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Indícios reforçam poder de mando de irmã de sócio da Kiss

Polícia Civil faz investigações complementares sobre a tragédia de Santa Maria, ainda sem prazo para terminar

17 mai 2013
18h05
atualizado às 18h12
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As investigações complementares da Polícia Civil de Santa Maria (RS) sobre a tragédia da Boate Kiss já levaram os delegados responsáveis pelo caso a uma conclusão: Ângela Crivellaro Becker, irmã de Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da casa noturna, tinha mesmo poder de mando e de veto. A apuração sobre a participação dela foi um dos pedidos feitos pelo Ministério Público (MP) na denúncia apresentada à Justiça.

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Para o delegado Sandro Meinerz, os mais de 40 depoimentos desta fase de investigações reforçaram o que a Polícia Civil já havia apontado na conclusão do inquérito sobre a tragédia. Foram ouvidos funcionários da casa noturna e seguranças da empresa terceirizada que atuava no local. "Os depoimentos apontaram que a Ângela contratava e demitia. Foi ela, inclusive, que contratou a empresa de segurança. Tudo aponta, sim, que ela tinha poder de mando na boate", disse Meinerz.

Quase todos que trabalharam  sob o comando de irmã de Kiko também falaram que ela tinha conhecimento de todas as decisões tomadas em relação à Kiss. A mesma convicção não é mantida em relação a Marlene Teresinha Callegaro, mãe de Kiko. Ela e Ângela haviam sido indiciadas por homicídios qualificados com dolo eventual e tentativas de homicídio na conclusão do inquérito. Porém, as duas ficaram fora da denúncia do Ministério Público, que pediu mais investigações a respeito da participação de Marlene e Ângela.

Em relação a Marlene, nenhum fato novo apareceu nas investigações complementares. E é isso que a Polícia Civil deve passar ao Ministério Público. Em relação a Ângela, porém, os depoimentos dessa fase serão informados, e caberá ao MP avaliar se ela será denunciada ou não. A Polícia Civil também segue investigando, por requisição do MP, a empresa de segurança que prestava serviços para a Kiss, para saber de quem os profissionais obedeciam ordens, se eles receberam treinamento e quem cuidava da saída da boate.

Uma das intenções é esclarecer o incidente registrado na madrugada da tragédia, quando alguns seguranças teriam barrado a saída de algumas pessoas, exigindo que a comanda fosse paga. As investigações complementares estão a cargo dos delegados Sandro Meinerz, Marcos Vianna, Luiza Santos Sousa e Gabriel Zanella, a mesma equipe do inquérito da tragédia. Não há prazo para concluir o trabalho.              

Quando as investigações forem concluídas, não serão feitos novos indiciamentos pela Polícia  Civil. Os apontamentos serão enviados para os promotores, que aí decidirão se oferecem denúncia ou não. Depois que os pedidos do MP forem atendidos, a Polícia Civil passará a investigar se houve irregularidades na contratação de empresas que atuam na prevenção a incêndios em Santa Maria.

Uma das firmas que está sob a mira é a Hidramix, que prestou serviços à Kiss - ela tem um bombeiro como sócio, e a polícia quer saber se isso fez a empresa ser indicada. Outra empresa que deve ser investigada é a Marca Engenharia - a polícia vai apurar se houve irregularidades na aprovação de documentação pelos bombeiros.
 
Donos da casa noturna foram indiciados por venda de bebidas a menores
Em relação à venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, a Polícia Civil já concluiu essa investigação, também solicitada pelo MP. Um inquérito foi remetido à Justiça com o indiciamento dos sócios da Kiss, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann pela contravenção penal que prevê pena de dois meses a um ano de prisão ou multa. A venda de bebidas para menores de 18 anos foi comprovada por meio de depoimentos de 28 pessoas.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra

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