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Dos bingos ao STF, saiba a ligação de Cachoeira com o mensalão

2 ago 2012
07h58
atualizado às 08h03

Separadas por sete anos, as cronologias de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) coincidirão na próxima quinta-feira, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) começar o julgamento da maior crise do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O escândalo do mensalão do PT, que veio à tona pouco depois de um "Charlie Waterfall" estampar as páginas do New York Times, reaparece em sincronia com um Congresso onde as proezas de Carlinhos Cachoeira ditam a ordem do dia. Os pontos de contato entre mensalão e Cachoeira, entretanto, não se reduzem ao calendário recente.

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Em 2004, o apelido do bicheiro ganhava o noticiário daqui e era vertido para o inglês nos Estados Unidos devido ao vazamento de uma gravação em que Carlos Augusto Ramos era extorquido por Waldomiro Diniz, então subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência e assessor de José Dirceu, que chefiava a Casa Civil. O pedido de propina datava de 2002, quando Diniz presidia a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), e oferecia ajuda em concorrências públicas em troca de fundos para campanhas do PT e do PSB no Rio.

Sem a contrapartida de Diniz, Cachoeira enviou a gravação ao então senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). Dali a fita seguiu para o Ministério Público de Brasília e foi vazada para a imprensa. A divulgação do material culminou na primeira crise política do governo Lula e obrigou Diniz a deixar o cargo. A oposição articulava a CPI dos Bingos enquanto Lula editava uma Medida Provisória interditando as casas de jogos.

Foi também com uma câmera escondida que veio à tona o mensalão. Um diretor dos Correios foi flagrado em 2005 negociando fraudes em licitações com um empresário e alegando estar acobertado pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), que em desabafo público denunciou um esquema de pagamentos periódicos a parlamentares da base aliada por meio de agências de publicidade do empresário Marcos Valério. O sopro de Jefferson reverberou na Casa Civil, onde Dirceu foi substituído por Dilma Rousseff.

No olho do furacão de um escândalo batizado conforme a descrição de Jefferson, o PT defende que não houve mais que caixa 2 de campanha. Membro da CPI do Mensalão e hoje relator da CPI do Cachoeira, o deputado federal Odair Cunha (PT-MG) apresentou, em 2005, um estudo que rechaçava a correspondência entre o dinheiro recebido por aliados e as votações no Congresso, o que esvaziaria a hipótese de mensalão. Cunha também é, no processo agora julgado pelo STF, a principal testemunha de defesa do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.

Enquanto as mesadas teriam precedente no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (suposta compra de votos pela emenda da reeleição) e herdeiro no mensalão do DEM (no Distrito Federal, em 2009), a corrupção derivada do financiamento de campanha acha paralelos notáveis no valerioduto tucano para reeleger o governador de Minas Gerais em 1998 e, justamente, na extorsão de Waldomiro Diniz delatada por Cachoeira em 2002.

Segundo o ex-prefeito de Anápolis (GO) Ernani José de Paula, o vídeo que serviu de estopim para o mensalão do PT foi, assim como no caso de Diniz, planta regada por Cachoeira. Locador da maleta com os dispositivos que registraram a corrupção nos Correios, Jairo Martins de Souza é considerado "araponga" de Cachoeira na operação Monte Carlo, da Polícia Federal. Ernani alega ter sido cassado em Anápolis logo após mandar apreender máquinas caça-níqueis na cidade e demitir um primo de Cachoeira da procuradoria do município.

A gravação que culminaria nas denúncias do mensalão seriam, na versão do ex-prefeito, encomendas do ex-senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), que estaria descontente após ser vetado por Dirceu em uma disputa por cargo no Ministério da Justiça. Demóstenes daria lugar no Senado a ninguém menos que Sandra Melon de Paula, mulher de Ernani, caso fosse escolhido Secretário Nacional de Segurança Pública.

Beneficiário de uma opulenta amizade com Cachoeira, o senador teve destino menos glorioso: foi forçado a deixar o partido antes mesmo de ser expulso, teve o mandato cassado pelos colegas e, agora, tenta se manter procurador-geral de Justiça de Goiás, Estado cujo governador, Marconi Perillo (PSDB), está na mira da CPI.

Perillo e o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), tiveram de se explicar no Congresso. Já o chefe do Executivo fluminense, Sérgio Cabral (PMDB), se viu em fotografias dividindo uma Europa suntuosa com Fernando Cavendish, então mandachuva da construtora Delta, tradicional campeã de processos licitatórios que foi declarada inidônea diante de evidências de elo com Cachoeira.

Suborno de parlamentares e gravações à parte, os episódios tatuados com o selo do mensalão e os tentáculos políticos do bicheiro expõem as feridas do modelo vigente de financiamento de campanhas, cujo fim ainda é gestado entre as promessas da reforma política. Não há como saber se a sentença do STF permitirá um atestado jurídico de que o mensalão para por aí, nos melindres do financiamento de campanhas, ou se as votações do Legislativo foram mesmo compradas, mas o simples avivamento do tema em ano eleitoral preocupa o PT.

O sintoma mais ruidoso dessa preocupação teria sido manifestado em uma reunião entre Lula, o ex-ministro Nelson Jobim e o ministro do STF Gilmar Mendes no dia 26 de abril. De acordo com Mendes, o ex-presidente teria feito pressão para que o mensalão fosse julgado apenas depois das eleições municipais. Sem resposta amiga de Mendes, Lula teria insinuado: "E a viagem a Berlim?"

O ex-presidente da República estaria lembrando que Mendes e Demóstenes se encontraram na capital alemã em data simultânea a visita de Cachoeira à cidade. Trocando em miúdos, Lula teria oferecido proteção a Mendes na CPI do Cachoeira para protelar o julgamento do mensalão.

Tanto Jobim quanto Lula buscaram desmentir as alegações de Mendes, o que não impediu os ministros mais antigos do STF, Celso de Mello e Marco Aurélio, de colar ao episódio adjetivos como "grave", "espantoso", "inaceitável", "inimaginável" e "inqualificável" - uma mostra do quanto podem se acercar duas crises políticas coincidentes no calendário.

Fonte: Terra

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