Alemanha: nação de poetas e pensadores

16 jul 2014
19h29
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Coube ao escritor e filósofo F.G. Herder, um dos pais do romantismo alemão, que viveu entre 1744 e 1803, que lançou as bases do movimento cultural Tempestade e Ímpeto (Sturm und Drang), profetizar que estava reservado à Alemanha o papel de ser a pátria de poetas e de pensadores (Dichter und Denker). Imaginou-a um centro pedagógico da humanidade. Se bem que a trajetória histórica dos alemães foi brutalmente alterada pelas duas guerras mundiais e pela violência das paixões ideológicas que a sacudiram  durante o século XX, foi inegável o papel representado na modernidade por seus escritores, filósofos, artistas e demais visionários. A tal ponto alcançou a importância deles que dificilmente podemos imaginar o existir contemporâneo sem a presença de Goethe, Kant, Hegel, Marx, Beethoven, Wagner, Nietzsche ou Einstein.

Da cultura alemã
“Was zum Raube sich die Zeit erkoren, Morgen steht´s in neuer Blüte da; Aus zerstörung wid der Lenz geboren, Aus den Fluten stieg Urania;Wenn ihr Haupt die bleichen Sterne neigen,Strahlt Hyperion im Heldenlauf... Freie Tage steigen Lächeld über euern Gräbern auf." - F. Hölderlin (Hymne an die Freiheit , 1793)

(“Tudo quanto foi presa do tempo florescerá novamente amanhã, mais belo: a primavera nascerá da selvageria tal Urano nascendo das ondas. Quando as pálidas estrelas inclinam sua cabeça, Hipérion resplandece no seu trajeto heróico... Dias de liberdade se alçarão sorridentes sobre as vossas tumbas.”) - F. Hölderlin (Hinos à liberdade, 1793)

Situada entre duas culturas formidáveis e distintas, a dos eslavos no Leste e a dos latinos ao Oeste e ao Sul, a antiga Germânia sempre procurou distinguir-se culturalmente tanto de uma como da outra. Num arroubo de orgulho étnico-filológico, o filósofo Arthur Schopenhauer chegou a dizer - no que foi seguido um século mais tarde por Martin Heidegger - que Deus escolhera somente duas línguas para o filosofar: o grego no passado e o alemão no presente.

A paixão pelo idioma foi uma das características mais salientes da cultura germânica, sendo que para eles a sua língua era inigualável, entre outras razões por ter-se mantido “pura”, algo que não ocorrera, por exemplo, com a língua francesa (originada do latim vulgar) ou a inglesa (um empobrecido dialeto derivado do saxão).

Esse exclusivismo, esta obsessão pela germanidade, segundo alguns historiadores, teria se acentuado ainda mais a partir da Reforma Luterana do século XVI, ocasião em que grande parte do território alemão, especialmente o centro-norte, rompendo com o Papado, apartou-se definitivamente da influência da Roma Católica e, por conseqüência, dos melhores efeitos estéticos e humanísticos do Renascimento.

Reforma e isolamento
Situação essa que levou a Germânia a um isolamento mais acentuado do que conhecera antes, quando durante o apogeu do período feudal os imperadores alemães do Heiliges Römisches Reich deutscher Nation, o  Sacro Império Romano-Germano, dividiam com o papa romano a liderança da Europa Cristã. Aderindo a Lutero, grande parte da Alemanha tornou-se quase que uma ilha protestante, cercada por um continente cristão - ortodoxo ao oriente e pelo catolicismo ao oeste e ao sul. “Estou posicionado entre dois mundos”, exclamou Tonio Kröger, o personagem de Thomas Mann da novela homônima, “não estou em casa em nenhum deles, o que complica um pouco a minha vida”. Talvez ser alemão seja ser precisamente assim, o “homem-do-meio”, o “mediador”, concluiu o romancista.

Ao se dar a conquista européia dos grandes oceanos, a partir dos séculos XV e XVI, a Alemanha, com exceção de um ou outro mercador, dela não participou. Desconhece-se a existência de caravelas ou almirantes da die Hanse, a Liga de Hansa alemã, abrindo caminho por águas desconhecidas. As únicas ondas que eles singravam - apesar dos portos de Hamburgo, Lübeck ou Rostock -  eram as do  Báltico,  mar quase que fechado que compartilhavam com os escandinavos, poloneses e demais povos bálticos, com quem formavam a antiga Hansa. Isso significou que, além de terem que assistir impotentes o deslocamento do eixo econômico do centro da Europa – até então dominado pelas cidades alemãs e pelas cidades italianas - para as margens do Atlântico, por igual viram-se excluídos de possuírem um império colonial como tiveram os reis ibéricos, as companhias holandesas de comércio, ou os soberanos britânicos.

Engendrou-se assim, tanto nos reinos maiores como nas pequenas cidades independentes da Alemanha entre os séculos XV e XVII, um mercantilismo muito próprio: o cameralismo, cuja missão, por assim dizer, observada por um dos seus principais teóricos, o barão Wilhelm von Schröder, era lotar com riquezas as “câmaras” do rei ou do príncipe, desde que se obedecesse ao saudável principio de não esfolar o povo, como bem recomendava um verso anônimo do século XVII que dizia: “Se a grei de um prudente soberano se administrasse assim, com mão sábia/ além de viver-se muito feliz, daria sempre lã ao seu regente/ Mas quem quiser tirar-lhe a pele ficará sem a lã e sem a ovelha”.

Deste modo, cada localidade, condado, ducado ou principado, cada bispado, ao todo mais de 300 corpos políticos possuíam as suas próprias medidas, suas leis e sua cunhagem de moedas, tornado-se um evidente impeditivo ao processo de unificação nacional.

Imprensa e Música
Além dos efeitos da Reforma, a cultura alemã daquela época ficou um tanto distante de dois extraordinários acontecimentos histórico-culturais dos começos dos Tempos Modernos: o Renascimento e os Descobrimentos. Todavia, isso foi de certo modo amplamente compensado pelo invento de Johanes Gutenberg. A prensa com tipos móveis por ele desenvolvida, que culminou na impressão da primeira Bíblia, no ano de 1456, logo fez da Alemanha um privilegiado centro editorial, recebendo manuscritos de todas as partes da Europa, como foi o caso da primeira edição da “Revolução das Órbitas Celestes” de Copérnico, aparecida em 1543, e que promoveu o começo da Revolução Científica que nos conduziu à Modernidade.

Fato que também a ajudou a impulsionar a sua filosofia e a sua ciência, tornando-a, com o tempo, a mais influente e poderosa do mundo ocidental (no que toca às idéias, a modernidade certamente seria incompreensível sem a presença de Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Freud, Heidegger e Einstein, tantos outros mais).

Tendo como farol a Universidade de Heidelberg, fundada em 1386, a Alemanha reforçou ainda mais ser um referencial da excelência acadêmica, com a melhoria da qualidade do ensino e a sucessão da abertura de novas universidades, amparadas em bibliotecas exemplares, distribuídas por quase todas as suas regiões da nação. De certa maneira, isto fez dela, como observou Thomas Mann, ser “a encruzilhada das contradições européias”, algo assim como um “resumo da Europa”(“Considerações de um apolítico”, 1915).

Se a Reforma distanciara-a das melhores faces do Humanismo renascentista, como lamentou Nietzsche, em compensação abriu-se para os alemães o Continente da Música. A determinação de Lutero em estimular uma nova liturgia, rival do cantochão católico, fez com que em cada lar alemão fosse uma obrigação ter-se um piano, ou qualquer outro instrumento musical equivalente. O conhecimento da música tornou-se assim um dever e uma obrigação do crente.

Por conseguinte, foi no recôndito das pequenas salas que acolhiam as reuniões familiares nos dias festivos, dos encontros que celebravam Deus, o local, a célula-mãe, de onde brotaram os gênios da música alemã.

Todavia, isso não poupou a Alemanha de passar por duas desgraças impressionantes: a Guerra dos Camponeses do século XVI - dita "Revolution des gemeinen Mannes”, a Revolução da Plebe -, subproduto da Reforma, e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), ambas, ainda que separadas por um século uma da outra, devastaram a Alemanha em todos os sentidos. Sendo que a última, a Dreissig Jahre Krieg, a Guerra dos Trinta Anos, resultado do confronto entre a União dos Protestantes e a Liga dos Interesses Católicos, provocou uma perda da população civil proporcionalmente superior à da Segunda Guerra Mundial.

O planeta Germânia
A sensação que os demais europeus tinham era de que a Alemanha - subdividida em mais de 300 pequena e médias  unidades políticas, ainda que ocupando geograficamente uma posição central no  continente e abrigando um imperador [do Sacro Império Romano-Germano] -  formava uma espécie de planeta a parte do restante das nações.

Não só isso, o próprio Goethe, em conversa com Eckermann ( registro de 23 de maio de 1827), lamentava a “vida isolada, paupérrima” que os intelectuais alemães  levavam e o tão pouco de cultura que lhes chegava do exterior. Os pensadores, os poetas e demais homens-de-letras, gente de talento, os ditos Siebenhundert Weiser, os Setecentos Sábios da Alemanha, de quem Heine fazia menção, achavam-se espalhados por todas as partes, em Viena, Berlim, Königsberg, Bonn ou Düsseldorf, jamais ou raramente se encontrando para trocarem idéias, mantendo-se distantes entre si por centenas e centenas de quilômetros, cada um deles voltado para o seu próprio afazer.

O resultado dessa fragmentação dos talentosos era um empobrecimento só, bem ao contrário do que ocorria em Paris, metrópole cerebral, na qual em cada esquina, por assim dizer, encontrava-se um Molière, um Voltaire ou um Diderot. A simples presença deles no mesmo espaço urbano, ainda que em épocas diferentes, é que permitia o surgimento de um cientista como o jovem André Ampère que se tornara uma celebridade como matemático e estudiosos dos fenômenos do magnetismo com pouco mais de vinte anos de idade.

Na Alemanha, ao revés, estava-se só, com enormes dificuldades em  abrir-se um caminho por si mesmo. Uma simples conversa com um erudito, com um sábio como Alexander von Humbold, por exemplo, enfatizou Goethe,  fizera com que os estudos dele progredissem “ mais num único dia do que se eu tivesse viajado o ano inteiro”. Mas isso era tão raro como a passagem de um cometa.

Além disso, aquela dispersão dos talentosos, era agravada pela pouca densidade de leitores, quando não da  pouca cultura deles, como se queixava Goethe dos cortesãos com quem era obrigado a conviver em Weimar. Portanto, a nação, sob o ponto de vista da inteligência local, não havia ainda gerado um mercado interno que pudesse absorver produtos culturais o suficiente para emancipar seus escritores e artistas da dependência das cortes ou dos favores da nobreza fundiária. E, para culminar, não existia nada na Alemanha que fosse equiparado a um poder centralizado como existia na França ou mesmo no Reino Unido, um soberano poderoso que pudesse lançar sua proteção e estímulo às artes locais. Frederico II, o Grande, se bem que um monarca culto, um francófilo assumido, desconsiderava a literatura alemã.

É ainda Goethe quem, a titulo de conclusão, disse: “Não sendo integrante de um grêmio que pudesse atuar como um só homem, os poetas alemães não gozavam de nenhuma vantagem na sociedade burguesa. Não tinham nem proteção nem categoria social, nem eram estimados a não ser em algumas circunstâncias alheias aos seus escritos... Um pobre mortal,  consciente dos seus poderes mentais, condenado a abrir caminho na vida da melhor maneira possível, dilapidando seus dons que haviam recebido das musas na luta para satisfazer as necessidades do momento... o poeta, sempre pobre, desempenhava um papel melancólico no mundo, como simples bufão ou parasita...” (Poesia e Verdade, vol II, 10).

Todavia, uma inteligente e sagaz observadora estrangeira, Mme. Staël, a famosa filha do ministro Necker, viu vantagens na Alemanha ser “uma federação aristocrática”, visto que – ao contrário do autoritarismo bonapartista dominante na França daquela época - provocava uma espécie de “anarquia doce e aprazível”, no que tange às opiniões literárias e metafísicas, situação que permitia a que cada homem desenvolver, cada um ao seu modo, um modo individual de ver as coisas.

Preceptores e obedientes
Era impressionante, ainda entre os séculos XVIII e XIX, o número de homens-de-letras alemães, entre eles Fichte,  Hölderlin, Schlegel e Hegel,  que antes de se projetarem, viviam modestamente como preceptores dos filhos dos nobres ou dos burgueses bem sucedidos.

Um tanto como se fossem náufragos sobrevivendo numa ilha perdida, cada um fixado num condado ou num principado, jamais eles constituíram uma frente de intelectuais como os franceses alcançaram fazer por aquela época, quando bastava à censura ou uma autoridade qualquer implicar com um  dos integrantes da “família iluminista”, para que uma onda de solidariedade e apoio logo se formasse em torno do perseguido.

Norbert Elias observou existir uma tensão permanente entre a intelectualidade de classe média e os freqüentadores das cortes. Uma espécie de desprezo mútuo entre as Letras e a Etiqueta os separava. Talvez fosse essa razão dos pensadores alemães – como reação à indiferença com que eram tratados - desenvolverem uma prosa muito peculiar, quase que ininteligível para quem desconhecesse o assunto, colocando a filosofia alemã, por vezes, num patamar muito próximo ao esotérico.

A exposição obscura era um modo deles se distinguirem ainda mais dos áulicos que cercavam os príncipes e os barões. Heine, todavia, acreditava que a dificuldade deles em expor claramente o que pensavam, “de discorrer de forma popular sobre religião e filosofia”, decorria deles temerem as conseqüências disso junto ao povo. (H.Heine “Contribuição à História da Religião e Filosofia na Alemanha”, 1834).

De recearem que suas idéias, por mais moderadas e conservadoras que fossem, de algum modo – se claramente expostas - pudessem provocar algum tipo de agitação social inconveniente aos príncipes  e barões  a quem mal ou bem serviam.

O incidente que certa vez envolveu o filósofo Kant parece  exemplar disso. Após ele ter publicado suas críticas à religião constituída no seu ensaio Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft (“A religião dentro dos limites da razão pura”), em 1793, como súdito obediente, ele concordou  com  a advertência que o rei lhe enviara de próprio punho e despachada como Cabinetsordre König Friedrich Wilhelm's II, datado de 1º de outubro de 1794. Ordenou-lhe o soberano para que ele não mais “abusasse da sua filosofia para tergiversar e desprezar algumas doutrinas fundamentais e mais importantes das Sagradas Escrituras e do cristianismo”, intimando-o a não mais incorrer em tal tipo de falta, pois neste caso ele se veria “werdet zu Schulden kommen lassen, sonder vielmehr, (“ a ditar irremediavelmente certas medidas mais desagradáveis contra vós").

A submissão de Kant à ordem real de certo modo pautou a relação dos intelectuais alemães com as autoridades. Bem poucos deles tinham a ousadia dos franceses em afrontar as instituições. Foi somente durante o alçamento das barricadas de 1848 - época da Revolução dos Poetas - que eles encontraram um clima favorável à aberta insubordinação, ainda que de por pouco tempo, permitindo-lhes desaforarem o poder, como foi o caso de Heinrich Heine, Ferdinand Freiligrath, Richard Wagner, Max Stirner, David Strauss, Moses Hess, Karl Marx e Friedrich Engels.

Exatamente em razão disso muitos deles tiveram que levar a vida no exterior experimentando o pão salgado do exílio, em meio à brumosa camaradagem dos refugiados.

Assim, pois, a língua alemã, depois de mil anos de existência, cultivada primeiro pelos monges, seguidos pelos poetas-cavaleiros como Walter von der Vogelweide, por mestres cantores como Hans Sachs e outros, utilizada polemicamente por reformadores como Lutero e Melanchthon como arma de combate contra Roma, tornou-se, por fim, instrumentos dos sábios. Pensadores como Kant e Hegel fizeram dela expressão de todas as sutilezas, ambigüidades, ou precisões possíveis do pensamento alcançar (de fato, nenhum outra língua ocidental contribuiu mais para o vocabulário filosófico do que o idioma alemão), sem esquecer-se da redação imprimida por Karl Marx no Manisfesto de 1848, considerada por muitos filólogos como uma das mais raras e exemplares peças da retóricas revolucionária escritas num idioma ocidental. Era a pena de um moderno profeta conduzida por um cérebro monumental, totalizante.

Especial para Terra

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