Gary Rivlin
No começo, Tommy Gallagher se mantinha ocupado atendendo a telefonemas num sistema de assistência a potenciais suicidas. Lecionava finanças pessoais e assuntos contemporâneos em um centro local para idosos. Fez alguns cursos de atualização universitária. "Um dia você está por cima", ele afirma, "e no dia seguinte é só o terceiro sujeito na fila daquela deli coreana".
Em 11 de setembro de 2001, Gallagher ainda era um príncipe de Wall Street, como vice-presidente do conselho do CIBC World Markets, um grande banco de investimento. Um mês depois que a sede (e os negócios) da instituição sofreram danos sérios nos ataques ao World Trade Center, ele foi demitido. Apesar de um patrimônio multimilionário, aos 56 anos ele se viu desempregado pela primeira vez desde a adolescência.
"Quando você perde o emprego, perde tudo", diz. "Toda sua rede social desaparece".
A salvação surgiu de uma fonte improvável: um grupo de apoio a milionários conhecido como Tiger 21. Provar que ele tinha pelo menos US$ 10 milhões no banco, o patrimônio mínimo necessário para aderir, oi fácil. Gallagher tinha ainda mais dinheiro do que isso. Filho de um operador de pedágio de Brooklyn, ele também se provou popular junto aos demais membros por ser, como a maioria deles, um homem que construiu sem ajuda a sua fortuna.
Por isso, no segundo trimestre de 2002, Gallagher assinou seu primeiro cheque de US$ 20 mil para cobrir o custo anual da adesão a um grupo que hoje opera 14 círculos de assistência aos muito, muito ricos. "Eu estava precisando muito de um lugar em que pudesse compartilhar minha angústia e meus medos com outras pessoas", diz Gallagher.
Não era isso que Jake Jacobson estava procurando ao aderir ao Tiger 21, em 2004. Como Gallagher, Jacobson, antigo sócio da consultoria Bain & Company, não teve problemas para se provar rico o bastante. E a anuidade que havia subido para US$ 25 mil tampouco era obstáculo. Na verdade, era como se representasse uma despesa de negócios.
"Estava disposto a aderir na esperança de, no mínimo, encontrar pessoas que poderiam vir a me ser úteis", ele conta. "Eu também tinha a esperança de ser informado sobre oportunidades úteis de lucro às quais não teria acesso do lado de fora".
E ele não se decepcionaria. Mas, com o tempo, Jacobson, que estava se sentindo isolado trabalhando de sua casa em Cambridge, Massachusetts, veio a apreciar algumas das demais vantagens que participar dos 11 seminários anuais de oito horas, mediados por um profissional e promovidos pelo Tiger 21, poderiam lhe propiciar.
"Quando a pessoa tem sucesso", diz, "a maioria da humanidade pensa que ela não tem problemas. Isso pode até ser verdade em termos amplos, mas não ajuda muito. Porque eu ainda preciso levar minha vida, e tenho meus problemas".
Seus colegas do Tiger 21 certamente o apoiaram em uma das sessões mensais regulares, no começo do ano, quando Jacobson estava se criticando por algumas decisões equivocadas de investimento. Cerca de uma dúzia de homens estavam sentados a uma mesa em uma bela casa próxima à Quinta Avenida, no Upper East Side de Nova York. Um a um, eles disseram ao companheiro o quanto este parecia feliz e bem ajustado, e o quanto ele estava se saindo bem em termos financeiros, ainda que tivesse perdido algumas centenas de milhares de dólares investindo em bolsa nos 12 meses anteriores.
E então, quando o último dos membros do círculo terminou de dizer o que tinha a dizer, um deles acrescentou: "Nós te amamos, cara".
Isso fez com que Jacobson, um sujeito robusto e rosto redondo, enrubescesse. "Eu também amo você, fofo".
O Tiger 21 foi fundado em 1999 por Michael Sonnenfeldt, um incorporador imobiliário de Nova York. Aos 43 anos, ele havia recentemente vendido sua empresa imobiliária por dezenas de milhões de dólares.
O que ele devia fazer com aquele dinheiro todo, especialmente em um mercado de ações superaquecido? Ele não sentia dispor do conhecimento e da capacitação necessários "para tomar esse imenso capital e transformá-lo em um portfólio diversificado", conta. Sonnenfeldt conhecia meia dúzia de homens que, como ele, tinham amealhado fortunas com seu trabalho. Quando todos eles expressaram interesse em se reunir regularmente, nasceu o Tiger 21.
