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O contra-ataque de Dilma pós-impeachment

17 mar 2017
13h07
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Ex-presidente acusa Temer e seus aliados mais próximos de "assaltarem o país". Desde novembro, ela tem dado entrevistas seletivas, e tom das críticas ao atual governo sobe gradualmente.Seis meses depois de ter sido afastada do cargo por impeachment, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) segue reiterando que foi vítima de um golpe parlamentar e está cada vez mais direta em seus ataques e críticas ao então vice e agora presidente, Michel Temer (PMDB).

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada nesta sexta-feira (17/03), Dilma acusa Temer e seus aliados diretos, do PMDB, de corrupção. O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB) é definido por ela como "um gângster inteligente", com o qual Temer tem forte cumplicidade. O presidente da República é, segundo a visão da petista, um homem "extremamente frágil, fraco e completamente medroso".

"Eduardo Cunha e eles assaltam o país. Assaltam. Do verbo assaltar. Além de outras coisas, né? Ele (Temer) tem uma postura, em relação a direitos, coletivos e individuais, extremamente sectária." Na entrevista ao jornal, a presidente ainda afirma categoricamente que Moreira Franco, atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência e que, na gestão da petista, coordenava a Secretaria de Aviação Civil, foi afastado do cargo a pedido dela para evitar desvio de recursos.

"O gato angorá [Moreira Franco] tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: 'Ele não fica. Não fica!'" Gato angorá é o codinome de Moreira Franco dado por ex-executivos da Odebrecht nas delações premiadas da Operação Lava Jato, em referência a seus cabelos grisalhos.

Cumplicidade com Cunha

A petista alega que nem ela, nem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e nem o PT sabiam que "o nível de cumplicidade" de Temer com Cunha "era tão grande". Dilma não cita diretamente a Operação Lava Jato, mas assegura que as investigações têm deixado mais transparentes as relações entre Cunha e Temer. Menciona como prova disso as 19 perguntas que Cunha destinou a Temer em inquérito sobre desvios na Caixa Econômica Federal que tramita na Justiça Federal de Brasília.

O ex-deputado arrolou Temer como testemunha. "Lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer. Leia, minha filha. Não tenho acesso às delações, mas sei o que é um roteiro. E lá está explícito o roteiro da delação de Eduardo Cunha. Explícito. Alguém não sabe que o Cunha está dizendo que não foi o Yunes, mas o Temer?", disse Dilma ao Valor.

Após desqualificar Temer e o séquito de peemedebistas que hoje controlam o governo, Dilma tentou explicar a aliança do PT com figuras que ela hoje desqualifica. "Saber quem eles são, nós sabemos. Não tenho a menor dúvida de quem é Padilha e Geddel [Vieira Lima, ex-ministro da Secretaria de Governo]. Convivi sabendo quem eram. Sabia direitinho. Inclusive uma parte do que sou e da minha intolerância é porque eu sabia demais quem eles eram." Porém, como justificativa, a ex-presidente disse que "saber demais não significa que você é capaz de impedir algumas coisas".

Cruzada internacional

No final do ano passado, Dilma começou a conceder entrevistas a veículos de comunicação, seletivamente. Costuma dar preferência à mídia internacional. Na primeira vez que falou após o impeachment, em novembro do ano passado, evitou tecer comentários sobre Temer e Cunha, numa conversa publicada na Folha de S.Paulo.

No mês seguinte, em entrevista à emissora Al Jazeera, do Catar, verbalizou que foi tirada do poder por um "golpe parlamentar institucional" que tinha dois objetivos: "Impedir que as investigações sobre corrupção chegassem até esses que hoje ocupam o poder e implantar no Brasil o resto de liberalização econômica, privatização e flexibilização do mercado de trabalho. E retirar completamente os pobres do orçamento".

Sempre que questionada sobre delitos de corrupção em seu governo e sob o comando de figuras do PT, a ex-presidente enfatiza que não foi afastada por ilícitos e que não foi conivente com desvios. À Al Jazeera disse que não anteciparia julgamentos dos colegas petistas presos na Lava Jato.

A ex-presidente passou, então, a participar de encontros internacionais em que reitera a afirmação de ter sido retirada do poder por golpe orquestrado por parlamentares, aliados com segmentos do Judiciário.

No final de janeiro, na Espanha, quando foi convidada a participar de um seminário internacional, voltou a bradar que o governo Temer é ilegítimo e defendeu que o PT passasse por uma autocrítica. "Os partidos não podem acabar quando se detecta que uma ou outra pessoa se envolveu com corrupção", declarou numa entrevista coletiva.

Foi em fevereiro, em entrevista à Agência France-Presse (AFP), em Brasília, que Dilma admitiu pela primeira vez que podedisputar uma vaga ao Senado ou até mesmo na Câmara em 2018. Agora, ao Valor, admitiu que não se trata de um plano já traçado e tampouco de uma prioridade. "Falei aquilo para depois, se mudar de ideia, não ser cobrada."

No início de março, na Suíça, onde participou de eventos internacionais, a ex-presidente admitiu que errou, mas na seara econômica. "Cometi, sim, um erro. Fiz uma grande desoneração tributária, reduzi brutalmente impostos. Acreditei, de certa forma, numa avaliação de que os empresários investiriam mais." A tese foi reiterada na entrevista ao Valor.

Dilma viajará para os Estados Unidos no mês que vem. Foi convidada para palestras nas universidades de Harvard, Columbia, Princeton e Brown.

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