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Protestos se espalham em Omã; acesso a porto é bloqueado

28 fev 2011
09h18
atualizado às 10h42

Manifestantes que reivindicam empregos e reformas políticas bloquearam nesta segunda-feira o acesso ao principal porto de Omã, enquanto saqueadores atacavam um supermercado próximo e os protestos chegavam à capital do sultanato.

Manifestantes observam supermercado em chamas, depois que dois oposicionistas foram mortos, em Sohar
Manifestantes observam supermercado em chamas, depois que dois oposicionistas foram mortos, em Sohar
Foto: AFP

Um médico disse que seis pessoas morreram no domingo em confrontos envolvendo manifestantes e policiais na cidade industrial de Sohar (norte). O ministro da Saúde do país afirmou que houve apenas um morto, além de 20 feridos.

Centenas de pessoas bloquearam o acesso a uma área industrial que inclui o porto, uma refinaria e uma fábrica de alumínio. Uma porta-voz do porto disse que o movimento no terminal, por onde são exportados diariamente 160 mil barris de derivados de petróleo, não foi afetado.

"Queremos ver os benefícios da nossa riqueza petrolífera sendo distribuídos igualitariamente para a população", disse um manifestante por um megafone. "Queremos ver uma redução nos estrangeiros em Omã, para que mais empregos sejam criados para os omanis."

Outras cidades também tiveram manifestações pacíficas, e centenas de pessoas protestaram diante de um complexo de ministérios e em outro local em Mascate, a capital.

Os protestos - parcialmente inspirados nas rebeliões em outros países árabes, como Egito e Tunísia - são uma rara manifestação de descontentamento no país, governado há quatro décadas pelo sultão Qaboos bin Said.

Tentando acalmar as tensões, o sultão prometeu no domingo criar mais empregos, conceder benefícios para desempregados e estudar a ampliação das atribuições do Conselho Consultivo, para que fique mais parecido com um Parlamento.

No domingo, a polícia abriu fogo contra manifestantes. Um supermercado, uma delegacia e dois prédios públicos de Sohar foram incendiados.

No supermercado, pessoas vasculhavam os escombros fumegantes em busca de produtos, mesmo que chamuscados. Uma mulher recolhia bandejas de ovos, leite em pó, suco de laranja e requeijão, e outros passavam sobre os cacos das portas de vidro com carrinhos abarrotados, sem que houvesse presença das forças de segurança.

"Não há segurança. Eu quero viver. É normal", disse o desempregado Youssef, 28 anos, deixando o mercado com dez garrafas de suco.

Mundo árabe em convulsão
A onda de protestos que desbancou em poucas semanas os longevos governos da Tunísia e do Egito segue se irradiando por diversos Estados do mundo árabe. Depois da queda do tunisiano Ben Alie do egípcio Hosni Mubarak, os protestos mantêm-se quase que diariamente e começam a delinear um momento histórico para a região. Há elementos comuns em todos os conflitos: em maior ou menor medida, a insatisfação com a situação político-econômica e o clamor por liberdade e democracia; no entanto, a onda contestatória vai, aos poucos, ganhando contornos próprios em cada país e ressaltando suas diferenças políticas, culturais e sociais.

No norte da África, a Argélia vive - desde o começo do ano - protestos contra o presidente Abdelaziz Bouteflika, que ocupa o cargo desde que venceu as eleições, pela primeira vez, em 1999; mais recentemente, a população do Marrocos também aderiu aos protestos, questionando o reinado de Mohammed VI. A onda também chegou à península arábica: na Jordânia, foi rápida a erupção de protestos contra o rei Abdullah, no posto desde 1999; já ao sul da península, massas têm saído às ruas para pedir mudanças no Iêmen, presidido por Ali Abdullah Saleh desde 1978, bem como em Omã, no qual o sultão Al Said reina desde 1970.

Além destes, os protestos vêm sendo particularmente intensos em dois países. Na Líbia, país fortemente controlado pelo revolucionário líder Muammar Kadafi, a população vem entrando em sangrento confronto com as forças de segurança, já deixando um saldo de centenas de mortos. Em meio ao crescimento dos protestos na capital Trípoli e nas cidades de Benghazi e Tobruk, Kadafi foi à TV estatal no dia 22 de feveiro para xingar e ameaçar de morte os opositores que desafiam seu governo. Na península arábica, o pequeno reino do Bahrein - estratégico aliado dos Estados Unidos - vem sendo contestado pela população, que quer mudanças no governo do rei Hamad Bin Isa Al Khalifa, no poder desde 1999.

Além destes países árabes, um foco latente de tensão é a república islâmica do Irã. O país persa (não árabe, embora falante desta língua) é o protagonista contemporâneo da tensão entre Islã/Ocidente e também tem registrado protestos populares que contestam a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, no cargo desde 2005. Enquanto isso, a Tunísia e o Egito vivem os lento e trabalhoso processo pós-revolucionário, no qual novos governos vão sendo formados para tentar dar resposta aos anseios da população.

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