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Em dia de paz em SP, imagem da 'tomada' do Congresso ganha o mundo

Invasão do parlamento brasileiro e confrontos na Assembleia do Rio de Janeiro ofuscaram manifestação pacífica em São Paulo; cerca de 250 mil pessoas participaram de protestos pelo País

18 jun 2013
01h12
atualizado às 03h19
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Quando todas as atenções estavam voltadas a São Paulo, diante de um temor de que as cenas de violência registradas na semana passada se repetissem nesta segunda-feira, a capital paulista deu mostras de civilidade neste histórico 17 de junho, em que mais de 65 mil pessoas decidiram ir às ruas pacificamente para reivindicar seus direitos. A manifestação cidadã da maior metrópole brasileira, porém, foi ofuscada pelos jovens que subiram no topo do prédio do Congresso Nacional, em Brasília, e a tentativa de invasão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, cujas imagens ganharam o mundo como retrato da insatisfação popular com o atual momento do País.

<p>Manifestantes furaram bloqueio da polícia e subiram no teto do Congresso Nacional</p>
Manifestantes furaram bloqueio da polícia e subiram no teto do Congresso Nacional
Foto: Gustavo Gantois / Terra

A movimentação no Largo da Batata, na região central de São Paulo, começou ainda no início da tarde. Como o protesto estava marcado para as 17h, diversos estabelecimentos comerciais da região da avenida Faria Lima fecharam as portas mais cedo, com medo de atos de vandalismo e tumultos provocados pela repressão policial. Com a ordem do governo de evitar ao máximo o confronto com manifestantes, proibindo inclusive o uso de balas de borracha, a Polícia Militar acompanhou, à distância, a marcha dos inconformados, que tomaram as ruas e se dividiram em grupos distintos, seguindo para a avenida Paulista e para o Palácio dos Bandeirantes.

Na avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, 10 policiais militares deram uma demonstração de apoio à manifestação e acompanharam ativistas, sentando-se na pista. Eles foram aplaudidos por integrantes do protesto. "Isso é uma demonstração de respeito da Polícia Militar à vontade política da população", diz Matheus Prei, integrante do Movimento Passe Livre e que acompanha os policiais. "Estamos vivendo uma experiência que nunca vivemos. Estamos aprendendo com essa passeata. Quando a gente não é reprimido, a gente consegue manter o controle das pessoas e não tem vandalismo, nem violência."

Foi justamente na sede do governo que, após mais de seis horas sem qualquer registro de ocorrência, foi visto o primeiro confronto, por volta das 23h. Vaiados pela maioria dos manifestantes, um grupo tentou invadir o palácio e foi recebido pela Polícia Militar com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

'O Congresso é nosso'
Mais de cinco mil pessoas participaram do ato que, ao menos simbolicamente, representou o maior "feito" dos manifestantes em todo o Brasil. Após marchar pela Esplanada dos Ministérios e cercar o Congresso Nacional, em Brasília, a multidão conseguiu furar o bloqueio e subiu no prédio do parlamento, pela lateral do edifício. A PM respondeu com bombas, mas os manifestantes retornaram em maior número e ocuparam o local onde ficam as abóbadas invertidas. Eles gritavam frases como "aha-uhu, o Congresso é nosso". Do lado de baixo, no gramado, manifestantes cantavam o Hino Nacional, segurando os celulares acesos.

Os senadores Inácio Arruda (PCdoB-CE), Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), Paulo Paim (PT-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP) e o presidente em exercício da Câmara, André Vargas (PT-PR), tentaram negociar a saída dos manifestantes, mas a falta de uma liderança do movimento dificultou o diálogo. Houve princípio de tumulto mais cedo, quando o grupo invadiu o espalho d'água em frente ao Congresso.

Cerco à Assembleia do RJ
Depois de um começo de manifestação pacífico, a polícia e uma pequena parte dos mais de 50 mil manifestantes entraram em confronto na noite desta segunda-feira durante os protestos contra o aumento da passagem no Rio de Janeiro. O enfrentamento aconteceu em frente à Assembleia do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que recebeu forte policiamento para evitar pichações. Os manifestantes fizeram fogueiras nas imediações do prédio e atearam fogo em dois carros, um no estacionamento funcional da Assembleia Legislativa e outro atrás da Alerj. Pelo menos 15 focos de incêndio foram contados pela reportagem do Terra. No fim da noite, um grupo de manifestantes conseguiu invadir o prédio da Alerj, quebrou janelas, ateou fogo na porta e tirou cadeiras de dentro do edifício.