As metas iniciais de Sonnenfeldt para o grupo foram capturadas no nome selecionado, que representa um acrônimo, em inglês, para Grupo de Investimento para Objetivos Ampliados no Século 21, e também pelo espírito que move a organização, e não mudou desde que foi criada. "Temos muita gente que obteve imenso sucesso no mundo dos negócios", ele diz, "mas que é basicamente medíocre na gestão de investimentos".
Grandes bancos de investimento como o Goldman Sachs e o Merrill Lynch têm divisões inteiras dedicadas a gerir o patrimônio dos ricos. Mas, ao se unirem, os 145 membros do Tiger 21, cujo patrimônio agregado atinge os US$ 10 bilhões, de acordo com os materiais promocionais da organização, garantiram acesso direto aos grandes administradores de fundos de hedge e aos colegas destes no mundo do capital privado.
Pouco tempo depois que o Tiger 21 foi criado, Sonnenfeldt compreendeu que o grupo precisava ir além de ajudar seus integrantes a administrar com sensatez sua riqueza. Filhos preguiçosos, divórcios litigiosos, parentes ambiciosos -Sonnenfeldt, um homem que se descreve como espiritual e pratica meditação há muitos anos, compreendeu que era preciso ampliar o escopo do grupo. Ele deu participação no Tiger 21 a Richard Lavin, um empresário que havia passado boa parte da década precedente administrando grupos de apoio para presidentes de empresas. Coube a Lavin criar um formato que permitisse aos membros tratar dessas questões mais pessoais.
A demanda por essa espécie de serviço foi tão grande que existem agora nove círculos, cada qual com 12 membros, sediados em Nova York, Palm Beach, Los Angeles, Miami, San Diego e na região da baía de San Francisco. Há novos grupos sendo organizados em Nova York, San Francisco, Palm Beach e Dallas.
As reuniões do Tiger 21 começam com aquilo que os membros da organização definem como "atualização mundial". Ainda que o rótulo sugira uma discussão séria de assuntos internacionais, a conversa, pelo menos no dia em que participei, se concentrava basicamente nas viagens de cada um dos membros desde a reunião anterior.
Os investimentos feitos ou em consideração foram outro tópico importante naquela manhã, da mesma forma que casas, casas de férias, e ainda mais casas. Um dos participantes, que não quis revelar sua identidade, contou novidades decepcionantes ao grupo. Sua casa nova demoraria pelo menos mais oito meses para ficar pronta. O grupo, composto apenas por homens -como 10 dos 14 círculos do Tiger 21-, todos com aparência próspera, expressou sua simpatia pelas dificuldades do colega desapontado, que agradeceu, com expressão triste, pelo apoio recebido.
A hora do almoço estava chegando quando entrou um homem desajeitado, vestido em um terno nada elegante. Era o primeiro dos palestrantes convidados a apresentar oportunidades de investimento ao grupo naquele dia. (A oferta da manhã estava aberta aos interessados em investir um mínimo de US$ 500 mil, enquanto a da tarde exigia investimento mínimo de US$ 2 milhões.) O palestrante não precisou se esforçar muito para vender seu fundo. Ao longo da década precedente, o retorno médio anual obtido foi de 21,4%, com investimentos no setor de oleodutos e gasodutos.
Gallagher foi um dos participantes que expressou apreciação pela apresentação sobre o fundo. Isso causou gemidos em torno da mesa. "Oh, não. O beijo da morte", resmungou alguém, causando risadas estrondosas entre os presentes.
No começo da reunião, Gallagher havia contado que dois dos investimentos que fez em 2006 deram prejuízo. Por isso, os colegas brincaram com ele sobre sua sorte horrenda -e Gallagher, na verdade, parecia encorajar as piadas, a despeito dos impressionantes retornos que conquistou desde que foi demitido, em 2001.
"Às vezes um grupo precisa de alguém como alvo", disse Gallagher mais tarde. "Por algum motivo, naquele dia fui eu".
