Alunos reclamam de qualidade e atendimento de cursos EAD

7 mar 2013
08h59
atualizado às 09h11
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Atrasos no recebimento de apostilas impressas, na divulgação de notas de provas e até na expedição do diploma de conclusão de curso estão entre as reclamações de alunos de cursos de educação a distância (EAD), que também incluem demora no retorno dos coordenadores e falta de soluções. Em portais destinados a reclamações de consumidores, essas instituições acumulam listas de protestos. O foco dos problemas, segundo a Associação Brasileira dos Estudantes de Educação a Distância (ABE-EAD), está no atendimento, e há casos que precisariam de maior intervenção do Ministério da Educação (MEC).

O setor de EAD registrou um crescimento bastante sensível na última década. Em 2000, o número de matrículas era de 5.287; já em 2011, passou para 992.927. Hoje, 142 instituições (públicas e privadas) estão credenciadas, com 1.044 cursos de graduação. Mas o boom não foi acompanhado, necessariamente, pela qualidade.

O líder de reclamações é o atendimento, que tem mais impacto sobre o aluno, comenta o presidente da ABE-EAD, Ricardo Holz. "O aluno depende da internet ou do 0800. Ele não está na aula para conversar pessoalmente", explica. No Brasil, para iniciar o funcionamento de um curso a distância, a instituição deve ter a uma autorização fornecida após visita de agentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O reconhecimento do curso, condição para emissão de diploma, é feito pelo MEC quando se atinge entre 50% e 75% da carga horária. Só em 15 de fevereiro deste ano, o ministério reconheceu 30 novos cursos de EAD.

Formado em Administração, Douglas Souza Barachati, 37 anos, buscava uma segunda graduação, desta vez na área em que trabalhava: contabilidade. Por falta de tempo, buscou um curso a distância em uma instituição com polo na cidade onde mora, São José dos Campos. Em 2011, começou a estudar Ciências Contábeis na Universidade Paulista (Unip), que oferece EAD por meio da Unip Interativa. Mas enfrentou dificuldades desde o início do curso.

Embora tenha direito tanto ao material online quanto ao impresso, a apostila só costuma chegar ao polo quando a disciplina termina, afirma Barachati. "Teve semestre em que eu tive três matérias e até hoje não tenho nenhuma apostila", protesta. Em comunicado, a instituição informa que está trabalhando para aprimorar procedimentos de produção e distribuição. Mesmo que o conteúdo esteja online, Barachati vê na apostila um apoio importante para as videoaulas, por isso adotou como saída imprimir os arquivos - que podem ter mais de cem páginas.

Outro problema está na divulgação dos gabaritos das provas e das notas. Barachati já fez exame no fim do semestre sem saber se havia sido reprovado ou não e, consequentemente, se precisaria ter realmente feito a prova. Isso porque gabaritos e notas não haviam sido postados na internet pelos professores no prazo correto. No primeiro semestre, ele diz que foi orientado a prestar o exame, para prevenir uma reprovação. Naquela vez, seguiu a dica, mas ao ver o problema se repetir no segundo semestre, reivindicou as notas e uma nova data para realizar a recuperação. "Comecei a ver que era uma coisa frequente", diz. A Unip Interativa alega que, por uma exigência do MEC, a correção das provas deve ser feita na matriz em São Paulo, o que teria provocado atrasos na divulgação das notas, problema que vem sendo resolvido.

Sem diploma e sem direito de lecionar
A paulistana Carollina Tonini Mazzoni, 32 anos, já é formada - mas só na prática. Em junho de 2011, ela terminou o curso de Letras com habilitação em Português e Espanhol pela Universidade do Tocantins (Unitins), e até hoje não recebeu o diploma. Depois de substituir uma professora de espanhol em licença maternidade no Colégio Gabriel Piza, em São Paulo (onde hoje trabalha como secretária escolar), ela teve a oportunidade de assumir a titularidade da disciplina. Só que seu histórico escolar, que serviu de comprovação de conclusão para o período provisório na escola, não foi mais aceito. Sem o diploma, perdeu a vaga. "Paguei a faculdade inteira e não posso dar aula. Não posso exercer a profissão", lamenta.

