Tragédia em Santa Maria

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24 de maio de 2013 • 06h00

RS: projeto de memorial da tragédia da Kiss será apresentado nesta sexta

Obra terá a assinatura de escultor que viveu em Santa Maria e, atualmente, mora nos Estados Unidos

Cada pedaço da obra tem um conceito. A cúpula maior, por exemplo, simboliza a barriga de um mãe, com aberturas para a entrada de luz, segundo o escultor
Foto: Mauro Pozzobonelli / Divulgação
  • Direto de Santa Maria
 

Para que a tragédia da Boate Kiss jamais seja esquecida, a intenção é erguer um memorial no lugar da casa noturna que foi o cenário de 242 mortes em Santa Maria (RS). A ideia passará a se tornar mais concreta a partir desta sexta-feira, quando um projeto será apresentado para a diretoria da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). A obra terá a assinatura de um artista plástico nascido em São Vicente do Sul, na região central do Rio Grande do Sul, e criado em Santa Maria: Mauro Possobon.

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O escultor usa o nome artístico de Mauro Pozzobonelli e está fora do País há décadas, mas mantém ligação com Santa Maria, de onde também é a mulher dele, Carmen Possobon, que cursou Artes Visuais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O pai de Pozzobonelli ainda mora em Santa Maria.

A dor que o escultor sentiu, mesmo sem ter perdido amigos e estando longe, nos Estados Unidos, fez com ele tomasse a iniciativa de doar seu trabalho para as vítimas da tragédia. Por isso, ele procurou o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira, em abril, para propor suas ideias para a construção de um memorial.

Pozzobonelli começou a fazer os primeiros desenhos no mesmo dia da tragédia, quando ficou sabendo do que aconteceu pela rede CNN. Na época, nem pensava no que poderia fazer com aquilo. Mas, depois, os rabiscos foram se transformando em esculturas.

Segundo o escultor, cada pedaço da obra tem um conceito. A cúpula maior, por exemplo, simboliza a barriga de um mãe, com aberturas para a entrada de luz. Uma escultura mostra um homem caído ao chão, amparado por uma mulher, para representar que eles estão unidos pelo amor.  

Uma escadaria com 242 degraus (que serão em forma de laço, o símbolo da AVTSM) tem o objetivo de mostrar o número de vítimas. Outra escultura tem a representação de uma flor de lótus (que em algumas culturas representa a pureza espiritual). No meio dela, vai passar uma luz que se refletirá como um holograma.

O jardim fará parte do conjunto, para que familiares das vítimas sejam incentivados a plantar árvores e plantas, como se estivessem cicatrizando uma ferida. O trabalho ainda terá uma cascata de água, com a intenção de abafar o barulho da rua e dar uma sensação de paz a quem visitar o memorial. E uma estrutura com várias garrafas servirá para que as pessoas deixem mensagens dentro delas.

Sobre a cúpula, será projetada a imagem de um anjo, feita pelo escultor no dia 14 de março, quando ele fotografou uma nuvem exatamente com esse formato. No centro do memorial, estará uma escultura batizada de “Coração Constante”, feita pela mulher de Pozzobonelli, que assina como MC Forgiarini.

A proposta é que todo esse conjunto de obras faça parte de um prédio de três andares, que abrigaria a sede administrativa da AVTSM, um espaço para recordar as vítimas da tragédia e oferecer cursos e oficinas a jovens e uma área para confraternizações.

Para que o espaço onde era a Boate Kiss seja transformado em um memorial, ainda há um longo caminho pela frente. Por enquanto, o local segue sob a guarda da Justiça, pois ainda poderá ter de passar por perícias e reconstituições. E é possível que fique assim até o fim do processo criminal sobre a tragédia.

Depois que o local estiver liberado, será necessário comprar o terreno do imóvel ou que a prefeitura faça um decreto de desapropriação. Para o prefeito Cezar Schirmer (PMDB), que já tem conversado com o presidente da AVTSM sobre o assunto, ainda é cedo para falar no que o município pode fazer. O certo é que ele concorda com a construção de um memorial.  

“O importante é que não podemos ignorar o que aconteceu. Acho que deve existir um memorial, sim, e devemos homenagear a vida, e não a morte. Na Argentina, por exemplo, até hoje não se tem referência à tragédia que aconteceu lá. Toda tragédia tem que deixar um legado e um aprendizado“, disse o prefeito.

Pozzobonelli é escultor há mais de 40 anos, tendo criado mais de 3 mil trabalhos, entre esculturas e monumentos. Ele morou em Santa Maria a partir dos sete anos e, depois de uma rápida passagem pela UFSM, foi estudar no Rio de Janeiro aos 18 anos. Após, terminou sua formação acadêmica em Florença, na Itália.

Mais tarde, o escultor se mudou para os Estados Unidos, onde foi contratado para fazer esculturas de famosos como Anthony Quinn, Sammy Davis Jr., Frank Sinatra e Julio Iglesias, entre outros. Ele vive com a mulher em West Palm Beach, na Flórida, onde mantém seu ateliê.

“Fiquei muito sentido com tudo o que aconteceu e resolvi fazer alguma coisa. Amo Santa Maria. Vivi minha juventude em Santa Maria, indo a bailes nos clubes Santamariense, Caixeiral e Esportivo, e fiquei na obrigação de fazer algo que celebrasse a vida desses jovens. Quis fazer o projeto de um local que trouxesse paz”, comenta Pozzobonelli, que apresentará sua proposta na noite desta sexta-feira em Santa Maria, com a ajuda de uma maquete eletrônica.

Na quarta-feira, a projeto do memorial foi apresentado em Brasília (DF) para a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Ela disse que gostou da proposta e afirmou que ajudará na articulação para que o projeto saia do papel.

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