Nos últimos anos, ele vem ajudando Sonnenfeldt a dirigir o Tiger 21. Por isso, Gallagher, participa de quatro a seis reuniões de grupo ao mês, estuda os antecedentes de novos candidatos e serve como uma espécie de exemplo para cada um dos círculos de apoio que começam a ser formados.
Um componente crítico de cada reunião do Tiger 21 é a Defesa de Portfólios, que consiste na distribuição de cópias das posições de investimento dos participantes a todos os presentes, e em uma troca de idéias que dura uma hora sobre o que eles estão fazendo de certo e de errado. "Uma experiência transformadora que cria elos incomparáveis entre os membros", é como Sonnenfeldt descreve essa parte do processo no site do Tiger 21.
Quando chegou a vez de Jacobson apresentar seus resultados, ele desejava ter notícias melhores a transmitir. O ano de 2005 foi "excepcionalmente bom e afortunado", ele disse. O patrimônio dele cresceu em 60%. Mas em 2006 ele teve de enfrentar uma queda de 2%.
"Os investimentos bons que fiz não conseguiram cobrir as mancadas", ele resumiu.
Os detalhes das posições de Jacobson foram expostos em detalhes em um documento complicado, distribuído a todos os membros. O patrimônio líquido dele continua a ser de dezenas de milhões de dólares, mas ele também tem gastos prodigiosos. Ele e sua mulher gastaram mais de US$ 1 milhão com suas despesas cotidianas em 2005. Ele bateu na barriga, apertada por sob a camisa, e admitiu que estava exagerando na boa comida e no vinho, e nenhuma das duas coisas estava fazendo bem à sua saúde ou aos seus investimentos.
Mas seus colegas multimilionários não aceitaram a autocrítica. Todos se pronunciaram. Falaram em elevar os investimentos internacionais, mas um exemplo mais típico foi o comentário de Ziel Feldman, investidor imobiliário na casa dos 40 anos, que disse a Jacobson que "ouço você há três anos. Percebo agora um certo nível de conforto que não via antes".
Outro dos membros, Amnon Bar-Tur, cujo sotaque, barba pontiaguda e olhar astuto lhe dão a aparência de um aristocrata, disse que "o jeito de que você fala sobre sua situação parece bom. Nós todos gostaríamos de estar como você".
Foi um diálogo, doce, até carinhoso, mas posteriormente mencionei a Bar-Tur que aquela não era a conversa que se ouviria em uma sessão profissional de terapia de grupo, por exemplo.
Jacobson mencionou que ele continuava a comprar e vender imóveis, mas não sabia se devia ou não agir assim, ou se seria melhor, como sua mulher sugeriu, deixar de lado o mundo do trabalho e ver como ele se sente. "Estou começando a pensar seriamente nisso", ele afirmou.
Mas o grupo descartou a idéia sumariamente. Os colegas poderiam ter perguntado se comprar imóveis é motivado por uma forma de compulsão. Ou tentado discutir com ele sobre os limites que a pessoa mesma deveria impor às suas vontades. Ele havia dito aos colegas que, acima de tudo, queria desfrutar da vida ao máximo, e ocasionalmente se ressentia da intrusão dos negócios em sua vida diária. Talvez ele estivesse apenas canalizando as vontades de sua mulher, em lugar de expressar as suas -outro assunto que ofereceria muita causa de debate.
Mas em lugar de tratar disso, seus colegas do Tiger 21 ofereceram frases de encorajamento à maneira de Oprah Winfrey, que o fizeram sair de lá com uma boa sensação mas sem tratar das questões que parecem mais relevantes.
Bar-Tur não contestou essa caracterização. Mas disse que aquilo que o Tiger 21 oferece não deveria ser subestimado. Já há alguns anos, ele assiste e ouve os esforços dos colegas para revelar mais de suas vidas ao grupo. O simples fato de que eles têm de se esforçar para dar forma narrativa às experiências que vivem, diz ele, ajuda a pessoa que está falando a se concentrar na motivação para as decisões que tomou e as decisões que está estudando. "Um lugar no qual você possa compartilhar de seus desafios pessoais com pessoas semelhantes a você, e ter um grupo realmente sábio para aconselhá-lo, é uma coisa rara na vida", disse. "E vale muito. Já presenciei episódios em que os conselhos que trocamos valem literalmente milhões de dólares".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times Magazine
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