3 eventos ao vivo

Boate Kiss, 6 meses depois: vítima sente saudade de trabalhar

Servidora da prefeitura de Júlio de Castilhos foi a penúltima sobrevivente do incêndio a ganhar alta do hospital

27 jul 2013
14h36
atualizado às 14h57
  • separator
  • 0
  • comentários

Depois de quatro meses e meia internada, a servidora da prefeitura de Júlio de Castilhos (RS) Renata Pase Ravanello, 25 anos, foi a penúltima sobrevivente da tragédia da Boate Kiss a ganhar alta, em 12 de junho, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS). Agora, comemora poder estar de volta ao convívio regular dos familiares e amigos. “Após momentos de muita dificuldade, angústias, desespero, luta, mas, acima de tudo, de muita esperança, onde contei com o apoio da minha família, em especial meus pais e meu irmão, e dos meus amigos, colegas de trabalho, conhecidos, e todas as pessoas que oraram pela minha recuperação, me sinto realizada, com a sensação de liberdade, de vencedora, pois aos poucos vou evoluindo e conseguindo retomar minhas atividades. A cada dia, uma nova conquista”, analisa Renata.

Renata quer voltar ao trabalho, mas foca na recuperação
Renata quer voltar ao trabalho, mas foca na recuperação
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

A tragédia da Boate Kiss em números
Veja como a inalação de fumaça pode levar à morte 
Veja relatos de sobreviventes e familiares após incêndio no RS
Veja a lista com os nomes das vítimas do incêndio da Boate Kiss

Neste domingo, quando a tragédia da Boate Kiss completa seis meses, Renata, natural de Cruz Alta, está na casa dos pais, em Ivorá (RS), na Região Central do Rio Grande do Sul. A rotina dela, depois da alta, é bem complexa. “Continuo com o tratamento, que ainda se estenderá por muito tempo. Faço fisioterapia todos os dias, realizo acompanhamento no Ciava (Centro Integrado de Atenção às Vítimas de Acidentes, no Hospital Universitário de Santa Maria). Continuo com o acompanhamento em Porto Alegre, no Hospital de Clínicas, com consultas e exames periódicos, período este que vai se estendendo de acordo com a evolução apresentada”, explica Renata.

Sobre retomar o trabalho na prefeitura de Júlio de Castilhos, a jovem, que tem graduação e pós-graduação em Direito, ainda não tem previsão. “Após a minha próxima consulta em Porto Alegre, pretendo ter alguma previsão a respeito”, afirma. A saudade do convívio com os colegas de prefeitura é grande, e, por isso, Renata pretende retomar as atividades que desenvolvia anteriormente, dentro do possível. “O certo é que continuo focada na minha recuperação, pois o tratamento é longo”, conclui a jovem, que, depois de sobreviver ao incêndio na Kiss, se diz “uma nova pessoa, com um olhar totalmente diferente diante da vida”.

Incêndio na Boate Kiss

Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

 

 

Fonte: Especial para Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade