Terror em Paris: cidade se rebelou contra nazistas em 1944

No final da guerra, panfletos pela cidade conclamavam a população a se rebelar contra o exercito nazista

24 nov 2015
12h51
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Segunda Guerra Mundial em pleno curso. O levante organizado pela Resistência Francesa começou dias antes das tropas aliadas estarem bem próximas de Paris. Nos dias 18 e 19 de agosto de 1944, a cidade viu-se inundada de panfletos conclamando a população a rebelar-se. Todos deviam sair às ruas para erguer barricadas e obstáculos que dificultassem a circulação dos veículos e dos blindados alemães. O socorro estava perto. O general Leclerc e seus blindados estavam próximos.  Se o povo de Paris se levantasse ele é que ficaria com a glória de ter libertado a capital da ocupação nazista que já completara então quatro longos anos.

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O lamento por Paris

“Dronne, marche rápido para Paris, entre em Paris... diga aos parisienses para não perderam a coragem que amanhã pela manhã a Divisão [Forças dos Franceses Livres] inteira estará em Paris” , disse o general Leclerc ao  capitão de uma coluna de tanques, no dia 24 de agosto de 1944.

Barricada popular na capital francesa em 22 de agosto de 1944
Barricada popular na capital francesa em 22 de agosto de 1944
Foto: Divulgação

“Paris passa frio, Paris tem fome... Paris veste-se como se fosse uma velha... Paris é infeliz”. Tristes assim soaram as estrofes iniciais do poema Coragem (1942) de Paul Éluard, surrealista, comunista, homem da Resistência. Apesar das circunstâncias dramáticas em que a cidade vivia, ocupada pelo exército alemão desde 14 de junho de 1940, ele não desanimara: ela seria libertada. Ainda que os “melhores de nós terem morrido por nós”, a esperança não desaparecera no coração dos franceses, havia um raio de luz na vida... “havia um espaço para o renascer da primavera”.

Todavia, foi preciso esperar mais dois anos. O desembarque aliado na Normandia no Dia-D, em 6 de junho de 1944, acendeu o ânimo de todos os parisienses. As divisões alemãs, bombardeadas diariamente pelos aviões aliados, vendiam caro o território que separava as praias do desembarque até a periferia da capital da França. A impaciência aumentava em Paris. No 1º de agosto chegou-lhes a notícia de que a resistência polonesa, liderada pelo general Komorowski, comandante do Armia Krajowa (AK) se insurgira em Varsóvia contra a ocupação nazista.

Apelo às barricadas!

O general De Gaulle, o supremo comandante das Forças dos Franceses Livres (FFL), que passara a guerra exilado em Londres, decidira que, por uma questão de honra nacional, as primeiras fardas a entrarem em Paris deveriam ser as dos seus comandados da FFL. Nada de ficar devendo favores aos anglo-americanos pelo resto da vida. Escolheu, para tanto, a 2ª Divisão Blindada do general Leclerc, que marchava a uns 200 quilômetros de distância da capital.

Enquanto isso a cidade fervia. As comissões da resistência (a CFL e a CNR) não agüentaram mais a pressão. No dia 18 de agosto, cartazes e panfletos clandestinos, imprimidos pelo coronel Rol-Tanguy, chefe das Forças Francesas Internas (FFI, controladas pelos comunistas), inundaram as ruas. Aproveitando-se de uma greve da polícia, conclamaram o povo da cidade à rebelião. No dia 22, um cartaz foi ainda mais específico. Pelo APPEL AUX BARRICADES, insuflava a que homens, mulheres e crianças de Paris derrubassem as árvores e erguessem barricadas. Os “boches”, os nazistas, deveriam ser expulsos.

A ardente alma amotinada da cidade reviveu os seus dias de Bastilha de 1789, da insurreição de 1848 e a da  Comuna  de 1871. A cólera do povo de Paris, de novo, se manifestou. Em meio aos tiroteios, milhares de trabalhadores e funcionários, apoiados por suas mulheres e filhos, com pás e picaretas, com as mãos mesmo, tiravam as pedras das ruas para empilhá-las. Árvores históricas tombaram em meio aos belos bulevares.   Antigos mosquetões apareceram sabe-se lá de onde, enquanto que coquetéis Molotov eram preparados às pressas.

Paris está em chamas?

Para sorte deles, o general alemão Dietrich von Choltitz, comandante militar da Gross Paris,  decidira não cumprir as ordens superiores para esmagar a insubmissão a qualquer preço. Amante das artes e consciente do que Paris representa para o mundo, negou-se a deixar tudo em ruínas. Desta forma as pontes históricas, o Louvre, e tantas outras edificações se salvaram.  Por igual, lembrando-se do desastre alemão em Stalingrado, em 1943, Choltitz não queria que suas tropas, uns 5 mil homens e 80 tanques,  se envolvessem num mortífero combate de ruas contra a multidão (*).

No jornal clandestino da Resistência, o Le Combat , Albert Camus escrevia: “Hoje, 21 de agosto, no momento que nós aparecemos abertamente pela primeira vez, a liberdade de Paris se realiza. Após cinquenta meses de ocupação, de luta e de sacrifícios, Paris renasce para o sentimento da liberdade a despeito dos tiros que são disparados pelas ruas”.

O coronel Henri Rol-Tanguy, chefe da FFI
O coronel Henri Rol-Tanguy, chefe da FFI
Foto: Divulgação

Paris em festa

Então, cinco dias depois do levante, uma coluna francesa de 10 carros de combate e mais outros tantos de assalto, com 150 homens ao todo, muitos deles voluntários espanhóis sobreviventes da Guerra Civil de 1936 e que formavam a famosa divisão La Nueve, a nona, adentrou pela Porta da Itália em direção ao Hotel de Ville (antigo edifício símbolo da autonomia de Paris). Eram 21h20min do dia 24 de agosto de 1944 quando o capitão Raymond Dronne, atravessando a ponte de Austerlitz, estacionou seus blindados em frente ao prédio.

O povo, em delírio, derramou-se pelos bulevares e ruas. Os civis e os soldados confraternizaram. Ouviu-se então um estrondo. Os sinos da catedral de Notre-Dame, calados por quatro anos, recomeçaram a repicar. Em seguida, como se fosse um eco distante, foi a vez da Igreja Saint-Chapelle, da Saint-Séverin, do Panthéon, e da basílica de Sacré-Coeur no Montmartre. Subindo nos últimos degraus da Torre Eiffel, um bombeiro colocou lá, tremulando, a bandeira da França. Paris estava livre.

No dia 25 de agosto, entrando na cidade, acompanhado por uma multidão incalculável ao percorrer o Champs Elisés, o general Charles De Gaulle, do alto do balcão do Hotel de Ville, proclamou a república. A França estava livre!  Logo em seguida misturado a multidão dirigiu-se a ela com poucas, mas emocionantes palavras. “Paris! Paris ultrajada! Paris submetida! Paris martirizada! Mas sem dúvida Paris libertada! Libertada por si mesmo, liberada pelo povo com ajuda das tropas da França, com o apoio e a participação de toda a França, da França combatente, da única França, da França autêntica, da França eterna.”

(*) “Paris está em chamas?” Esta teria sido a pergunta feita por Hitler ao general von  Choltitz durante uma ligação telefônica. O general, todavia rendeu-se ao coronel Rol-Tanguy (da FFI) e ao general Leclerc (FFL) às 16 horas do dia 25 de agosto de 1944. As perdas alemãs chegaram a 3.200 mortos e 12 mil prisioneiros. Os franceses tiveram mil soldados mortos e uns 600 civis abatidos nas ruas de Paris. Os feridos chegaram a 3.500. Os anglo-saxões que também entraram na cidade para combater os nazistas tiveram 130 mortos e 319 feridos. No total, a batalha de Paris custou a vida de 5 mil civis e soldados, de ambos os lados.

Além da ocupação nazista, veja outros acontecimentos históricos ocorridos na capital francesa:

Paris do Renascimento (1498-1610)

A Casa Valois (1328-1589)

As guerras religiosas (1562-1589)

A Noite de São Bartolomeu (1572)

Henrique IV e a pacificação nacional (‘Paris vale uma missa’)

Língua: o francês torna-se língua oficial (1539).

Artes:  A Escola de Fontainebleau: Jean Cousin, F. Clouet, F.Primaticcio

Teoria Politica: Jean Bodin (Seis livros da República, 1576);

Literatura e poesia: Rabelais – “Gargântua e Pantagruel”; Montaigne ‘Ensaios’; Ronsard e La Pleiade

Paris, entre a Revolução e os dois impérios napoleônicos (1789-1870)

A Queda da Monarquia Bourbônica (1789-1793)

Do Terror revolucionário ao Termidor (1793-4)

Napoleão, cônsul e imperador (1799-1815)

Napoleão III, o Segundo Império (1852-1870).

Artes: os pintores realistas e os impressionistas

Literatura: os romancistas: Balzac, Stendhal e Victor Hugo.

As reformas urbanas de Haussmann (1852-1870)

A Comuna de Paris (1871)

A Terceira Republica (1871-1940)

Paris no século XX

Capital cultural do Ocidente.

A revolução estética: cubismo, surrealismo, etc. (1906-1930)

Paris sob ocupação (1940-44)

O existencialismo (1945-1968)

A Nouvelle Vague (1957-1973)

A Revolução de maio de 1968

A restauração da Cidade Luz (André Malraux)

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