Na época em que a Unitins oferecia o serviço com a EADCon, notas de Carolina apareciam e sumiam de sua página. A gota d'água foi no último semestre, quando afirma que apareceram em seu histórico disciplinas em que teria sido reprovada por não ter prestado a prova. "Absurdo, porque eu já tinha feito", contesta. Ela diz ainda que foi reprovada até em matérias que não tinha cursado e não pertenciam ao currículo. Em nota, a Pró-reitoria de Graduação da Unitins rebate que a aluna só tinha matrícula regular até o 6º período, reprovada em 16 disciplinas. A instituição acrescenta que o último semestre dos sete não foi cursado. A Unitins informa, ainda, que os cartões-resposta das provas foram enviados à universidade sem guia de remessa e autenticação em cartório, o que invalidou as notas obtidas. A aluna pensa em recorrer à justiça.

Segundo a diretora de atendimento do Procon de São Paulo, Selma do Amaral, o contrato entre a instituição de ensino e o aluno configura uma relação de consumo, e o serviço deve ser prestado de acordo com as normas do MEC. "Se houver algum descumprimento, esse aluno pode se utilizar do Código de Defesa do Consumidor", observa.

Reclamações se estendem à qualidade dos vídeos
Nos sites dedicados a receber reclamações de consumidores, outras instituições inspiram reivindicações. No Reclame Aqui, por exemplo, os cursos EAD oferecidos pela Universidade Estácio de Sá motivam protestos em relação aos vídeos. Em comunicado, a instituição informa que modificou o sistema do ambiente virtual e passou a enviar as videoaulas pré-gravadas em vez de transmiti-las ao vivo, melhorando a qualidade.

Nos casos de prazo para postagem das notas, a Estácio informa que as provas são realizadas em computadores, e a correção ocorre de acordo com o calendário acadêmico estabelecido. Já os problemas de entrega de material, segundo a instituição, podem ter origem em eventuais atrasos na matrícula ou até em greves dos Correios. De qualquer forma, as apostilas são disponibilizadas 48 horas após a matrícula.

Ranking avalia a qualidade do EAD no Brasil
A ABE-EAD divulgou, em outubro de 2012, a última edição do ranking das instituições que oferecem educação a distância. São listadas todas as 66 credenciadas junto ao MEC (as públicas estão reunidas no título de Universidade Aberta do Brasil, a UAB). Ao todo, quase 16 mil alunos responderam a um questionário, aplicado entre maio e setembro de 2012. Segundo Holz, presidente da entidade, a maior parte dos estabelecimentos obteve nota 4 ou 5 em uma escala que vai de 0 a 5 - outras 10 obtiveram índice 3 e apenas uma ficou com nota 2. O desempenho é considerado bom. "A maior parte é de qualidade", afirma.

São essas instituições que levaram a funcionária pública Deyse Ouro, 29 anos, a se matricular no curso de Serviço Social na Anhanguera Uniban. Para realizar o sonho de ter uma graduação, o tempo era um dos grandes obstáculos. "Eu gasto no mínimo uma hora para chegar até a faculdade. Optei por realizar esse trajeto apenas duas vezes por semana e investir o restante do tempo em meus estudos", afirma. Com a ferramenta, Dayse comenta que alguns alunos tiveram dificuldade no acesso no início do curso por conta de um problema com as senhas, mas nada que pudesse atrapalhar os estudos. "Dá para rever as aulas quantas vezes for necessário, os trabalhos são postados online", enumera as vantagens. Além disso, há o fator financeiro, com a mensalidade mais barata do que nas universidades presenciais.

No levantamento anterior, em 2011, uma instituição obteve nota 1 e outras sete ficaram com conceito 2 (entre elas a Unip Interativa, que em 2012 foi conceituada com nota 3). No ranking do ano passado, apenas a Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) manteve o mau desempenho e ficou com índice 2. A Unicid informa que, desde agosto de 2012, tem uma equipe destinada a identificar possíveis fraquezas e promover melhorias no ensino. A instituição alega ainda que o resultado da pesquisa não reflete o atual momento do serviço prestado.

Ainda assim, o presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), Fredric Michael Litto, defende mais rigor na atuação do MEC na fiscalização dos cursos e a necessidade de um trabalho em conjunto das entidades e do ministério para a proposição solucionar os problemas. Ele também relata que, no geral, as instituições de educação a distância que oferecem um serviço de qualidade estão em maior número.


 

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