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Povoado mais seco do mundo cresce em meio a estranho oásis

15 jun 2016
06h05
atualizado às 13h15
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Em pleno deserto chileno do Atacama, no meio de uma desoladora paisagem de terras inférteis e áridas colinas, está presente um pequeno e incompreensível oásis. Ele se chama Quillagua e é o povoado mais seco do planeta.

No meio de uma paisagem desolada de terra seca e estéril colinas, um oásis minúsculo e incompreensível: ele é chamado de Quillagua e é a cidade mais seca da Terra.
No meio de uma paisagem desolada de terra seca e estéril colinas, um oásis minúsculo e incompreensível: ele é chamado de Quillagua e é a cidade mais seca da Terra.
Foto: Cristobal Chavez / EFE

Localizado a duas horas, por estrada, do centro de mineração de Calamarinta, nesta época do ano em que o inverno se aproxima, uma temperatura de 35 graus Celsius não deixa Quillagua saber o que é o frio.

Poucas algarobeiras dão uma aparência verde ao lugar. As extensas raízes desta espécie arbórea se alimentam de um lençol freático que flui vários metros abaixo do solo.

Cerca de 150 pessoas, em sua maioria idosos, habitam esta vila, que fica na região de Antofagasta, a cerca de 1,6 mil quilômetros de distância de Santiago e a 150 quilômetros de Chuquicamata, a maior mina de cobre ao ar livre do mundo.

Em Quillagua não há água potável. O elemento vital é proporcionado pela prefeitura de María Elena, município ao qual pertence o povoado.

Com a eletricidade, acontece o mesmo. Os moradores a recebem somente oito horas por dia, quando aproveitam para ligar rádios e televisores e carregar os telefones celulares que os conectam com o mundo exterior.

"Antes tínhamos que ir ao único telefone que havia na praça, ou então esperar três ou quatro meses para que chegassem as respostas das cartas que mandávamos. Agora comemos à mesa falando pelo celular com nossos amigos ou parentes próximos", contou, com entusiasmo, um morador.

No povoado há uma igreja, um serviço de urgência atendido por um enfermeiro e um posto do corpo de bombeiros que mais do que apagar incêndios, raciona a água.

"Este povoado é tranquilo, está fora da civilização. As pessoas que vivem aqui têm que ser valentes", comentou Victoria, uma dirigente da comunidade indígena aimara.

Cerca de 150 pessoas, a maioria idosos, vivem na aldeia
Cerca de 150 pessoas, a maioria idosos, vivem na aldeia
Foto: Cristobal Chavez / EFE

Em 2002, a revista National Geographic catalogou Quillagua como o lugar mais seco do planeta. Os 0,2 milímetro de água que caíram em 40 anos são prova.

Passados 14 anos, o pluviômetro quase não variou. Só foi registrada uma leve chuva em março do ano passado, quando um fortíssimo temporal castigou o norte do Chile e devastou várias cidades da região do Atacama com enchentes e transbordamentos de rios que deixaram 28 mortos.

Luis nasceu há 63 anos em Quillagua e quase não conhece a chuva. "Quando criança, lembro que caiu um pouco e molhou os arbustos. Tivemos problemas, porque aqui só se cozinha com lenha", disse.

Quillagua nasceu no início do século passado, quando o Chile era o principal exportador mundial de salitre. O povoado abastecia a forragem para os animais das companhias salitreiras.

Quillagua fica cerca de 1.600 quilômetros ao norte de Santiago
Quillagua fica cerca de 1.600 quilômetros ao norte de Santiago
Foto: Cristobal Chavez / EFE

A vila conta com um rio, o Loa, que atravessa o Deserto do Atacama dos Andes até o Pacífico.

Há meio século, os habitantes pescavam peixes e camarões do rio. Havia patos e, nas áreas contíguas, plantava-se milho, acelgas, beterrabas e alface, mas as companhias mineradoras intervieram.

"Poluíram a água. Agora quase não há, e o pouco que corre, está poluída. Tínhamos água em abundância, mas agora tudo morreu", lamentou um morador.

Quillagua significa "vale de lua" em aimara, a língua da comunidade indígena do mesmo nome que povoou os planaltos andinos durante o período pré-hispânico.

Grande parte dos habitantes deste oásis é formada por aimaras, embora também haja membros das etnias quíchua e atacameña.

Imagem de 4 de junho de 2016 mostra corpos mumificados da comunidade indígena Aymara que habitava as montanhas andinas.
Imagem de 4 de junho de 2016 mostra corpos mumificados da comunidade indígena Aymara que habitava as montanhas andinas.
Foto: Cristobal Chavez / EFE

No meio das rústicas casas, destaca-se o Museu Antropológico Municipal, que apesar de seu pomposo nome, é só um descuidado casarão que contém uma dezena de múmias centenárias e fósseis achados no deserto.

Um denso cheiro sai do ambiente onde 13 múmias repousam em estantes e móveis adornados com colares de plumas, cerâmicas e achados funerários pré-hispânicos.

"Isto não é um museu, é um depósito. Aqui ficam as descobertas que foram feitas na região. Há várias múmias que estão em ótima condição, mas precisam do cuidado de especialistas e uma conservação especial", explicou Mauricio Valenzuela, administrador do local.

Várias universidades estudaram estes vestígios, alguns dos quais datam de 500 a.C. e que foram recuperados em escavações.

Um dos corpos mumificados, protegido apenas por papelões, é de um homem adulto de origem asiática cujos restos estão bem conservados graças ao clima seco e à salinidade do deserto.

Corpos mumificados de comunidade indígena datam de 500 a.C a 600 d.C.
Corpos mumificados de comunidade indígena datam de 500 a.C a 600 d.C.
Foto: Cristobal Chavez / EFE

O vale de Quillagua também é conhecido por ser um lugar de observação de ovnis, mas desde o terremoto de 2007 o número de turistas despencou vertigionsamente.

Apesar das duras condições deste lugar, os moradores de Quillagua resistem a abandoná-lo.

"Aqui não há entretenimento, mas a vida é muito tranquila. Todos os dias são iguais", filosofou um dos moradores.

EFE   

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