Moradora da zona leste de São Paulo coloca faixa de protesto no carro após proibição
Foto: Haline Rogério/vc repórter
A proibição de circulação de ônibus fretados na região central de São Paulo está mudando não só os itinerários mas também os horários e até os planos de moradias dos usuários. Para a ortoptista Raquel Aleixo, a opção de trocar a capital por Campinas foi influenciada pelo trânsito. "Como levava quase uma hora para percorrer 17 km, preferi ganhar em qualidade de vida e me deslocar 100 km em 50 min", diz ela.
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Com diferentes locais de trabalho, ela utilizava a mesma linha de ônibus fretado para desembarcar perto de cada um deles. Desde a semana passada, quando a empresa começou os testes de adaptação, ela sofreu atrasos. "Caminhei 1,2 km para chegar ao trabalho nesta terça-feira e vi que preciso pegar o metrô, mesmo que por uma estação, por causa da segurança", conta.
Tentando se adaptar às novas regras da prefeitura, o ônibus que Raquel utiliza está intercalando a ordem de paradas nas estações de metrô. "Ontem ele parou primeiro na Vila Madalena e não pôde estacionar na estação Sumaré, pois estava muito lotada. O ônibus então seguiu viagem até a Barra Funda".
Douglas Santana, que mora em Mogi das Cruzes, reclama do bolsão criado próximo à estação Cidade Jardim, da CPTM, que ele diz apresentar condições "sub-humanas". O local possui pontos em que a grama já foi desgastada e sujar os sapatos com lama é quase inevitável.
Enquanto a profissional repensa sua escolha de moradia, a analista de importação Haline Rogério já escolheu outro tipo de transporte. Optou pelo carro para ir de São Miguel Paulista, distrito da zona leste da cidade, até o bairro Itaim Bibi, na zona sul. "Utilizava o transporte há nove anos e é um excelente meio. Percorria 80-100 km por dia sabendo que chegaria sem me estressar no trânsito", defende. Indignada, Haline colou um cartaz na traseira de seu veículo com a frase "Eu pegava fretado.".
A insatisfação com a medida do governo levou Cristiano Ferreira à manifestação organizada por clientes do serviço na segunda-feira, concentrada na Marginal Pinheiros. Segundo ele, houve uso de gás pimenta por parte da Polícia Militar para controlar os manifestantes na avenida Bandeirantes. A corporação afirma que o protesto foi registrado como pacífico, mas não soube confirmar se houve uso do gás no dia.
Nesta semana de adaptação, a demora para chegar em casa também incomoda passageiros. "Nosso horário de chegada em Campinas é às 20h todos os dias. Nesta terça, foi um caos: chegamos às 21h", diz um usuário que trabalha na coordenação das linhas particulares.
O analista financeiro Nei Sessa, que mora em São Vicente e trabalha há 33 anos em São Paulo, já perdeu as contas de há quanto tempo utiliza o transporte fretado. Segundo ele, sua rotina não sofreu um impacto tão grande, já que local de embarque, junto à estação Conceição do metrô, é próximo ao seu trabalho. "Mas muda o todo", afirma.
Como protesto, ele listou uma série de problemas que julga mais emergenciais em formato de carta ao secretário de transportes da cidade. "Tem tanta coisa errada no trânsito de São Paulo!", diz. Organizar as paradas para embarque e desembarque em frente a escolas é uma delas. "Há várias pessoas que fazem fila dupla para pegar os filhos em escolas em vez de parar em locais apropriados", escreve. "Arrumar as ruas esburacadas" e "ordenar semáforos" também estão na lista.
A mudança chegou a despertar o lado criativo de alguns dos afetados. Inspirado na música Admirável Gado Novo, do compositor Zé Ramalho, Marcelo Barreto fez a letra: "Vocês que fazem parte dessa desgraça/ Que não tem opção, e nem futuro/ É duro tanto ter que caminhar/ Porque o desembarque, está tão longe?/ E ter que demonstrar sua coragem/ De encarar o que aparecer/ E ver que toda essa palhaçada/ Não tem data para perecer/ Eh, oô, vida de fretado/ Povo lascado/ ê Povo infeliz".
Os internautas Haline Rogério e Marcelo Barreto, de São Paulo (SP), e Alex, de Campinas (SP), participaram do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra. Se você também quiser mandar fotos, textos ou vídeos, clique aqui.


