Brexit: o espectro da Sra. Thatcher

23 mar 2017
13h00
atualizado em 24/3/2017 às 14h10
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Desde o afastamento de Winston Churchill dos assuntos públicos, nenhum outro líder inglês nutriu tanto ódio aos alemães como a primeira-ministra da Grã-Bretanha (de 1979-1990), a senhora Margaret Thatcher (“não confio neles”). Assumindo a bandeira do nacionalismo extremado, uma autêntica jingoísta, repugnava-lhe a aproximação com o restante da Europa. Particularmente com a Alemanha. Tendo consciência de que Berlim, por meio do controle da burocracia, iria mais tarde ou mais cedo impor as regras do jogo aos demais integrantes da Comunidade Econômica Européia. Rejeitou ir adiante ao congraçamento de nações que estava em acelerada formação entre os demais países do continente europeu para atingir a tão sonhada integração, (advogada tanto por Kant como por Victor Hugo).

Brexit
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Foto: Divulgação

Disse então: “nós os derrotamos [os alemães] por duas vezes neste século (na 1ª e 2ª GM) e não será agora que vamos lhes obedecer”. Para ela aprofundar-se na integração era capitular.(*)

Anteriormente, por duas vezes, em 1960 e 1967, a entrada do Reino Unido no consorcio europeu fora vetada pelo general-presidente De Gaulle (ele jamais esqueceu as humilhações que Churchill o fizera passar durante o exílio dele em Londres, 1940-44) O prócer francês alegou que as ilhas, pela sua universalidade, não tinham uma economia afinada com os países continentais.

Via a Grã-Bretanha estrategicamente como um porta-aviões americano e um simples coadjuvante dos EUA nos demais assuntos. Magoados, os inglês tiveram que esperar a saída de De Gaule do poder em 1969 para que então fossem acolhidos, o que ocorreu somente em 1973. A situação confirmou-se por meio de um plebiscito proposto em 1975: 67,2% dos eleitores disseram sim, e apenas 32,8% defenderam a saída da CEE.

O “Brexit” (junção entre as palavras Britain - Grã-Bretanha- e exit - saída), resultado do recente plebiscito de 2016 que repeliu (por 52% a 48%) um estreitamento com o continente nada mais foi do que a reaparição da Dama de Ferro como um vingativo espectro, conclamando a velha guarda inglesa, nostálgica da grandeza do império perdido, um coro de ressentidos a manifestar-se contra (a média dos que preferiam a saída era de 65 anos de idade). Serviram como farol para Donald Trump.

(*) A mais clara manifestação da teutofobia da Sra. Thatcher materializou-se no estimulo que ela deu a que oficiais da RAF se cotizassem para erguer uma estátua do comandante Harry ‘butcher’, ou Harry ‘bomber, tido como o carrasco da Alemanha’. Ele, como supremo chefe das operações aéreas da RAF, foi o principal responsável pelos bombardeiros sobre a Alemanha durante a II GM.  Harry convenceu Churchill que os pilotos deviam atacar os bairros operários alemães e não somente as fábricas. Se a classe trabalhadora fosse eliminada ou profundamente atingida o país não teria como continuar fabricando produtos bélicos. Daí receber o apelido de butcher, açougueiro. O que, todavia, o marcou foi seu impiedoso bombardeio sobre a cidade de Dresden, uma jóia do barroco alemão que virou cinzas em fevereiro de 1945, no estertor da guerra. Calculou-se que mais de 30 mil civis foram mortos na razias comandadas por Harry. Seus colegas da RAF criticaram-no por isso e ele, no fim da guerra, por não haver mais clima entre os seus, pediu transferência para a África do Sul. Retornou à Grã-Bretanha aonde veio a falecer em 1982.

Especial para Terra

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