PUBLICIDADE

Por cruz de madeira, João Paulo II desafiou os comunistas

27 abr 2011
15h03 atualizado em 28/4/2011 às 08h21
15h03 atualizado em 28/4/2011 às 08h21
Publicidade
Leandro Demori
Direto de Nowa Huta, Cracóvia

Uma cruz de madeira assinalou o destino das relações entre João Paulo II e o regime comunista russo que se instalara na Polônia após o fim da Segunda Guerra Mundial. Reconhecido até mesmo por Mikhail Gorbachev como peça-chave para a queda da Cortina de Ferro, o Papa, que será beatificado no próximo domingo, comprou uma briga doméstica antes de pensar em mudar o mundo.

Depois de acabar destruída pela passagem do tempo, a cruz foi reconstruída secretamente, à revelia das autoridades
Depois de acabar destruída pela passagem do tempo, a cruz foi reconstruída secretamente, à revelia das autoridades
Foto: Leandro Demori / Especial para Terra

Em 1949, o regime soviético iniciou a construção de uma nova cidade a leste de Cracóvia, onde Wojtyla iniciou sua carreira religiosa. O local se chamaria Nowa Huta ("nova fábrica de ferro") por conta da concomitante construção de uma usina. Concebida para ser a cidade socialista ideal, Nowa Huta era ateísta por definição - varada por imensas avenidas e blocos monolíticos de apartamentos ao estilo do Realismo Socialista sem prever qualquer espaço para a construção de igrejas.

Os russos calcularam mal a força da religião na Polônia, país onde 90% da população se declara católica. Durante anos, católicos liderados pelo então bispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, entraram com requisições junto ao governo para levantar uma cruz em alguma das praças do mastodonte urbano que abriga ainda hoje 20 mil pessoas.

A permissão foi dada a Wojtyla em 1956, e a cruz, de madeira, logo construída. Apenas dois anos depois, o regime decidiu fazer uma escola no local designado aos fiéis. Em poucos dias, centenas de manifestantes foram às ruas de Nowa Huta para defender a cruz. Enfrentanto violentos conflitos, a polícia decidiu fechar a cidade: colunas de caminhões militares, carros armados, canhões e metralhadoras foram posicionados nas entradas das ruas de acesso.

"A única linha de comunicação entre as duas cidades eram os motoristas de táxi, que avisaram a população de Cracóvia que a revolução tinha começado em Nowa Huta", conta Wita Szybalski, 56 anos, taxista de Cracóvia que viveu em Huta após a queda do regime. A guerra pela cruz atingiu o pico em abril de 1960 quando quatro mil pessoas saíram às ruas e enfrentaram canhões d´água, bombas de gás e cães da polícia do regime. O número de mortos - em estimativa imprecisa feita à época - é de 800.

Contra as bombas, venceu a cruz, que ficou onde estava até 1970, quando atingiu estado avançado de degradação. Vigiada dia e noite por soldados do exército, ela não poderia ser substituída. Afinal, o bispo Wojtyla e seus seguidores havia pedido para construir 'aquela' cruz. "Todo mundo sabia que o regime queria deixar a cruz apodrecer e cair. Não deixavam ninguém chegar perto para reparar ou trocar a madeira", lembra Szybalski.

A engenharia da fé abriu mais uma rodada no xadrez de forças: uma nova cruz foi construída secretamente e, no dia 1º de maio, quando todos os oficiais do regime estavam longe de seus postos de guarda festejando o Dia do Trabalhador, foi fincada no lugar da antiga. Hoje, uma placa lembra a luta de Karol Wojtila pela monumento: "A João Paulo II, o defensor da cruz, a gratidão do povo de Nowa Huta".

Fonte: Especial para Terra
Publicidade