Dezenas de PMs e funcionários ficaram presos dentro da Alerj, cercada por manifestantes. Eles negociaram com os que protestavam para sair com os policiais que ficaram feridos durante a invasão. Oficialmente, cinco estão machucados, mas havia informações de que até 20 PMs estariam feridos. Por volta das 23h15, a Tropa de Choque chegou ao local e usou bombas de gás lacrimogênio. Às 23h45, os policiais conseguiram deixar a Alerj.

Funcionários dizem que havia mais de 100 pessoas dentro do prédio. "Ficamos numa sala no segundo andar, presos. Eles jogavam muitas pedras do lado de fora. Está tudo arrebentado, janelas, portas. Algumas pessoas entraram em pânico. Tinham três PMs feridos com a gente. Nunca imaginei que pudesse acontecer isso. Eles quebraram tudo, é uma pena", disse o supervisor dos ascensoristas, Robert Rodrigues.

Os manifestantes começaram a chegar ao local por volta das 19h50. A polícia montou dois cordões de isolamento com a ajuda de grades para impedir que os ativistas tivessem acesso à escadaria do prédio. O objetivo era evitar que as pichações ao prédio registradas nos protestos de quinta-feira se repetissem. Segundo a Polícia Militar, a tropa de choque foi chamada após uma tentativa de arrombamento. A polícia tentou impedir a entrada dos manifestantes com balas de borracha, e muitas pessoas tentam fugir do local.

Do lado de fora, o cenário era de caos, com carros e orelhões destruídos e incendiados. Várias agencias bancárias foram depredadas. Na rua da Assembleia, o cenário era de destruição. Além dos vidros quebrados, as agências foram pichadas pelos manifestantes. Algumas lojas do centro começaram a ser saqueadas. Enquanto registrava a ação de quatro pessoas que quebravam uma agência bancária nas proximidades da Alerj, o repórter do Terra André Naddeo foi agredido e assaltado. "Eles estavam destruindo uma agência do Itaú e eu estava fazendo foto com celular", disse. Ele foi cercado e questionado se estava filmando a ação. "Quando fui tentar argumentar, ele me deu um soco na barriga, o celular caiu no chão e eles saíram correndo com o aparelho", disse.

Vandalismo de minoria em Porto Alegre
Em meio à manifestação pacífica de cerca de 5 mil pessoas, a ação de um grupo reduzido causou destruição e transtornos na região central de Porto Alegre (RS). Após manifestantes quebrarem os vidros de uma revenda de automóveis da Honda, a Polícia Militar usou bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. O Batalhão de Operações Especiais (BOE) esperava a passeata em frente ao prédio do jornal Zero Hora, da RBS (afiliada da Globo). Segundo o BOE, nove pessoas foram detidas. A maior parte dos ativistas gritava "sem vandalismo, sem violência".

A polícia forçou o trajeto dos manifestantes até a avenida João Pessoa e, na avenida Azenha, a manifestação foi dispersada. Um grupo que se manteve no local ateou fogo a objetos, como um contêiner de construção, outro de lixo, um telefone público e uma caixa de correio. Um ônibus também foi incendiado. "Eles não fizeram nada conosco, apenas exigiram que a gente saísse. Eu abri as portas e deixei todos os passageiros saírem", diz José Gusmão, motorista do veículo. O condutor diz também que o coletivo não estava lotado, mas tinha um bom número de pessoas.

O grupo quebrou os vidros e depois tentou virar e queimar outro ônibus na Azenha, que estava vazio. A polícia usou bombas de gás e os manifestantes correram. Os bombeiros chegaram para apagar os focos de incêndio.

Os manifestantes se dispersaram após o primeiro confronto, mas a violência continuou. Ocorreu um reagrupamento no bairro da Cidade Baixa, onde queimaram diversas lixeiras e quebraram vitrines de banco. Conforme avançava, o grupo realizava novas depredações de lojas e bancos. Nos arredores do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, os manifestantes entraram em confronto novamente com a polícia, que reagiu com mais bombas de efeito moral e gás.

Porto Alegre foi uma das primeiras cidades brasileiras onde o aumento anunciado no preço da passagem gerou uma onda de protestos. Após uma série de manifestações, uma decisão judicial suspendeu o reajuste.

