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Transição
Quarta, 1 de janeiro de 2003, 20h37 
Veja a íntegra do discurso de Lula no parlatório
 
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Após a cerimônia de transferência da faixa presidencial de Fernando Henrique Cardoso para o novo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso para aproximadamente 200 mil pessoas. Veja agora a íntegra do pronunciamento de Lula no parlatório do Palácio do Planalto:

Meus companheiros e minhas companheiras, Excelentíssimos Senhores Chefes de Estado presentes nesta solenidade, trabalhadores e trabalhadoras do meu Brasil, meu querido companheiro José Alencar, meu Vice-Presidente da República, minha companheira querida, Dona Marisa, esposa do José Alencar, minha querida esposa Marisa que, juntos, já partilhamos muitas derrotas e, por isso, hoje, estamos realizando um sonho que não é meu, mas um sonho do povo deste País, que queria mudança.

Eu tenho plena consciência das responsabilidades que estou, junto com os meus companheiros, assumindo neste momento histórico da nossa vida republicana. Mas, ao mesmo tempo, tenho a certeza e a convicção de que nenhum momento difícil, nessa trajetória de quatro anos, irá impedir que eu faca as reformas que o povo brasileiro precisa que sejam feitas.

Em nenhum momento vacilarei em cumprir cada palavra que José Alencar e eu assumimos durante a campanha. Durante a campanha não fizemos nenhuma promessa absurda. O que nós dizíamos - e eu vou repetir agora - e que nos iremos recuperar a dignidade do povo brasileiro, recuperar a sua auto-estima e gastar cada centavo que tivermos que gastar, na perspectiva de melhorar as condições de vida de mulheres, homens e crianças que necessitam do Estado brasileiro.

Nós temos uma historia construída junto com vocês. A nossa vitória não foi o resultado apenas de uma campanha que começou em junho deste ano e terminou dia 27 de outubro, antes de mim, companheiros e companheiras lutaram. Antes do PT, companheiros e companheiras morreram neste pais, lutando por conquistar a democracia e a liberdade.

Eu apenas tive a graça de Deus de, num momento histórico, ser o porta-voz dos anseios de milhões e milhões de brasileiros e brasileiras. Eu estou convencido de que hoje não existe, no Brasil, nenhum brasileiro ou brasileira mais conhecedor da realidade e das dificuldades que vamos enfrentar. Mas, ao mesmo tempo, estou convencido e quero afirmar a vocês: não existe, na face da Terra, nenhum homem mais otimista do que eu estou, hoje, e posso afirmar que vamos ajudar este pais.

Eu não sou o resultado de uma eleição. Eu sou o resultado de uma historia. Eu estou concretizando o sonho de gerações e gerações que, antes de mim, tentaram e não conseguiram. O meu papel, neste instante, com muita humildade, mas também com muita serenidade, e de dizer a vocês que eu vou fazer o que acredito que o Brasil precisa que seja feito nesses quatro anos. Cuidar da educação, cuidar da saúde, fazer a reforma agrária, cuidar da previdência social e acabar com a fome neste pais são compromissos menos programáticos e mais compromissos morais e éticos, que eu quero assumir, aqui, nesta tribuna, na frente do povo, que e o único responsável pela minha vitória e pelo fato de eu estar aqui, hoje, tomando posse.

Como eu tenho uma agenda a ser cumprida, eu queria dizer a todos vocês: amanha vai ser o meu primeiro dia de governo e eu prometo a cada homem, a cada mulher, a cada criança e a cada jovem brasileiro que o meu governo, o Presidente, o Vice e os Ministros trabalharão, se necessário, 24 horas por dia para que a gente cumpra aquilo que prometeu a vocês que iria cumprir. Eu quero terminar agradecendo a esta companheira.

Eu quero fazer uma homenagem porque hoje nos estamos aqui, Marisa muito bonita, toda elegante, ao lado do marido dela, com essa faixa com que nos sonhamos tanto tempo. Entretanto, para chegar aqui, nos perdemos quatro eleições: uma para Governador e três para Presidente da Republica. E vocês sabem que a cultura política do Brasil e só homenagem aos vencedores.

Quando a gente perde, ninguém da um telefonema para a gente, para dizer: companheiro, a luta continua. As vezes, ela e eu decidíamos que a luta ia continuar, porque não havia outra coisa a fazer a não ser continuar a luta para chegar aonde nos chegamos. Eu quero dizer a todos vocês que vieram de Roraima, do Acre, do Amapá, do Amazonas, que vieram de Rondônia, do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, que vieram do Maranhão, do Piauí, do Ceará, que vieram do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Alagoas, de Pernambuco, de Sergipe, companheiros de Brasília, mas também companheiros da Bahia, de Minas Gerais, do Espírito Santo, Rio de Janeiro, são Paulo, Paraná e Santa Catarina; quero dizer inclusive ao povo do Rio Grande do Sul, aos meus irmãos de Caetés, minha grande cidade natal, que se chamava Garanhuns, aos companheiros de Goiás: podem ter a certeza mais absoluta que um ser humano pode ter, quando eu não puder fazer uma coisa, eu não terei nenhuma duvida de ser honesto com o povo e dizer que não sei fazer, que não posso fazer e que não ha condições.

Mas eu quero que vocês carreguem também a certeza de que eu, em nenhum momento da minha vida, faltarei com a verdade com vocês que confiaram na minha pessoa para dirigir este pais por quatro anos. Tratarei vocês com o mesmo respeito com que trato os meus filhos e os meus netos, que são as pessoas de quem a gente mais gosta. E quero propor isso a vocês: amanha, estaremos começando a primeira campanha contra a fome neste pais.

E o primeiro dia de combate a fome. E tenho fé em Deus que a gente vai garantir que todo brasileiro e brasileira possa, todo santo dia, tomar café, almoçar e jantar, porque isso não esta escrito no meu programa. Isso esta escrito na Constituição brasileira, esta escrito na Bíblia e esta escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos. E isso nos vamos fazer juntos. Por isso, meus companheiros e companheiras, um abraço especial aos companheiros e companheiras portadores de deficiência física que estão sentados na frente deste parlatório. Meus agradecimentos a imprensa, que tanto perturbou a minha tranqüilidade nessa campanha e nesses dois meses, mas sem a qual a gente não iria consolidar a democracia no pais. Meu abraço aos Deputados, aos Senadores. Meu abraço aos convidados estrangeiros. Digo a vocês que, com muita humildade, eu não vacilarei em pedir a cada um de vocês: me ajude a governar, porque a responsabilidade não e apenas minha, e nossa, do povo brasileiro, que me colocou aqui.

Muito obrigado, meus companheiros, e ate amanhã.
 

Redação Terra