0

Dois seguranças da Kiss e sobrinho de sócio da boate devem depor na terça

9 set 2013
14h57
atualizado às 14h58
  • separator
  • 0
  • comentários

Após menos de uma semana de pausa, os depoimentos de sobreviventes da tragédia da Boate Kiss serão retomados nesta terça-feira em Santa Maria. A previsão é ouvir seis pessoas na condição de vítimas, todas listadas pelas defesas dos quatro réus. Entre elas, estão um casal de seguranças que trabalhava na casa noturna e um sobrinho de Elissandro Spohr, o Kiko, que é réu na ação criminal sobre o incêndio que causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas.

A tragédia da Boate Kiss em números
Veja como a inalação de fumaça pode levar à morte 
Veja relatos de sobreviventes e familiares após incêndio no RS
Veja a lista com os nomes das vítimas do incêndio da Boate Kiss

A audiência está prevista para começar às 9h30, no Fórum de Santa Maria. Os depoimentos são abertos ao público em geral. Para entrar no Salão do Tribunal do Júri, o interessado deve apresentar um documento de identidade, passar pelo detector de metais e desligar o celular. Também não é permitido o uso de computadores portáteis. Filmagens e fotografias estão restritas à imprensa. Há lugares reservados para a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Kiss (AVTSM).

O primeiro depoimento do dia deve ser o de Rute Brilhante da Cruz, que trabalhava como segurança na Kiss. Em depoimento à Polícia Civil, ela disse que havia mais de 700 pessoas na boate "com certeza". Depois de Rute, a previsão é que seja ouvido o marido dela, Daniel Alcântara da Cruz, que também atuava como segurança da Kiss. Para a Polícia Civil, ele declarou que havia "cerca de 900 pessoas" na boate e que os ferros atrapalharam a saída. Ele também contou que viu Kiko mandando abrir as portas para liberar a saída dos frequentadores.

Para a parte da tarde estão previstos mais quatro depoimentos, a partir das 13h30. O primeiro deve ser o do mecânico Brian Zepenfeld, frequentador da Kiss que chegou a ficar internado em Porto Alegre após o incêndio. Na sequência devem falar outros dois clientes da boate, Gregory Licht dos Santos e Guilherme Carrion Carvalho.

O último depoimento agendado para esta terça é o de Willian Renato Machado, sobrinho de Kiko. Quando falou durante o inquérito da Polícia Civil, ele chegou a criticar o trabalho dos bombeiros no resgate das vítimas.

Para esta semana estão previstos mais dois dias de audiência do processo criminal da Kiss. Para quarta, a previsão é ouvir mais seis vítimas. Na quinta, devem depor sete pessoas.

Em Santa Maria, estão previstos mais depoimentos nos dias 19, 24, 25, 26 e 27 deste mês. Haverá também audiências para ouvir vítimas nas cidades gaúchas de Rosário do Sul, Uruguaiana, Horizontina, Passo Fundo, Quaraí e Caxias do Sul. O titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, juiz Ulysses Fonseca Louzada, já manifestou a intenção de ir a todas essas audiências.

Além de Kiko respondem ao processo criminal da tragédia o sócio da Kiss Mauro Hoffman, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, e o roadie do grupo, Luciano Bonilha Leão. Eles são acusados por homicídios qualificados com dolo eventual (doloso) e tentativas de homicídio qualificado.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

 

Fonte: Especial para Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade