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“2% iam para o PT”, diz ex-diretor da Petrobras sobre desvio

Paulo Roberto Costa diz que esquema da Petrobras favoreceu PP, PT e PMDB

9 out 2014
15h25
atualizado em 10/10/2014 às 07h33
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Em depoimento à Justiça Federal na quarta-feira, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, contou detalhes sobre o esquema de desvio que beneficiou os partidos PP, PT e PMDB. Em áudios dos depoimentos, divulgados nesta quinta-feira, ele afirma que, em média, 3% do valor de contratos fechados pela Petrobras com empresas eram destinados a partidos políticos.

<p>Paulo Roberto Costa contou detalhes sobre esquema de lavagem de dinheiro na Petrobras</p>
Paulo Roberto Costa contou detalhes sobre esquema de lavagem de dinheiro na Petrobras
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

“Todos sabiam que tinha um porcentual dos contratos da área de abastecimento. Dos 3%, 2% eram para atender ao PT, através da diretoria de Serviços”, disse Costa. “Outras diretorias, como gás e energia e produção, também eram PT”, continuou.

Ele completa relatando que outras diretorias, como Gás e Energia e Exploração e Produção, que também tinham indicações feitas pelo PT, estavam “incluídas no esquema”. O 1% restante, segundo Costa, era destinado à diretoria de Abastecimento, cargo ocupado por ele, e que tinha indicação política do PP. “Em média, dependendo do contrato fechado pela Petrobras, este percentual podia variar. Deste total, 60% ia para o partido, 20% para despesas (nota fiscal para envio, por exemplo). Entre os outros 20%, 70% ficava para mim  e 30% ia para o Youssef ou, até 2008, para o ex-deputado José Janene”.

Costa ainda reforçou que recebia em espécie, normalmente em casa ou no seu escritório. Estes valores sempre eram entregues pelo doleiro Alberto Youssef e, anterioremente, por Janene. O engenheiro mecânico ainda lembrou que a diretoria Internacional da estatal tinha indicação do PMDB.

Origens
No depoimento, Paulo Roberto Costa detalhou o esquema em que se envolveu desde sua entrada na Petrobras. Engenheiro mecânico, ele contou que entrou na estatal em 2 de fevereiro de 1977 e que foi nomeado diretor de Abastecimento em maio de 2004 (cargo em que ficou até abril de 2012, quando se aposentou).

“Possivelmente já acontecia antes de eu ir para lá, porque estas empresas já trabalhavam com a Petrobras há muito tempo. E como mencionei, as indicações de diretorias, sempre foram políticas”. Costa confirmou a existência de um “cartel”´ de grandes empreiteiras que, durante reuniões, decidiam quem iria vencer a disputa de licitação para obras da Petrobras. “As empresas se reuniam e decidiam quem iria vencer determinada licitação para realizar não somente obras da Petrobras, mas outras obras do País todo. Nunca participei destas reuniões, mas sabíamos disso quando era feita a licitação”, ressaltou.

Funcionamento
Segundo ele, os pagamentos de propina eram efetuados diretamente por representantes das empresas para os operadores do esquema (Youssef, por exemplo). “Não passava nada pelo Petrobras. Os diretores/presidentes das empresas tinham conhecimento desses pagamentos. Faziam parte do cartel a OAS, Camargo Correa, Odebrecht, Iesa, Mendes Junior, Queiroz Galvão, Toyo Setal, Galvão Engenharia, UTC Constran, Engevix, Andrade Gutierrez”, afirmou o ex-diretor da Estatal.

Costa disse que, além da manutenção dos contratos com a Petrobras, as empresas concordavam em pagar os 3% em propina porque “tinham interesse também em outros órgãos de governo, em Ministérios, secretarias, compostas por elementos dos partidos. Se deixasse de contribuir com determinado partido naquele momento isso iria refletir em outras obras e os partidos não iriam olhar com bons olhos. Então este seria um interesse mútuo dos partidos políticos e das empresas porque não visava só a Petrobras, mas também hidrovias, ferrovias, rodovias, hidrelétricas”, disse.  

