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Ex-CIA: Israel e evidências forjadas pressionam Obama a atacar a Síria

Agente da CIA durante o governo Reagan, Ray McGovern defende que as evidências apresentadas pelos EUA não têm força para sustentar a ação

13 set 2013
09h01
atualizado em 15/6/2018 às 23h10
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O ex-agente da CIA Ray McGovern, em foto de 2011
O ex-agente da CIA Ray McGovern, em foto de 2011
Foto: AFP

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está sendo levado a planejar uma intervenção na Síria por lideranças "desonestas" dos serviços de inteligência americana e por interesses israelenses. Esta é a posição do ex-agente da CIA Ray McGovern. Em entrevista ao Terra, ele disse que o atual chefe da inteligência americana, John Breenan, está por trás de uma fraude sobre o ataque químico de 21 de agosto nos arredores de Damasco. McGovern diz que as evidências do massacre foram fabricadas para levar os EUA para uma nova guerra no Oriente.

 

Ele questiona a autoria do ataque. "Quem lucraria com um ataque químico próximo a Damasco? Eu acho que os rebeldes lucrariam com isso se conseguissem, e apenas se conseguissem, convencer a comunidade internacional de que o regime de Bashar al-Assad é o culpado".

Guerra civil em fotos
AFP

O Terra compilou alguns dos principais materiais fotográficos disponibilizados ao longo destes mais de dois anos de guerra na Síria. Cada imagem leva a uma galeria que conta um episódio específico ou remete a uma situação importante do conflito.

McGovern trabalhou como oficial de inteligência do Exército americano antes de se juntar à CIA, onde trabalhou por 27 anos até 1990, quando se aposentou com honras. Durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989), ele trabalhava na produção de um informe diário de inteligência para o presidente e participava de reuniões com seus assessores diretos. Atualmente, ele atua como ativista político e recentemente foi um dos signatários de uma carta escrita por veteranos dos serviços de inteligência para Obama pedindo para que ele não levasse adiante o ataque à Síria.

McGovern, que mora no Estado americano da Virgínia, conversou com o Terra por telefone. Confira abaixo trechos da entrevista:

 

Evidências forjada
Ray McGovern - Se eles tivessem evidências suficientes, a administração iria divulgá-las. A noção de que fontes e métodos precisam ser protegidos é compreensível. Eu passei anos como uma autoridade de inteligência e sei que é necessário proteger fontes e métodos, mas nesse caso sabe-se que foram conversas interceptadas. O governo alega que estas conversas dizem uma coisa, e pessoas dentro do governo alegam que dizem algo bem diferente. O que precisa acontecer é o presidente ir até a comunidade de inteligência e dizer 'nós precisamos divulgar essa conversa interceptada'.

A administração sempre alega que está interceptação mostra que o governo Assad é responsável por este incidente químico. Outras pessoas dizem os militares que foram flagrados nas conversas expressaram grande surpresa e se perguntavam: 'Você sabe quem ordenou isso?' Essas são duas versões bem diferentes. Caso isso não seja feito, ele levantará as suspeitas de que a segunda versão é a correta.

Fontes dentro da CIA
Ray McGovern - Há pessoas dentro da CIA que lamentam não ter falado quando uma inteligência fraudulenta estava sendo preparada para justificar um ataque ao Iraque. Dessa vez, sob um grande risco pessoal, eles desejam compartilhar esta informação. Se passassem para a mídia tradicional, eles não seriam levados a sério. Mas eles sabem que há pessoas atrás da verdade e disseram a ex-colegas (incluindo McGovern) que o que aconteceu no Iraque parece estar acontecendo na Síria.

Por que eles não vêm a público
Ray McGovern - Como todo mundo sabe, a administração Obama processou mais delatores, sob o ato de espionagem, do que todos os outros presidentes antes dele. Qualquer analista ou operador de inteligência que deseje vir a público enfrenta grandes riscos.

Material Exclusivo
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Acompanhe a cobertura exclusiva do Terra através do trabalho dos jornalistas Tariq Saleh e Mauricio Morales. Sediado no Líbano, país vizinho e sensível à crise síria, Saleh conversou com sírios, visitou refugiados e ouviu analistas para acompanhar o desenrolar de um conflito complexo e com desfecho ainda incerto. Enviado especial para o conflito, Morales passou dias com rebeldes para conhecer sua visão do conflito.

Influência israelense
Ray McGovern - Há pessoas ao redor de Obama que têm muito dificuldade em distinguir os interesses de Israel dos interesses dos EUA, que querem a guerra na Síria. (...) Há um artigo recente no NYT que diz que analistas israelenses acreditam que o melhor resultado para o conflito na Síria é nenhum resultado. Israel acreditaria que quanto mais os muçulmanos se matarem, e não só na Síria, melhor para Israel.

