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Golpe de 64: ‘Todos foram pegos de surpresa’, diz professora

Para Dulce Pandolfi, do Centro de Documentação e Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (CPDOC/FGV-Rio), o regime militar não foi planejado e evoluiu de acordo com as circunstâncias históricas e sociais

26 mar 2014
09h13
atualizado às 09h18
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O Rio de Janeiro foi o epicentro do golpe militar de 1964. Mesmo Brasília sendo a capital desde 1960, concetravam-se no Rio os principais atores do movimento chamado de “revolucionário” pelos militares. A professora Dulce Pandolfi, do Centro de Documentação e Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (CPDOC-FGV/Rio) e autora de livros como “Camaradas e Companheiros: memória e história do PCB” (Ed. Relume Dumará, 1995) e “A República no Brasil” (Ed. Nova Fronteira, 2002), conversou com o Terra sobre o período final do governo do presidente deposto João Goulart, o Jango, e o os primeiros dias da ditadura militar, a partir de abril de 1964. Boa parte se desenrolou na cidade maravilhosa. “Todos foram pegos de surpresa [pelo golpe]”, afirma ela. Dulce diz ainda que mesmo depois de 50 anos, há muito que se descobrir sobre os anos de chumbo. “A historia continua a ser desvendada a cada dia. Ainda tem muita coisa para ser dita e muita gente para ser ouvida”.

"[O Golpe de 1964] interrompe o amadurecer de uma democracia incipiente, que dava os seus primeiros passos", diz Dulce Pandolfi, professora CPDOC da FGV-Rio
"[O Golpe de 1964] interrompe o amadurecer de uma democracia incipiente, que dava os seus primeiros passos", diz Dulce Pandolfi, professora CPDOC da FGV-Rio
Foto: Mauro Pimentel / Terra

Terra - Por que mesmo a capital do País sendo em Brasília, o golpe se desenrolou quase que integralmente no Rio de Janeiro?
Dulce Pandolfi - Porque o Rio sempre foi a capital política do País, mesmo com Brasília já funcionando. A cidade sempre foi o centro da efervescência política. Até pouco tempo antes do golpe o Congresso funcionava no Rio e era o palco das manifestações de trabalhadores e estudantes. 

Terra - Então não foi coincidência o Rio ser o centro dos acontecimentos...
Dulce - Não foi coincidência estarem no Rio tanto Jango quanto os dois militares que assumiram o comando do golpe. Nem é coincidência de ter sido Carlos Lacerda (político e jornalista) um dos grandes articuladores do golpe ao lado do Magalhães Pinto (então governador de Minas Gerais). O Rio era a capital política do País. E o golpe estava sendo tramado pelos militares desde a eleição, por voto, do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954).

Terra - Os militares tinham sede de poder?
Dulce - Não diria sede de poder. Os militares tinham um projeto de poder mais nacionalista, que por sua vez se contrapunha ao projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek (1956-1961) e ao popular, voltado para as reformas de base, de João Goulart (1961-1964). São projetos diferentes, mas que condizem com o momento histórico em que vivíamos.

Terra - Que momento era esse?
Dulce - A guerra fria. O mundo vivia o auge da polarização entre a URSS e os EUA e o comunismo era visto com muito temor pelas classes dominantes, bem como por setores empresariais e militares. E mais, o exército brasileiro, até em função do Estado Novo (1937-1945), sempre foi marcado pela ideologia anticomunista. Essa ideologia, aliás, tinha servido de pretexto para o golpe de 1937, capitaneado por Getúlio Vargas. O partido comunista no Brasil só se legaliza em 1945 para ser logo colocado de volta na clandestinidade - apesar de regime pós-1945 ser democrático. Um dos temores de determinados segmentos era o alinhamento do País com um projeto mais à esquerda, com laços socialistas.A experiência de Cuba também era muito próxima.

Terra - O governo Jango era fraco? Confuso?
Dulce - Não acho que governo Jango era fraco ou confuso. Era um governo polarizado. Jango toma posse enfraquecido pelo regime parlamentarista. Foi feito um acordo para garantir a governabilidade. Jango, portanto, se manteve cauteloso. Mas chegou a ir à China comunista. Seu governo, em última instância, foi um que tentou fazer avançar a roda da história. Mas, como todo governo de coalizão, tudo tinha de ser negociado. Era a União Democrática Nacional (UDN) de um lado e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) do outro. E ainda havia o Partido Social Democrático (PSD), que apesar do histórico como uma potência de centro, começava a se esfacelar e a se dividir durante o governo de Goulart. Jango foi tentando fazer o que era crucial, remediar os grandes problemas.