Dilma defende legitimidade de manifestações
Pressionada pelos protestos que se alastram pelo País, a presidente Dilma Rousseff não apareceu em público nesta segunda-feira. Por meio de mensagem transmitida a jornalistas da ministra da Comunicação Social, Helena Chagas, a presidente declarou que "as manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia". "É próprio dos jovens se manifestarem", afirmou a presidente no pronunciamento.

À tarde, Dilma recebeu o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em reunião que não constava em sua agenda oficial. O ministro fez um relato sobre os protestos pelo Brasil. "Ela está encarando isso como uma questão normal da democracia", afirmou a ministra. Helena Chagas não relatou impressões de Dilma sobre as vaias sofridas durante a abertura da Copa das Confederações no último sábado. "Isso não tem relevância", limitou-se a dizer a ministra.

Outras cidades
Organizações como o Movimento Passe Livre estimam a ocorrência de protestos em cerca de 200 municípios brasileiros nesta segunda-feira. Houve registro de confrontos em Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG). Em Maceió (AL), um estudante foi baleado durante a manifestação. Segundo a Polícia Militar, o homem tentou furar o bloqueio feito pelos ativistas em uma rua, quando os manifestantes começaram a bater e empurrar o veículo. O motorista teria então disparado contra o jovem.

Cenas de guerra nos protestos em SP
A cidade de São Paulo enfrenta protestos contra o aumento na tarifa do transporte público desde o dia 6 de junho. Manifestantes e policiais entraram em confronto em diferentes ocasiões e ruas do centro se transformaram em cenários de guerra. Enquanto policiais usavam bombas e tiros de bala de borracha, manifestantes respondiam com pedras e rojões.

Durante os atos, portas de agências bancárias e estabelecimentos comerciais foram quebrados, ônibus, muros e monumentos pichados e lixeiras incendiadas. Os manifestantes alegam que reagem à repressão opressiva da polícia, que age de maneira truculenta para tentar conter ou dispersar os protestos.

Veja a cronologia e mais detalhes sobre os protestos em SP

Segundo a administração pública, em quatro dias de manifestações mais de 250 pessoas foram presas, muitas sob acusação de depredação de patrimônio público e formação de quadrilha. No dia 13 de junho, bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia Militar na rua da Consolação deram início a uma sequência de atos violentos por parte das forças de segurança, que se espalharam pelo centro.

O cenário foi de caos: manifestantes e pessoas pegas de surpresa pelo protesto correndo para todos os lados tentando se proteger; motoristas e passageiros de ônibus inalando gás de pimenta sem ter como fugir em meio ao trânsito; e vários jornalistas, que cobriam o protesto, detidos, ameaçados ou agredidos.

No dia seguinte ao protesto marcado pela violência, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) declarou que via "ações coordenadas" oportunistas no movimento, reiterou "a defesa do direito de ir e vir" da população, mas garantiu que não permitirá que os manifestantes prejudiquem a circulação de veículos e pessoas. No mesmo dia, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), afirmou que a polícia deve ser investigada por abusos cometidos, mas não deixou de criticar a ação dos ativistas.

As agressões da polícia repercutiram negativamente na imprensa e também nas redes sociais. Vítimas e testemunhas da ação violenta divulgaram relatos, fotografias e vídeos na internet. A mobilização ultrapassou as fronteiras do País e ganhou as ruas de várias cidades do mundo. Dezenas de manifestações foram organizadas em outros países em apoio aos protestos em São Paulo e repúdio à ação violenta da Polícia Militar. Eventos foram marcados pelas redes sociais em quase 30 cidades da Europa, Estados Unidos e América Latina.

As passagens de ônibus, metrô e trem da cidade de São Paulo passaram a custar R$ 3,20 no dia 2 de junho. A tarifa anterior, de R$ 3, vigorava desde janeiro de 2011. Segundo a administração paulista, caso fosse feito o reajuste com base na inflação acumulada no período, aferido pelo IPC/Fipe, o valor chegaria a R$ 3,40. "O reajuste abaixo da inflação é um esforço da prefeitura para não onerar em excesso os passageiros", disse em nota. 

O prefeito da capital havia declarado que o reajuste poderia ser menor caso o Congresso aprovasse a desoneração do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) para o transporte público. A proposta foi aprovada, mas não houve manifestação da administração municipal sobre redução das tarifas.

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Fonte: Terra

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