Do outro lado está o Irã. Se os EUA forem persuadidos a agir na Síria, o Irã ficará em uma situação diplomática muito complicada. Eu penso que as pessoas do Irã são espertas o suficiente para não dar pretextos para Israel e os EUA os atacarem, mas será muito embaraçoso para o Irã não fazer nada se o seu único aliado na região for atacado.

Apoio da mídia
Ray McGovern - Em grande parte é por causa de Israel, mas os fabricantes de armas que lucrariam com a guerra, e lucraram com o Iraque e Afeganistão, pertencem às mesmas corporações que controlam a mídia nos Estados Unidos.

 

Evidências forjadoas
Ray McGovern - O papel da CIA não é promover esse ou aquele curso de ação, mas simplesmente analisar as informações de inteligência e repassar ao presidente. Quando o presidente George W. Bush queria fazer guerra com o Iraque, havia um chefe desonesto na CIA, George Tenet, que reverteu o papel da CIA porque achava que deveria apoiar o presidente. Isso levou a evidências forjadas e inventadas.

A CIA foi corrompida para o ataque ao Iraque. Com sorte, pessoas honestas substituíram Tenet e quando, em 2007, surgiu a possibilidade de uma guerra com o Irã, a CIA informou o presidente americano de que o Irã tinha paralisado seu programa de armas nucleares em 2003 e não o tinha retomado desde então. Pessoas honestas foram trazidas e a opinião deles teve grande peso para que os Estados Unidos não entrassem em uma guerra que estava sendo preparada por Bush e Dick Cheney, algo que o próprio Bush admite em seu livro de memórias. 

 

Atualmente, nós temos uma pessoa desonesta à frente da CIA, John Breenan. Há dois anos ele afirmou que não havia nenhuma vítima civil dos ataques de drones americanos no Paquistão. Isso é ridículo. Ele também disse que o Irã está desenvolvendo armas nucleares, algo que ele sabe que não é verdade. Nós devemos confiar nele agora? Eu acho que precisamos ver as evidências, a transcrição daquelas conversas.

Embate diplomático
AFP

Os EUA querem intervir militarmente na Síria. Você sabe quem apoia o presidente Obama? E quem está do lado do regime sírio de Bashar al-Assad? Clique no mapa e confira quem é quem neste embate diplomático.

Posição de Obama
Ray McGovern - Claramente, Obama não quer ir para a guerra. Quem em sã consciência gostaria de ir à guerra após o Iraque e o Afeganistão, após o caos deixado pela intervenção na Líbia? Mas ele está sob grande pressão para isso.

Mudança na posição americana
Ray McGovern - Após muitos combates, há cerca de dois ou três meses o governo (sírio) começou a avançar. Se o momento fosse favorável aos rebeldes, por que John McCain e Lindsay Graham, os dois senadores mais pró-Israel, querem o envolvimento dos EUA? A razão é porque o momento favorece o governo. E eles não só falaram "em reverter o momento", mas tiveram sucesso em colocar essa frase no documento aprovado pelo comitê de relações exteriores do Senado na semana passada.

Papel de Obama
Ray McGovern - Há um ano, o presidente fez um infeliz comentário de que estava traçando uma linha vermelha para ataques químicos. Se você quisesse o envolvimento dos Estados Unidos, o que você faria? Você teria grande incentivo para convencer de que houve um ataque químico.

Se a culpa do regime Assad for provada
Ray McGovern - Por que meios militares precisam ser a primeira opção? Deveriam ser a última. Há diversos caminhos para se responsabilizar Assad nesse caso. Um ataque americano só levaria ao prolongamento do conflito, por muitos anos, e preveniria Assad de vencer. Isso é algo que Israel gostaria de ver, xiitas e sunitas se destruírem.

Possibilidade de retaliação
Ray McGovern - Há centenas de oportunidades para uma retaliação. E é por isso que as lideranças do Estado-Maior Conjunto estão argumentando contra o ataque. Os Estados Unidos gastaram quase US$ 1 bilhão na embaixada de Bagdá (Iraque), quase a metade disso em uma embaixada similar em Cabul (Afeganistão). Há alvos que seriam muito lucrativos e tudo que você precisa são equipamentos que estavam disponíveis quando eu estava no Exército, há 50 anos: morteiros 80 mm, lançadores de foguetes, etc.

Guerra na Síria para iniciantes
AFP
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Fonte: Terra
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