Ele acusou diretamente o tesoureiro do PT, João Vaccari, ao ser questionado sobre quem fazia a entrega ou a distribuição da propina ao partido do governo. E disse, ainda, que o PMDB operava dentro da diretoria internacional.

Segundo o relato de Costa, as empresas do cartel colocavam entre 10% e 20% de sobrepreço em suas propostas de contratos com a Petrobras. “E daí elas tiravam os 3% que eram alocados a agentes políticos”. 

Indicação de Costa foi feita pelo PP
Segundo Costa, sua indicação foi feita pelo PP, em decisão encabeçada pelo deputado José Janene (PP/PR), apontado pela Polícia Federal como parceiro do doleiro Alberto Youssef. O ex-diretor ainda frisou que, no governo de outros presidentes que não eram do PT, como José Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor, as indicações para o cargo também eram feitas com base em interesses políticos.

"Ninguém chega a general se não for indicado. As diretorias da Petrobras, quer seja no governo Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula foram sempre por indicação política”, disse. 

Repasse de dinheiro para PP, PT e PMDB
No depoimento, Costa afirmou que, quando assumiu o cargo de diretor de Abastecimento, o então presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, tinha conhecimento sobre as escolhas políticas feitas para os cargos de diretor - assim como o presidente seguinte, José Sergio Gabrielli.

De acordo com Costa, o deputado Janene conduziu o esquema até 2008, quando adoeceu - ele morreu em 2010. A partir de 2008, Youssef passou a ser o responsável.

Questionado se recebia parte desses valores da lavagem, Costa admitiu: “sim, em valores médios o que acontecia. Do 1% para o PP, em média 60% ia para o partido, 20% para despesas, às vezes de emissão de nota fiscal e para envio, e 20% restantes eram repassados assim, 70% para mim e 30% para o Janene ou Alberto Youssef”.

Em relação ao dinheiro repassado para o PMDB, Costa afirmou que a ligação era com a diretoria Internacional - que tinha seu responsável indicado pelo partido. “Então, tinha indicação do PMDB, então tinha também recursos que eram repassados para o PMDB na diretoria Internacional”, disse. “O PMDB era da diretoria Internacional, o nome que fazia essa articulação toda era Fernando Soares (o Fernando Baiano)”, detalhou.

Indagado sobre quem fazia a distribuição do dinheiro em cada agremiação política, Costa afirmou que, no PT, a ligação direta era com o tesoureiro do partido, João Vaccari. “Dentro do PT (o contato) do diretor de serviços era com o tesoureiro do PT, sr. João Vaccari, a ligação era diretamente com ele”.

Transpetro
Segundo Costa, ele recebeu R$ 500 mil em dinheiro vivo das mãos do presidente da Transpetro, Sergio Machado. “Na Transpetro houve alguns casos de repasses para políticos, sim”, afirmou. “Eu recebi uma parcela da Transpetro, se não me engano R$ 500 mil”, continuou ele.

Indagado sobre quando foi realizada a transação, o ex-diretor respondeu: “datas talvez eu tenha dificuldade de lembrar. São muitas, 2009 ou 2010, acho eu por aí. Recebi em uma única oportunidade”. “Qual o motivo?”, perguntou o juiz. “Foi devido à contratação de alguns navios. Essa contratação tinha que passar pela diretoria de Abastecimento, contratação de navios pela Transpetro. Esse valor foi entregue diretamente por ele no apartamento dele (Machado) no Rio”.

Em nota enviada ao Terra, o presidente da Transpetro, Sergio Machado, negou as afirmações feitas a seu respeito por Paulo Roberto Costa e classificou as acusações de mentirosas e absurdas. Ele ressaltou ainda "o seu estranhamento com o fato de as declarações" estarem "sendo divulgadas" durante o processo eleitoral.

Machado esclareceu também que nunca foi processado ao logos dos seus 30 anos de vida pública e que irá tomar providências judiciais para defender a si e a imagem da empresa que lidera.

Fonte: Terra

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