NY Times Magazine

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Segunda, 3 de setembro de 2007, 18h02 Atualizada às 18h08

Eles comem o que nós somos

Fui informado de que, no porão do edifício do laboratório de ciências zoológicas da Universidade do Illinois, o Dr. George Fahey mantinha uma colônia de cachorros de aparência estranha. Por ordem de Fahey, todos eles haviam passado por cirurgias que resultaram na instalação de tubos plásticos que ligam seus intestinos a torneiras instaladas em seus flancos. Fahey, professor de zoologia e nutrição, pode abrir as torneiras, encher um receptáculo com a matéria que o tubo contiver e calcular que proporção de sua comida um cachorro digeriu, antes que a porção não digerida avance pelo corpo do animal.

Os tubos são inseridos no íleo - o lugar exato em que a absorção dos alimentos termina e sua fermentação pelo intestino começa. Com uma amostra suficiente de qualquer comida para cães, Fahey pode calcular os volumes de vitaminas, minerais, gordura ou açúcar que penetram no organismo de um animal e que proporção será perdida de maneira irreversível. Ele dedicou sua carreira a estudar o metabolismo de animais domésticos, e suas pesquisas ajudaram a definir a natureza da ração animal.

Além de sua colônia de cachorros, Fahey supervisiona alguns outros laboratórios no departamento de zoologia da universidade. O maior deles contém uma câmara refrigeradora contendo recipientes de ração animal identificados por códigos, que poderão se tornar as rações comerciais do futuro. Em uma pilha próxima, há amostras de rações comerciais que os veterinários fornecem aos animais em suas experiências - marcas que Fahey preferiu não identificar para este artigo.

Fahey delineou a evolução do habitat canino, da natureza aos pátios de fazendas e varandas, e de lá para as salas, e depois quartos e camas de seus proprietários. Ele descreveu de que maneira, para pessoas que vivem sozinhas ou casais sem filhos, cães ou gatos se tornam objetivo de amor, e que um objeto de amor precisa ser civilizado.

A idéia de civilizar não tem necessariamente relação com a dieta do animal. Cachorros sobrevivem muito bem com uma mistura de soja e milho. "Essa é a dieta mais barata que se pode prover", disse Fahey, e contém todas as vitaminas, minerais, proteínas, gorduras e carboidratos de que um cachorro necessita. "Mas ela não seria vendável, para amplos segmentos do mercado moderno".

"As pessoas adquirem dietas com base em duas coisas", disse Fahey. "A primeira é a palatabilidade. Você serve e os cachorros esvaziam a vasilha". A segunda é a aparência das fezes. "Elas deveriam ter metade do comprimento deste lápis" (ele mostra o lápis, como exemplo) e serem tão fáceis de pegar como. Se as pessoas moram em um apartamento de 34° andar e têm carpetes brancos, isso se torna uma necessidade".

A fabricação de ração animal é campo de batalha entre gigantes, com faturamento próximo dos US$ 15 bilhões, no ano passado. A Procter & Gamble adquiriu a Iams por mais de US$ 2 bilhões em 1999, e dois anos mais tarde a Nestlé adquiriu a Ralston-Purina por US$ 1 bilhões. Uma grande multinacional, a Mars Petcare, controla as marcas Whiskas, Pedigree, Royal Canin, Sheba, Kitekat, Frolic, Trill, Aquarian e muitas outras. Em 2005, as grandes empresas do setor investiram US$ 300 milhões em publicidade.

Os gigantes da ração animal vêm enfrentando o desafio de inúmeros novos concorrentes, cujas ofertas de ração animal de qualidade dependem de componentes orgânicos, embalagens ecológicas, ingredientes semelhantes aos usados na culinária humana e uma filosofia revolucionária. Nos últimos anos, os méritos relativos de dietas de baixo colesterol, alta proteína e do programa BARF, que combina ossos e comida crua, geraram discussões furiosas entre os mais interessados mais ardorosos em ração animal. Sites como o balancelt.com oferecem inúmeras receitas de refeições animais semelhantes a pratos humanos, e com ingredientes semelhantes: lasanha, espaguete com almôndegas, cordeiro ensopado.

Mas a vasta maioria dos 75 milhões de cães e 88 milhões de gatos domésticos dos Estados Unidos continua a se alimentar com restos da produção de alimentos humanos. Ingredientes básicos das rações, como ossos de galinha triturados, sangue de porco e subprodutos de destilarias, são derivados da comida humana. De fato, quando uma empresa de processamento de produtos agrícolas encontra um resíduo industrial - fibra de milho, digamos, de sua produção de etanol - é provável que ela procure o laboratório de Fahey, que conduziu grande número de pesquisas sobre fibras de milho e está estudando seu potencial como fonte de fibra para a dieta canina.

Ainda que a alimentação animal tenha em geral acompanhado as tendências da nutrição humana, essa ordem ocasionalmente se inverte. "Veremos fibras de milho em alimentos humanos como cereais matinais e salgadinhos", disse Fahey. "Não há por que não serem utilizadas".

Experiências com cães e gatos foram por muito tempo usadas como chaves para os mistérios científicos da dieta humana. Os cachorros têm metabolismo semelhante ao nosso, são amplamente disponíveis e seus órgãos internos são maiores que os dos ratos, o que os torna bastante propícios como objetos de experiências. De fato, algumas das vitaminas vendidas para humanos surgiram como resultado de estudos que deixaram colônias de animais domésticos emaciados, ou em coma.

Paradoxalmente, as mesmas experiências que causaram doença e morte geraram avanços pioneiros no tratamento da saúde animal. Porque os bioquímicos especializados em nutrição mediram quase tudo que podiam sobre a dieta dos cães e gatos, eles sabem o que fazer quando algo sai errado.

Enquanto Fahey descrevia o trabalho de seu laboratório, o silêncio tomava conta da sala, gradativamente. No final de seu monólogo, os cães estavam em completo silêncio, mas seus olhos eram súplices. Estavam claramente pedindo alguma coisa, mas o quê? Quando deixamos a sala, eles começaram a latir e uivar por trás da porta, e seu ruído patético nos acompanhou em nosso percurso pelo corredor de cimento.

"O que os incomodou assim?", pergunto.

"Eles achavam que você os levaria para passear", diz Fahey. "Olha só o que você fez".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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