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Golpe começou invisível, diz sobrinho de substituto de Jango

Após o Congresso Nacional declarar vago o cargo de presidente da República, o então presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, foi conduzido ao posto

27 mar 2014
14h53
atualizado às 15h00
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O advogado e professor Hugo Nigro Mazzilli tinha 13 anos quando seu tio foi protagonista de um dos momentos mais marcantes da história recente do Brasil. Na madrugada de 2 de abril de 1964, em sessão extraordinária, o Congresso Nacional declarou vago o cargo de presidente da República, então ocupado por João Goulart, o Jango, que se encontrava fora do País, alegadamente em local desconhecido. Esse foi o marco inicial do que ficou conhecido como Golpe de 64. Como previa a legislação brasileira, foi conduzido ao posto o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, advogado e deputado federal por sete mandatos consecutivos.

Ranieri Mazzilli, advogado e deputado federal por sete mandatos consecutivos, era presidente da Câmara dos Deputados em 1964
Ranieri Mazzilli, advogado e deputado federal por sete mandatos consecutivos, era presidente da Câmara dos Deputados em 1964
Foto: Arquivo Pessoal / Hugo Nigro Mazzilli / Reprodução

Foi a terceira e última passagem do parlamentar pela Presidência. Durou apenas 13 dias, quando Mazzilli deu lugar ao Marechal Humberto Castelo Branco, escolhido em eleição indireta no Congresso Nacional. A partir daí, iniciou-se uma história bastante viva na memória dos brasileiros, com a ditadura, que se estendeu até 1985. No âmbito familiar, uma outra história, viva na memória de Hugo Nigro, descreve como a ascendência de Ranieri à Presidência em um momento de alternância do poder civil para o militar afetou os Mazzilli - e uma nação.

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Algumas dessas lembranças constam no livro Muitas Vidas, editado em 1998 por Hugo Mazzilli - pai de Hugo Nigro. O sobrinho de Ranieri conta que o destaque político da família gerava sentimentos bons e ruins. Com o sobrenome em evidência, Hugo Nigro era seguidamente questionado quanto a um possível parentesco com o parlamentar, o que confirmava com orgulho. “Era um nome de prestígio, pois meu tio era respeitado”, afirmou Hugo ao Terra, em entrevista exclusiva. “Era filho de imigrantes, e, com seus próprios méritos, tinha chegado aos cargos mais altos do País”, completa.

Na época, Ranieri morava em Brasília, para onde se mudou assim que a capital federal foi transferida do Rio de Janeiro. O restante da família residia em São Paulo, o que resultava em pouco contato de Hugo Nigro com o tio. Seu pai, por sua vez, era figura mais próxima do deputado, inclusive viajando para encontrá-lo em um momento de apreensão quanto à situação do País e de seu irmão. “Foi um período de preocupação, e não de alegria”, resume.

Ordem nas ruas
Ranieri Mazzilli ocupou o cargo de forma protocolar, zeloso de seu papel em um momento político instável. Raramente, consultava-se com seu irmão, lembra Hugo Nigro. O fato de ele não dividir informações com a família vai ao encontro da análise que o sobrinho faz do golpe militar: “No começo, para nós, população, ele nem era praticamente visível. Não fossem os jornais e a televisão, nem se saberia de golpe”, relata.

Hugo Nigro tinha 13 anos quando seu tio foi protagonista de um dos momentos mais marcantes da história recente do Brasil
Hugo Nigro tinha 13 anos quando seu tio foi protagonista de um dos momentos mais marcantes da história recente do Brasil
Foto: Arquivo Pessoal / Hugo Nigro Mazzilli / Reprodução

Conforme Hugo Nigro, o primeiro sinal de mudança foi a ordem nas ruas. Aos poucos, em momentos posteriores ao golpe, os brasileiros perceberam que essa ordem tinha um custo. Mais soldados nas ruas, mais policiamento e, em seguida, menos liberdade. “Todos nós tínhamos mais cuidado ao falar com desconhecidos sobre política”, conta.

As restrições impostas pelos militares, no entanto, foram inicialmente vistas como necessárias e positivas. Ele relata que o País vivia momentos anárquicos, com greves generalizadas, agitação de sindicatos e turbulência política geral. “A chamada revolução, para mim, num primeiro momento, pareceu vir a pôr ordem no País”, alega.

Irmão de Ranieri, Hugo Mazzilli escreveu um livro sobre as lembranças da época em que o familiar assumiu a Presidência
Irmão de Ranieri, Hugo Mazzilli escreveu um livro sobre as lembranças da época em que o familiar assumiu a Presidência
Foto: Arquivo Pessoal / Hugo Nigro Mazzilli / Reprodução

Com o passar do tempo, a esperança deu lugar à decepção. Hugo Nigro diz que ditadura passou a asfixiar as liberdades públicas, perseguir indivíduos e governar cidades, Estados e o próprio País com pessoas destituídas de investidura e inclinação democrática. “Vi, como creio que todos os brasileiros acabaram percebendo, que tínhamos sido iludidos”, lamenta. Segundo ele, a situação não só prosseguiu como se agravou, com colegas da graduação em Direito desaparecendo após novo golpe militar em 1968. “Nem sei o que aconteceu com eles”, relata.

Imposição legal
Segundo Hugo Nigro, o tio não possuía qualquer ligação com o golpe que tirou Jango do poder. Se o parlamentar assumiu a Presidência, acrescenta o sobrinho, não foi por vontade pessoal, mas por imposição da Constituição. “Nada restava a meu tio senão cumprir a lei”, argumenta. Também sua postura alegadamente modesta no episódio se deve ao fato de o governo estar nas mãos dos militares. “Se os militares usurparam o poder, não havia força civil capaz de se opor a eles na ocasião, como os fatos demonstraram”, afirma.

Até o perfil de Ranieri, segundo o sobrinho, destoava bastante do estilo de governo praticado após o Golpe. Hugo Nigro afirma recordar de um homem de bem, verdadeiro diplomata e conciliador, que nunca estimulava contendas. “Lembro-me bem dele, muito pausado até para falar”, conta.

Capa do livro Muitas Vidas, editado em 1998 por Hugo Mazzilli
Capa do livro Muitas Vidas, editado em 1998 por Hugo Mazzilli
Foto: Arquivo Pessoal / Hugo Nigro Mazzilli / Reprodução

Líder da oposição na Câmara, Ranieri foi perseguido durante a ditadura, perdeu por poucos votos a presidência da casa legislativa para Bilac Pinto - que tinha o apoio militar - e viu sua reeleição a deputado inviabilizada em 1965, ano no qual ainda foi denunciado em inquérito policial militar, acusado de praticar “caixa 2”, tendo o aval do Ministério Público de São Paulo. Apesar de o Tribunal de Justiça rejeitar a denúncia e, depois, o Supremo Tribunal Federal fazer o mesmo com o recurso, o parlamentar teve seu futuro político comprometido e a possibilidade de candidatura ao governo paulista não confirmada.

Para Hugo Nigro, o maior feito do tio foi o papel de moderador que exerceu na transição do poder civil para os militares. Assim, afirma ele, o deputado evitou uma crise institucional que poderia gerar divisões e derramamento de sangue - fato reconhecido até por adversários em sessão da Câmara em 23 de abril de 1975. Mas Ranieri não tomou conhecimento das declarações. Faleceu dois dias antes, às vésperas de completar 65 anos, vítima de complicações pós-operatórias.

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