não atuaram naquele pavimento, e excluíssem a acusação de duas das 15 mortes contra o grupo, pois um dos presos foi morto a facadas e outro também foi assassinado em outro andar do pavilhão. A acusação, portanto, pede a condenação de 23 policiais da Rota pelas mortes de 13 presos.

Perfil dos presos versus ficha dos PMs
Para tentar sensibilizar os jurados a descartarem a tese de que "bandido bom é bandido morto", o promotor apresentou um breve perfil das 13 vítimas, em que destaca que, em sua maioria, eram jovens, negros, pobres e já não deveriam estar no Carandiru na época dos fatos, já que muitos tinham direito à liberdade condicional ou não haviam sido sequer julgados. Em um momento, ele citou como exemplo o caso do preso Ronaldo Aparecido Gasparino, morto aos 26 anos com sete tiros, que estava no Carandiru havia cerca de 40 dias, mas que já havia conquistado meses antes o direito de cumprir a pena por roubo em liberdade.

Gasparino, segundo o promotor, foi preso por ter roubado cerca de R$ 12 de um ônibus e, citando a declaração da própria vítima - um cobrador de ônibus -, ele se explicou dizendo que "o dinheiro era para o leite das crianças". "É esse o 'monstro' que merecia morrer, porque roubou R$ 12. Mas ninguém está nem aí, porque essas pessoas são pobres", disse Friggi. "Eles (os detentos) sofrem do mal da invisibilidade social. Ninguém estava nem aí com eles. Não importa. Eles cumpriam legalmente as suas penas. Hoje merecem um pouco de consideração", completou o promotor.

Citando dados do livro Rota 66, do jornalista Caco Barcellos, o promotor volta a abordar a questão da letalidade da Rota, e aponta quantas mortes cada um dos réus tinha no "currículo". Segundo ele, um dos réus, que havia sido dado como enfermo e não compareceu ao júri, na realidade se ausentou porque é considerado foragido da polícia. Outro PM acusado teria cometido 23 homicídios, enquanto outro teria sido acusado de atirar contra um adolescente que furtou merenda escolar.

"São esses os nossos heróis", ironizou o promotor, rebatendo a declaração da advogada Ieda Ribeiro de Souza, que defende o grupo. "Quem são as vítimas da Rota? Marginalizados e pobres", completou. "Aquela história de que bandido bom é bandido morto, na verdade, é bandido morto é bandido pobre. Mas ninguém liga, ninguém está nem aí", afirmou. 

Mensalão como exemplo
Também com o objetivo de desqualificar a tese da defesa, que pede a absolvição dos réus dizendo que os PMs cumpriam ordens e que não é possível apontar quem atirou contra quem, o promotor lembrou que eles foram denunciados pela "conduta coletiva". Para tanto, ele cita como exemplo o julgamento do caso do Mensalão, julgado no ano passado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em que os acusados de participar no esquema de compra de votos de parlamentares durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram condenados também por uma ação conjunta.

"Esse argumento de que não tem como provar quem fez o que é o mais surrado, mais batido", disse o promotor, comparando a estratégia da advogada à tese usada pela defesa dos réus do mensalão. "Mas os dois ministros que absolveram foram contra oito que condenaram", afirmou.

Fonte: Terra

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