RS: projeto de memorial da tragédia da Kiss será apresentado nesta sexta

Obra terá a assinatura de escultor que viveu em Santa Maria e, atualmente, mora nos Estados Unidos

Luiz Roese
Direto de Santa Maria
atualizado às 06h00
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Para que a tragédia da Boate Kiss jamais seja esquecida, a intenção é erguer um memorial no lugar da casa noturna que foi o cenário de 242 mortes em Santa Maria (RS). A ideia passará a se tornar mais concreta a partir desta sexta-feira, quando um projeto será apresentado para a diretoria da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). A obra terá a assinatura de um artista plástico nascido em São Vicente do Sul, na região central do Rio Grande do Sul, e criado em Santa Maria: Mauro Possobon.

 Foto: Mauro Pozzobonelli / Divulgação
Cada pedaço da obra tem um conceito. A cúpula maior, por exemplo, simboliza a barriga de um mãe, com aberturas para a entrada de luz, segundo o escultor
Foto: Mauro Pozzobonelli / Divulgação

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O escultor usa o nome artístico de Mauro Pozzobonelli e está fora do País há décadas, mas mantém ligação com Santa Maria, de onde também é a mulher dele, Carmen Possobon, que cursou Artes Visuais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O pai de Pozzobonelli ainda mora em Santa Maria.

A dor que o escultor sentiu, mesmo sem ter perdido amigos e estando longe, nos Estados Unidos, fez com ele tomasse a iniciativa de doar seu trabalho para as vítimas da tragédia. Por isso, ele procurou o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira, em abril, para propor suas ideias para a construção de um memorial.

Pozzobonelli começou a fazer os primeiros desenhos no mesmo dia da tragédia, quando ficou sabendo do que aconteceu pela rede CNN . Na época, nem pensava no que poderia fazer com aquilo. Mas, depois, os rabiscos foram se transformando em esculturas.

Segundo o escultor, cada pedaço da obra tem um conceito. A cúpula maior, por exemplo, simboliza a barriga de um mãe, com aberturas para a entrada de luz. Uma escultura mostra um homem caído ao chão, amparado por uma mulher, para representar que eles estão unidos pelo amor.

Uma escadaria com 242 degraus (que serão em forma de laço, o símbolo da AVTSM) tem o objetivo de mostrar o número de vítimas. Outra escultura tem a representação de uma flor de lótus (que em algumas culturas representa a pureza espiritual). No meio dela, vai passar uma luz que se refletirá como um holograma.

O jardim fará parte do conjunto, para que familiares das vítimas sejam incentivados a plantar árvores e plantas, como se estivessem cicatrizando uma ferida. O trabalho ainda terá uma cascata de água, com a intenção de abafar o barulho da rua e dar uma sensação de paz a quem visitar o memorial. E uma estrutura com várias garrafas servirá para que as pessoas deixem mensagens dentro delas.

Sobre a cúpula, será projetada a imagem de um anjo, feita pelo escultor no dia 14 de março, quando ele fotografou uma nuvem exatamente com esse formato. No centro do memorial, estará uma escultura batizada de “Coração Constante”, feita pela mulher de Pozzobonelli, que assina como MC Forgiarini.

A proposta é que todo esse conjunto de obras faça parte de um prédio de três andares, que abrigaria a sede administrativa da AVTSM, um espaço para recordar as vítimas da tragédia e oferecer cursos e oficinas a jovens e uma área para confraternizações.

Para que o espaço onde era a Boate Kiss seja transformado em um memorial, ainda há um longo caminho pela frente. Por enquanto, o local segue sob a guarda da Justiça, pois ainda poderá ter de passar por perícias e reconstituições. E é possível que fique assim até o fim do processo criminal sobre a tragédia.

Depois que o local estiver liberado, será necessário comprar o terreno do imóvel ou que a prefeitura faça um decreto de desapropriação. Para o prefeito Cezar Schirmer (PMDB), que já tem conversado com o presidente da AVTSM sobre o assunto, ainda é cedo para falar no que o município pode fazer. O certo é que ele concorda com a construção de um memorial.

“O importante é que não podemos ignorar o que aconteceu. Acho que deve existir um memorial, sim, e devemos homenagear a vida, e não a morte. Na Argentina, por exemplo, até hoje não se tem referência à tragédia que aconteceu lá. Toda tragédia tem que deixar um legado e um aprendizado“, disse o prefeito.

Pozzobonelli é escultor há mais de 40 anos, tendo criado mais de 3 mil trabalhos, entre esculturas e monumentos. Ele morou em Santa Maria a partir dos sete anos e, depois de uma rápida passagem pela UFSM, foi estudar no Rio de Janeiro aos 18 anos. Após, terminou sua formação acadêmica em Florença, na Itália.

Mais tarde, o escultor se mudou para os Estados Unidos, onde foi contratado para fazer esculturas de famosos como Anthony Quinn, Sammy Davis Jr., Frank Sinatra e Julio Iglesias, entre outros. Ele vive com a mulher em West Palm Beach, na Flórida, onde mantém seu ateliê.

“Fiquei muito sentido com tudo o que aconteceu e resolvi fazer alguma coisa. Amo Santa Maria. Vivi minha juventude em Santa Maria, indo a bailes nos clubes Santamariense, Caixeiral e Esportivo, e fiquei na obrigação de fazer algo que celebrasse a vida desses jovens. Quis fazer o projeto de um local que trouxesse paz”, comenta Pozzobonelli, que apresentará sua proposta na noite desta sexta-feira em Santa Maria, com a ajuda de uma maquete eletrônica.

Na quarta-feira, a projeto do memorial foi apresentado em Brasília (DF) para a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Ela disse que gostou da proposta e afirmou que ajudará na articulação para que o projeto saia do papel.

RS: incêndio em boate de Santa Maria deixa mais de 240 mortos

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

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Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Especial para Terra

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