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Bombeiro compara inquérito da Boate Kiss a degolas em praça pública

Responsabilizado pela Polícia Civil, major Gerson da Rosa Pereira divulgou carta aberta à população nesta terça-feira

26 mar 2013
13h59
atualizado às 14h10
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Apontado como responsável no inquérito que investigou as causas do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, major Gerson da Rosa Pereira, chefe do estado maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul, divulgou nesta terça-feira carta aberta à população em que critica o trabalho conduzido pela Polícia Civil gaúcha. Se dizendo indignado pela "maldade e falta de escrúpulos" do delegado Marcelo Arigony ao inclui-lo no inquérito - mesmo cabendo à Justiça Militar o julgamento de eventuais crimes cometidos por bombeiros -, o major comparou a divulgação das investigações a execuções medievais.

<p>Major do Corpo de Bombeiros criticou o trabalho do delegado Marcelo Arigony (foto)</p>
Major do Corpo de Bombeiros criticou o trabalho do delegado Marcelo Arigony (foto)
Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

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"Publicar um relatório na íntegra, com nomes de pessoas e suas individualidades, além de depoimentos não autorizados na imprensa, se assemelha às execuções de guerra e às degolas em praça pública do século medieval. Dentre estas pessoas, certamente, teremos pessoas inocentes, ao menos aos olhos da Justiça dos homens. Estamos diante de uma nova modalidade de execução sumária", afirma. "Minha família e vida pessoal foram feridas de morte sem qualquer possibilidade de reparo, nem mesmo qualquer indenização ou retratação pelos responsáveis poderá desconstituir a exposição que sofri", argumenta o bombeiro.

O major também questiona o crime imputado a ele no inquérito (fraude processual), que não está previsto no Código Penal Militar. "Como sou militar e não há previsão desta conduta típica no Código Penal Militar, não haveria nem como 'enxovalhar' o nome que defendo e defendi durante toda minha vida pessoal e profissional, 'arrumando', às pressas, alguma coisa a me imputar", reclama Pereira, que nega qualquer tentativa de prejudicar a investigação do incêndio. "Minhas declarações estão lá, nunca deixei de contribuir, nunca ocultei ou inseri qualquer documento que comprometesse a investigação."

No trecho final da carta, o bombeiro se dirige diretamente ao delegado Arigony, que, na apresentação do inquérito, afirmou que poderia, enfim, dar-se ao luxo de chorar. "Como o senhor, chorei por todas as pessoas que conhecia, pelos 241 inocentes e sua família com suas casas vazias e pelas calúnias e difamações que sofremos como instituição e pessoas", diz o major. "Mas choro pelo espetáculo proporcionado por sua instituição, do qual poderíamos ser poupados; choro pela desconsideração em relação aos militares que o senhor não tinha competência de indiciar e, que, na 'maior boa vontade' prestaram depoimentos desnecessários à sua instituição. (...) Choro, pois não esperava do senhor e de sua instituição meu indiciamento por crime comum (crime impossível), expondo minha vida, minha família, minha carreira", argumenta Pereira.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.
 

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas. 

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Fonte: Terra
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