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Odebrecht, da Prússia à Operação Lava Jato

21 abr 2017
11h17
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Família que controla maior empreiteira do país propagandeava "ética protestante alemã" de ancestrais como atestado de rigor empresarial.Durante décadas o sobrenome Odebrecht foi sinônimo de riqueza e influência no Brasil. Batiza a maior empreiteira nacional, braço de um dos maiores grupos empresariais do país. Nos últimos dois anos, também passou a evocar o maior caso de corrupção político-empresarial da história brasileira. Com a imagem despedaçada, executivos do grupo vêm discutindo mudar o nome para reverter o desgaste. Surgiram sugestões como adotar a sigla "ODB" ou criar marcas independentes para cada subsidiária.

Antes de ser tragada pela Lava Jato, a Odebrecht ostentava orgulhosamente o nome como uma espécie de "Made in Germany". Em livros escritos por membros da família e na história oficial do grupo, a origem alemã do seu fundador, Norberto Odebrecht, sempre foi citada com destaque, como um suposto atestado de veia empreendedora e de rigor em relação ao trabalho.

A saga brasileira dos Odebrecht começou há 160 anos, com a chegada ao Brasil do bisavô de Norberto, Emil Odebrecht, um nativo do vilarejo de Jacobshagen, então na parte pomerana da Prússia (e hoje na Polônia, com o nome de Dobrzany).

A família pode facilmente traçar sua genealogia até o século 17. Em uma igreja ainda em pé em Greifswald, no Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, existe o túmulo de um Andreas Odebrecht. A data: 1686.

Emil nasceu em 1835 em uma família culta e próspera. Seu pai era juiz, e sua mãe vinha de uma linhagem huguenote (os protestantes franceses). Aos 21 anos, deixou a Prússia e seguiu para a colônia de Blumenau, em Santa Catarina. O local ainda era primitivo. Os colonos conviviam com doenças e ataques de índios. "Aqui parece que tudo parou no primeiro dia da Criação", escreveu o fundador Hermann Blumenau.

O jovem prussiano logo se tornaria um dos homens de confiança de Hermann. Em 1859, foi à Europa para estudar engenharia e cartografia na Universidade de Greifswald. Naturalizado brasileiro, regressou e ofereceu seus novos talentos para a expansão da colônia.

Projetou estradas, demarcou lotes e instalou linhas telegráficas. Deixou cartas em que se queixou das autoridades imperiais e manifestou sua desconfiança em relação aos brasileiros. Foi também voluntário da pátria na Guerra do Paraguai. Era amigo do naturalista Fritz Müller, que batizou uma espécie de caranguejo com o nome Aeglea Odebrechti em homenagem ao engenheiro.

Antes de partir para a guerra, se casou com uma imigrante de Hamburgo. Tiveram quinze filhos. Hoje, a descendência de Emil é estimada em mais de 1.300 pessoas. Em 2006, uma celebração em sua memória reuniu mais de 300 descendentes em Blumenau.

O ramo baiano

Vários netos de Emil se tornaram engenheiros, entre eles Emílio Baumgart, que foi responsável pelo projeto estrutural do hotel Copacabana Palace. Outro, Emílio Odebrecht, construiu uma ponte na zona rural de Blumenau. A estrutura foi levada por uma enchente, e os colonos exigiram indenização. Arruinado, deixou a região e se mudou para o Recife. Depois, seguiu para Salvador. Nascia assim o ramo baiano dos Odebrecht.

Em 1923, fundou a empresa Emílio Odebrecht e Cia. Era casado com a catarinense Hertha, que foi educada em uma rígida escola para futuras mães em Greifswald, fundada no início do século 19 por uma certa Johanna Odebrecht - a instituição ainda existe.

Em 1920, nasceu o filho do casal, Norberto, que em 1944 fundaria a Organização Odebrecht. A educação de Norberto ficou a cargo de um pastor luterano chamado Otto Arnold, que comandava a comunidade evangélica de Salvador. Nas aulas em alemão, o pastor repetia conceitos protestantes, como a "saúde moral é a base para a saúde material".

Quando a Organização Odebrecht completou 60 anos, em 2004, os princípios éticos passados por Arnold foram citados em vários textos elogiosos. No Senado, Romero Jucá (PMDB), um dos políticos mais implicados na Lava Jato, disse que Norberto "seguiu a tradição familiar germânica, em que o trabalho duro é o único caminho para a riqueza merecida".

Em um livro, Norberto disse que baseou a política empresarial da sua empresa nessa visão protestante e discorreu sobre a ideia de "Bildung" (formação, em alemão). Esses conceitos foram empacotados em um conjunto de princípios chamado "Tecnologia Empresarial Odebrecht". No texto, Norberto disse que a empresa "preserva o gosto e a consciência alemãs com relação à Filosofia".

A empreiteira

Mas antes da prosperidade veio a Segunda Guerra. A construtora de Emílio sofreu com a alta dos preços de materiais e se afundou em dívidas. Em 1941, Norberto, então com apenas 21 anos, assumiu os negócios do pai, que voltou para Blumenau. Passou os três anos seguintes concluindo as obras deixadas incompletas pelo pai. Em 1944, fundou sua própria empresa: a Construtora Norberto Odebrecht, a primeira empresa da Organização Odebrecht.

Em Salvador, Norberto encarnava o tipo alemão nos trópicos, sempre usando terno de linho branco. Era chamado de "doutor" pelos funcionários. Mas também se desviou da tradição familiar e se casou com uma católica sem laços com o país europeu.

Apesar da propaganda sobre ética protestante, "doutor Norberto" viu sua empresa decolar graças a um ator menos espiritual: o Estado. No final dos anos 1950, tirou vantagem do financiamento estatal que promoveu construções pelo Nordeste após a criação da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Também executou os primeiros projetos para a novata Petrobras, que concentrava suas atividades na Bahia. Ainda limitada ao Nordeste, a empresa ficou de fora de grandes obras nacionais do período, como Brasília.

A nacionalização das atividades só veio com o golpe militar de 1964, que impôs um regime ainda mais ávido por grandes obras. Os militares também proibiram em 1969 a atuação de empreiteiras estrangeiras, o que criou uma reserva de mercado para empresas como a Odebrecht.

Segundo o historiador Pedro Campos, autor de um livro sobre as empreiteiras e o regime, o crescimento da Odebrecht nesse período caminhou com a expansão da Petrobras. "Quando a Petrobras começou a crescer, a Odebrecht foi junto", disse. Em 1969, Norberto recebeu do então presidente da petrolífera (e futuro presidente da República) Ernesto Geisel, outro descendente de alemães, a incumbência de construir a sede administrativa da Petrobras no Rio de Janeiro. Rapidamente a Odebrecht virou uma favorita dos militares e dos políticos alinhados com o regime.

Nos anos seguintes, Norberto conseguiu obras importantes, como o Aeroporto do Galeão e a usina nuclear Angra I. Isso mudou completamente o perfil da empreiteira. Entre 1969 e 1974, a Odebrecht pulou do 19º para o 3º lugar no ranking das construtoras nacionais.

Com o fim do "milagre" brasileiro e a paralisação de grandes obras no final dos anos 1970, a Odebrecht passou a se expandir para países como Peru, Chile, EUA e Angola. No Brasil, começou a comprar empresas de saneamento e polos químicos privatizados nos anos 1990 durante os governos Collor e FHC.

A liderança do grupo foi passando para os descendentes de Norberto, seguindo um rígido sistema de sucessão familiar. Cada membro recebia uma parte do negócio, mas apenas um de cada geração ficaria com o comando. Em 1991, Norberto passou a tocha para seu filho, Emílio Alves Odebrecht. Em 2008, foi a vez do neto, Marcelo.

Com o tempo, o ramo baiano foi se afastando dos menos bem-sucedidos parentes catarinenses, criando seus próprios costumes. Se reuniam regularmente em uma ilha particular no sul da Bahia. Lá, as gerações mais jovens assistiam a aulas de alemão, enquanto os mais velhos discutiam negócios.

A Era Lula

Após a saída dos militares do poder, a Odebrecht reformulou a sua rede de influência. Segundo Campos, a relação direta com os militares e ministros deu lugar a uma aproximação com congressistas e partidos.

Durante a devassa na companhia na Lava Jato, investigadores descobriram o setor de "operações estruturadas", na prática um departamento de propinas para políticos e funcionários de estatais, que funcionava pelo menos desde o governo Sarney (1985-1990) e que se expandiu nas administrações seguintes, quando a Odebrecht começou a abocanhar estatais privatizadas.

Leia também: Delações da Odebrecht envolvem todos os ex-presidentes vivos

Norberto e Emílio também nunca adotaram o alarmismo de alguns empresários dos anos 1990 em relação ao esquerdista Lula. Emílio disse em um de seus depoimentos da Lava Jato que conheceu o petista em 1985. Citou ainda uma frase do general Golbery: "Lula não tem nada de esquerda. Ele é um bon vivant". Também apoiou a campanha do petista em 2002, organizando reuniões entre Lula e empresários.

A prosperidade da Odebrecht durante o regime militar quase foi obscurecida pela experimentada na Era Lula (2003-2010), quando o Estado retomou a prática de financiar grandes obras. Sob os petistas, o grupo viu o faturamento pular de 17,3 bilhões de reais em 2003 para 107,7 bilhões em 2014. Parte da expansão se deu graças a generosos empréstimos do BNDES e grandes obras para a Copa e as Olimpíadas. Ao mesmo tempo, segundo revelações da Lava Jato, a organização irrigava campanhas políticas do PT e de outros partidos, inclusive da oposição.

O sistema começou a ruir a partir de 2014, quando a Odebrecht caiu na mira da Lava Jato. Em 2015, Marcelo, então o nono homem mais rico do Brasil, foi preso. Acabou sendo condenado a 19 anos de prisão. À época, a Odebrecht empregava 175 mil funcionários em 25 países.

Norberto não chegou a ver o que aconteceu. Morreu aos 93 anos em julho de 2014, quando a Lava Jato ainda não havia alcançado o grupo. Obituários destacaram sua "veia empreendedora" e "disciplina germânica". Sua fortuna pessoal foi estimada em 10 bilhões de reais.

Na semana passada, os baianos da Odebrecht voltaram a cruzar com Blumenau. O atual prefeito da cidade apareceu na lista de Fachin como suspeito de ter recebido ilegalmente 500 mil reais da Odebrecht Ambiental durante a campanha de 2012. Segundo a delação de um executivo, os três principais candidatos naquele ano receberam o mesmo valor. Seria uma forma de garantir apoio à empresa, que detinha contratos milionários para operar o sistema de esgoto blumenauense.

Um jornal da cidade que foi construída com a ajuda do tataravô de Marcelo classificou o escândalo como "o maior caso de corrupção" da história de Blumenau.

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