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Pé na praia: o taxista cordial

Uma corrida de táxi no Rio pode ser emocionalmente difícil. Alemães acreditam em eficiência, comportamento correto e pensam ter razão

8 mar 2017
07h40
atualizado às 12h24
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Há alguns anos, quando me mudei para o Brasil, outros alemães me disseram: esteja preparado para tudo! Você está de mudança para um país dos trópicos! Fique atento à passionalidade latina, lá as pessoas festejam e brigam pelo menor motivo - futebol, trânsito, mulheres!

Pode ser que este conselho seja pertinente em comparação com a frieza do Norte, dos alemães. Mas, como sempre acontece com os clichês: comecei a andar por Copacabana, preparado para todos os tipos de acontecimentos calorosos, mas nada disso aconteceu. Em vez disso, peguei o táxi de Alfonso Cesar.

Thomas Fischermann é correspondente alemão e vive no Rio de Janeiro
Thomas Fischermann é correspondente alemão e vive no Rio de Janeiro
Foto: Deutsche Welle

Alfonso Cesar queria cortar caminho e, por isso, pegamos uma rua de mão única. Não poderia saber que o caminhão de lixo estava lá, e tivemos que ficar esperando atrás dele. Na rua havia espaço suficiente para dois veículos. O motorista da Comlurb poderia ter dirigido mais junto da calçada para deixar os outros carros passarem, mas não o fez - devia estar desatento, acho que não foi por maldade.

"Droga", murmurou o motorista ao completarmos 7 minutos e 23 segundos de espera, mas bem baixinho. Pôs o ar condicionado para circular e não deixar entrar o fedor das latas de lixo alaranjadas, que os lixeiros carregavam para lá e para cá na maior calma. Aos 11 minutos e 30 segundos, Alfonso Cesar abaixou o vidro do carro e reclamou. Os lixeiros, tranquilos e amigáveis, disseram "estamos trabalhando".

Talvez nós alemães tenhamos um temperamento muito mais tropical do que imaginamos. Creio que pelo menos 70 por cento de meus conhecidos germânicos teriam feito um escândalo. Teriam saído do carro, gritado com os lixeiros. Dependendo da personalidade de cada um, teriam chamado a polícia ou seus advogados, ou teriam dado socos e pontapés nas lixeiras.

Nós alemães acreditamos acima de tudo em eficiência, comportamentos corretos no trânsito e no uso adequado da pista nas ruas. Também acreditamos estar cobertos de razão nestas ocasiões. De qualquer forma, foi para mim emocionalmente muito difícil entender porque Alfonso Cesar simplesmente suportou a espera. Não ganhou muito no tempo em que ficamos parados, o taxímetro quase não se movia.

Finalmente o caminhão da Comlurb recomeçou a se mover, os porteiros dos prédios na rua recolheram novamente suas lixeiras, e só o Alfonso Cesar continuou manobrando seu carro para cá e para lá por mais dois longos minutos. Ajudou aos outros carros que tinham ficado presos quando tentavam ultrapassar pela calçada. Por fim, conseguiu passagem e levou-me a meu destino. "Trabalho aqui também", murmurou.

Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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