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Preocupados com revoltas, governantes árabes prometem reformas

3 fev 2011
13h36
atualizado às 15h53

As revoltas populares na Tunísia e no Egito estão tirando o sono de governantes dos países árabes, que começam a adotar medidas de abertura e prometer reformas políticas para evitar que o efeito dominó chegue a seus territórios, embora os analistas acreditem que, se a rebelião egípcia for derrotada, o impulso reformista deverá ser freado.

Soldados detêm um simpatizante do presidente Hosni Mubarak que tentou chegar no local onde estavam os manifestantes da oposição
Soldados detêm um simpatizante do presidente Hosni Mubarak que tentou chegar no local onde estavam os manifestantes da oposição
Foto: Reuters

"Em um mês, o mundo árabe mudou mais do que em anos", estimou Ziad Majed, especialista em Oriente Médio Contemporâneo, da Universidade Americana de Paris.

"O temor mudou de campo: durante décadas, os regimes autoritários se mantinham graças à repressão (...). Hoje, os regimes têm medo e querem evitar a qualquer preço o que aconteceu no Egito e na Tunísia", acrescentou.

O presidente iemenita Ali Abdalah Saleh, no poder há 32 anos, anunciou que não disputaria um novo mandato, mas isto não foi suficiente para acalmar a oposição. Milhares de manifestantes tomaram as ruas da capital Sanaa para exigir reformas democráticas.

Na Jordânia, o rei Abdallah destituiu o primeiro-ministro para amainar a pressão popular por sua saída, mas a poderosa oposição islamita criticou a opção do substituto e convocou novas manifestações na sexta-feira.

Na Síria, onde as rede sociais foram usadas para organizar protestos na última sexta-feira e sábado, o presidente Bashar al-Assad - que sucedeu o pai em 2000 - declarou querer "continuar a mudança em nível do Estado e das instituições".

No Marrocos, o governo expressou sua determinação em manter os subsídios para os produtos básicos. "Os regimes querem mostrar sinais de abertura, e aceitam reivindicações que rejeitaram durante décadas por temer uma perda de controle da situação", explicou Majed.

Para o especialista, "a simples ameaça de manifestações de ira na Jordânia ou no Iêmen teve mais consequências políticas do que toda a militância clássica dos últimos anos".

Majed destacou também o fato de que o mundo árabe "é a única região do mundo onde os governantes se mantêm no poder desde os anos 60, e onde há repúblicas que começam a ter o comportamento de dinastias".

Mas, se o regime do presidente Hosni Mubarak for capaz de resistir à rebelião, transformando a praça Tahrir em uma nova Tiananmen, os chefe de Estado árabes poderiam ser estimulados a fechar a torneira de concessões.

"Acredito que os países árabes reagirão de maneiras diferentes se houver uma mudança de regime no Egito", indicou Emile Hokayem, analista radicado no Bahrein, do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos.

"Se o presidente Mubarak sobreviver a esta onda de protestos, todos pensarão que não é necessário fazer concessões políticas importantes, e que há uma margem de manobra que permitirá que escapem ilesos", ressaltou, estimando que as reformas anunciadas no Iêmen e na Jordânia podem ser apenas "mudanças de fachada".

Já Sophie Pommier, especialista do Instituto de Ciências Políticas de Paris, explica que "os regimes árabes têm dois exemplos de gestão da crise diante deles: a Tunísia, onde o poder caiu rapidamente, e o Egito, onde o regime combinou repressão, meias concessões, promessas, temor do caos e falsas mudanças de gabinete".

"Cada um se adapta segundo seu próprio conceito, alguns podendo optar também por uma repressão muito forte", acrescentou, afirmando que os países mais frágeis parecem ser justamente Iêmen e Jordânia.

Ziad Majed, por sua vez, demonstra otimismo: "Se Mubarak, sua polícia e seus partidários conseguirem calar os manifestantes da praça Tahrir, isso vai adiar as reformas, mas não deterá um movimento irreversível."

Protestos convulsionam o Egito
Desde o último dia 25 de janeiro - data que ganhou um caráter histórico, principalmente na internet, principalmente pelo uso da hashtag #Jan25 no Twitter -, os egípcios protestam pela saída do presidente Hosni Mubarak, que está há 30 anos no poder. No dia 28 as manifestações ganharam uma nova dimensão, fazendo o governo cortar o acesso à rede e declarar toque de recolher. As medidas foram ignoradas pela população, mas Mubarak disse que não sairia. Limitou-se a dizer que buscaria "reformas democráticas" para responder aos anseios da população a partir da formação de um novo governo.

A partir do dia 29, um sábado, a nova administração foi anunciada. A medida, mais uma vez, não surtiu efeito, e os protestos continuaram. O presidente egípcio se reuniu com militares e anunciou o retorno da polícia antimotins. Enquanto isso, a oposição seguiu se organizando. O líder opositor Mohamad ElBaradei garantiu que "a mudança chegará" para o Egito. Já os Irmãos Muçulmanos disseram que não iriam dialogar com o novo governo. Na terça, dia 1º de fevereiro, dezenas de milharesde pessoas se reuniram na praça Tahrir para exigir a renúncia de Mubarak.

A grandeza dos protestos levou o líder egípcio a anunciar que não participaria das próximas eleições, para delírio da massa reunida no centro do Cairo. O dia seguinte, 2 de fevereiro, no entanto, foi novamente de caos na capital. Manifestantes pró e contra o governo Mubarak travaram uma batalha campal na praça Tahrir com pedras, paus, facas e barras de ferro. O número de mortos é incerto, entre seis e dez, e mais de 800 pessoas ficaram feridas. No dia seguinte, o governo disse ter iniciado um diálogo com os partidos. Mas a oposição nega. Na praça Tahrir e arredores, segue a tensão.



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