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China destrói bairro histórico para construção de vilas turísticas

7 abr 2013
14h51 atualizado em 9/9/2013 às 14h27
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14h51 atualizado em 9/9/2013 às 14h27
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A casa da família Guo, localizada na praça central de Pequim, entre as torres históricas do Sino e do Tambor, está na família há mais de um século. Reformada ao longo dos anos, a morada foi dividida para acomodar os novos membros da família à medida que eles nasciam. Ali, o filho de Guo Long deu os primeiros passos, aprendeu a andar de bicicleta e fez seus primeiros amigos. Hoje, o que resta da casa são apenas escombros e indícios da memória familiar.

Depois de ter sido vetado, o projeto foi retomado no início de 2013 com a chegada de tratores e máquinas de demolição
Depois de ter sido vetado, o projeto foi retomado no início de 2013 com a chegada de tratores e máquinas de demolição
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

"Saímos da casa no início de fevereiro, logo depois de o governo dizer que a destruição das casas começaria no final daquele mês", conta Yang Hua, 67 anos, esposa de Guo Long. 

A troca foi para eles "vantajosa". "Ainda que tenhamos uma conexão emocional à casa, as condições já eram precárias. O aquecimento à carvão era insuficiente e sufocador, e o saneamento também era ruim”, conta Guo Long. Pela área de 70 metros quadrados, a família recebeu do governo um apartamento de dois quartos na zona sul da cidade.

A renovação de Gulou, como é chamado o bairro que circunda a torre de mesmo nome (Gu significa tambor em mandarim), já estava nos planos de Pequim desde 2010. Na época, a intenção era "limpar" os arredores das casas velhas e os estreitos hutongs (as vielas que marcam o centro histórico de Pequim), alguns com mais de oito séculos de história, para a construção de um centro cultural e um shopping no subsolo.

Depois de ter sido vetado, o projeto foi retomado no início de 2013 com a chegada de tratores e máquinas de demolição. For a decretado o fim da história em comunidade de famílias como a de Guo.

A área era conhecida pelo turismo a pé e pelos passeios de riquixás
A área era conhecida pelo turismo a pé e pelos passeios de riquixás
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

A área, antigamente tomada por turistas locais e estrangeiros atrás de passeios de riquixás e de alimentos nativos de Pequim no comércio local, hoje se divide entre carros, lixo e catadores de sucata. O turismo a pé e de bicicleta deu espaço aos carros e ônibus fretados, que poderão circular mais livremente quando os hutongs forem destruídos e transformados em grandes avenidas. Em 2011 alguns hutongs que circundam a praça de Zhonggulou (a da torre do sino e do tambor) desapareceram para dar espaço a redes de fast food como KFC e Costa Café.

Buzinas e solidão
Gulou é o ponto norte da Pequim antiga, que corta a cidade de norte a sul em uma linha centrada sobre a Cidade Proibida - o antigo palácio imperial. Era uma das poucas áreas históricas que haviam sido mantidas em hutongs, sem arranha-céus e com uma vida local de pequenos negócios familiares e comunidades que jogavam xadrez nas ruas e dançavam nas praças. Hoje, o barulho da vida em comunidade deu lugar às buzinas e um sentimento comum de solidão.

O projeto também prevê abrir os estreitos hutongs (as vielas que marcam o centro histórico de Pequim)
O projeto também prevê abrir os estreitos hutongs (as vielas que marcam o centro histórico de Pequim)
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Para Guo, a renovação do lugar afeta os turistas – em especial os estrangeiros. Para os moradores locais, a troca da moradia em condições precárias por apartamentos novos é uma bênção em tempos de bolha imobiliária. "Nós jamais teríamos dinheiro para comprar uma nova casa, na idade avançada em que estamos e depois de termos comprado um apartamento para o nosso filho quando ele casou."

A família Chang, vizinha dos Guo, não tem a mesma opinião. Com uma neta ainda criança e estudando nas proximidades, os Chang serão removidos para o extremo norte da cidade. "Nós teremos que reorganizar nossas vidas para fora do centro da cidade. É muito longe, e nós trabalhamos aqui. Como vamos fazer para trabalhar quando precisaremos passar mais de uma hora no ônibus para chegar ao nosso local de trabalho?", pergunta-se Chang Ping He, 59 anos. 

A compensação, dada em forma de dinheiro (cerca de R$ 300 pelo metro quadrado ou um apartamento de área equivalente à casa destruída), não foi um bom negócio para os Chang. "“O valor de Gulou é muito maior do que o apartamento que recebemos, e quem vai ganhar dinheiro com a nossa casa será a construtora para quem o governo passar a terra."

Na China, a terra é do país. Quem compra uma casa a mantém em seu nome por 70 anos. A partir disso, uma taxa anual é paga ao governo para que a escritura seja mantida no nome da família. Com a desapropriação, o governo torna-se novamente dono da área e pode vender, alugar ou repassar a terra, muito valorizada no mercado imobiliário, para a exploração de construtoras. Para Pequim, que pretende urbanizar o país e modernizar as cidades com um aporte de US$ 6 trilhões e que trará mais de 400 milhões de novos moradores urbanos, a troca é vantajosa.

Para os moradores, a troca da moradia em condições precárias por apartamentos novos é uma bênção em tempos de bolha imobiliária
Para os moradores, a troca da moradia em condições precárias por apartamentos novos é uma bênção em tempos de bolha imobiliária
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

"Preservação histórica"
Projetos liderados por organizações como Centro de Proteção do Patrimônio Cultural de Pequim tentam explicar, através de pesquisas científicas, o preço real da destruição da cultura arquitetônica - e familiar - para o país. A indicação, porém, é de que o esforço possa ser em vão.

Gulou será reconstruído aos moldes da arquitetura Qing, do século XVIII - o que deveria ser um indício da preservação histórica da área. Mas com a imagem de Qianmen em mente, Guo imagina que sua casa será mais uma fotografia de uma farsa arquitetônica. Qianmen foi a primeira rua de comérico da China e quando foi renovada, em 2008, virou um grande centro para lojas estrangeiras, em uma tentativa de reconstruir o passado sob alegação de “preservação histórica”.

"Preservação histórica? Eu não reclamo da minha casa nova, mas acho que essas cópias da arquitetura imperial dão uma cara de produtos falsificado para o país, algo que o governo tem tentado mudar. Nada faz muito sentido e não consigo visualizar a minha casa assim", desabafa Guo.

Fonte: Especial para Terra
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