Terra - E quais eram esses problemas?
Dulce - O Brasil tinha problemas gravíssimos. Era um País subdesenvolvido, quase feudal e preso na era pré-capitalista. A população rural vivia em condições lamentáveis. E as desiguladades entre Nordeste e o Sudeste, por exemplo, eram enormes. O governo Jango avançou no sentido de remediar esses problemas. Mas todas as suas propostas, por melhores que fossem, ainda tinham de passar por um parlamento dividido. Houve grande esforço para fazer avançar o País. Foi um momento de luta por mudanças estruturais. O camponês, por exemplo, esquecido pelas reformas getulistas que privilegiaram os moradores das cidades, passa a ter renovada importância com as políticas de Jango. O processo, porém, foi logo interrompido.

Terra - O golpe de 1964 interrompe isso?
Dulce - Sem dúvida. Uma das razões pelas quais o golpe é um retrocesso é justamente esta - ele interrompe o amadurecer de uma democracia incipiente, que dava os seus primeiros passos. Quando a população estava começando a identificar os partidos por meio de suas linhas propositivas, o processo é cortado de maneira brutal.

Terra - E, ao que parece, todo mundo foi pego de surpresa. Até o exército...
Dulce - O governo Jango não era socialista, como diziam. Era, sim, da linha de um capitalismo mais moderno. Poucos acreditavam que um golpe era possível. Entre políticos e intelectuais, por exemplo, se achava que mesmo com eventuais rachas, o grosso da classe média e dos militares permaneceria ao lado do presidente e de suas ideias de reforma. Não foi só o Jango que foi pego de surpresa. E, nesse sentido, qualquer reação ao que aconteceu no dia 1 de abril seria difícil já que ninguém esperava que o que aconteceu acontecesse. Os setores de esquerda não estavam se armando para uma insurreição armada. Talvez um ou outro mais radical, mas a ideia era promover reformas dentro da legalidade, sem ruptura constitucional. Todos foram pegos de surpresa. A esquerda não estava preparada para ir para a clandestinidade, tanto que muita gente foi presa.

Terra - Há uma divergência de datas no golpe. Por quê?
Dulce - O dia 1º de abril é tido como o dia da mentira. Logo, os militares não quiseram associar o que eles chamavam de “revolução” a um dia como este. Desta forma, os militares insistem que a “revolução” aconteceu no dia 31 de março, enquanto os setores de esquerda cravam que foi no dia 1º de abril. Para além da polêmica, o que se sabe é que o golpe foi muito violento. Os militares vieram para ficar, embora muitos na sociedade civil achassem que até 1965 haveria eleições novamente. O regime de exceção acabou durando 21 anos.

Terra - O golpe começa brando e endurece com o tempo?
Dulce - Ainda temos poucos relatos dos primeiros momentos da ditadura, mas a repressão ao campesinato, por exemplo, foi enorme já num primeiro momento. E só agora é que começamos a saber disso. A quantidade de gente no campo que morreu ou desapareceu nos primórdios da ditadura ainda é desconhecida, mas se sabe que o campo era temido pelos militares. Então não dá pra dizer que o golpe começa brando.

Terra - Havia um projeto de poder por parte dos miliatres quando eles tomaram o País?
Dulce - Nos primeiros dias de abril, nem os militares sabiam quantos anos ficariam no poder ou o que fariam enquanto estivessem à frente do País. Mas o tempo passou e eles foram ficando. Foi só na primeira experiência que os militares tiveram com eleições diretas, por exemplo, que eles perceberam que os cidadãos não votariam nos candidatos deles. As eleições de Negrão de Lima e Israel Pinheiro, ambos votados governadores sem aval do regime em 1965, é que motivaram a edição do Ato Institucional nº2 (AI-2), que eliminou o pluripartidarismo no País. Os caras se apavoraram! E o caso ilustra como a coisa foi tomando forma de acordo com as conjunturas.

Terra - Depois de 50 anos, há perspectiva de novidades em um assunto tão estudado?
Dulce - A historia continua a ser desvendada a cada dia. Ainda tem muita coisa para ser dita e muita gente para ser ouvida. Há, também, cartas de militares que insistem em dizer que a revolução continua acesa. Portanto, é um assunto que permanece vivo.

Terra - A senhora acha possível um golpe militar no Brasil contemporâneo?
Dulce - Acho difícil. Os militares estão muito dividos e hoje vivemos outro contexto. O pavor do comunismo não existe mais. Não cola mais o argumento de que o País vai virar uma nova Cuba. Até porque a ilha de Fidel não saiu tão bem na fita. Mas sempre haverá alguns que esbravejam.

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Fonte: Terra

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