Tragédia em Santa Maria

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03 de abril de 2013 • 17h08 • atualizado às 17h28

Padre lança livro sobre a Kiss e rebate oportunismo: 'visão tacanha'

Lauro Trevisan diz que pretende levantar o ânimo de Santa Maria após a tragédia que vitimou 241 na Boate Kiss

Lauro Trevisan tem 33 anos de carreira e 78 livros publicados
Foto: Divulgação

Buscando respostas para as perguntas "existenciais" da tragédia na Boate Kiss, que vitimou 241 pessoas em janeiro deste ano em Santa Maria (RS), o padre Lauro Trevisan - natural da cidade - lançou o livro "Kiss - Uma porta para o céu", publicado pela Editora da Mente, da qual é dono, e rebateu críticas de oportunismo. Com 33 anos de carreira como escritor e 78 obras publicadas, ele afirma que seu lançamento pretende dar "conforto, solidariedade e carinho a todas as famílias que sofrem a perda de um ente querido" e "levantar o ânimo das pessoas de Santa Maria".

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"É uma enorme besteira a crítica, não entendo porque seria oportunismo. Só por voltar ao acontecimento? E a Sexta-Feira Santa? As pessoas não vão ao cemitério uma vez por ano visitar seus falecidos? O importante é contribuir para iluminar as pessoas, o ser humano. A visão de oportunismo é muito tacanha, tenho certeza absoluta que quem fala isso, não leu o que escrevi", disse ele.

Escritor foi criticado por seguidores no Facebook
Foto: Reprodução

Em sua fanpage no Facebook, o padre foi criticado por seguidores, que o chamaram de oportunista e disseram que a publicação reabriria feridas. "Tudo o que acontece dentro do livro visa levantar o ânimo das pessoas, criar sentimentos bons, acreditar na vida apesar de tudo, e mostrar que há pessoas que sofreram perdas irreparáveis e estão enfrentando com ânimo. Isso é um exemplo para todos os outros, inclusive para as pessoas que sofrem de tragédias no mundo todo", argumentou ele.

Motivos da tragédia
Sem entrar nos campos do documentário e da reportagem, Trevisan procurou responder os motivos da tragédia sob a ótica espiritualista e de auto-ajuda, suas especialidades. O título do livro remete ao principal questionamento feito pelo autor no texto: "onde estava Deus no momento da fatalidade?"

"Estava de braços abertos, acolhendo esses jovens. Eu mostro que eles estão numa dimensão melhor. A humanidade toda é visada com isso que aconteceu, a vida é curta e o ser humano é solidário. Tento mostrar a necessidade urgente do respeito à vida, da reconciliação, de aproveitar esse sentimento tão forte causado pela tragédia para colocar os sentimentos mais benéficos e positivos no coração", concluiu.

Juiz aceita denúncia do MP
O juiz Ulysses Fonseca Louzada aceitou nesta quarta-feira a denúncia na íntegra do Ministério Público (MP) contra os oito responsabilizados pelo órgão pelo incêndio na boate Kiss. O magistrado também defendeu que os quatro acusados por homicídio doloso vão a júri popular em Santa Maria. Os outros quatro denunciados vão responder por falso testemunho e fraude processual. "Reconheço a justa causa para o processamento da denúncia oferecida", afirmou Louzada. Ele também ressaltou que o trabalho do MP foi "irrepreensível".

Louzada também deferiu os pedidos de arquivamento em relação ao gerente da Kiss Ricardo de Castro Pasche, ao secretário de Proteção Ambiental de Santa Maria Luiz Alberto Carvalho Junior, e ao funcionário da prefeitura Marcus Vinicius Bittencourt Biermann. Ele salientou, no entanto, que, no caso de surgirem indícios que liguem os agentes, o inquérito pode ser retomado. 

Ontem, a Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes e denunciou por homicídio doloso os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão. Por fraude processual foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas. 

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.