NY Times Magazine

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Domingo, 26 de agosto de 2007, 15h24

Setor de seguros lida com cassino da natureza

Era o dia 24 de agosto de 2005, e Nova Orleans ainda era encantadora. A Depressão Tropical 12 estava começando a rodopiar das Bahamas em direção à Flórida, mas as chances de que uma cidade dos Estados Unidos fosse destruída pela natureza pareciam remotas. Um setor econômico povoado por cientistas cujo trabalho é calcular a probabilidade de diferentes desastres naturais havia determinado as chances de calamidade uma tempestade capaz de destruir US$ 70 bilhões em patrimônio segurado só atingiria os Estados Unidos uma vez a cada 100 anos.

De Miami a São Francisco, os imóveis mais caros do país ocupam terrenos de praia ou sobre falhas geológicas, e as cidades mais vibrantes foram construídas nas áreas de maior risco. E virtualmente ninguém era capaz de compreender as probabilidades reais.

Mas havia um norte-americano tão preparado para o caos que a Depressão Tropical 12 estava prestes a causar que bem poderia tê-la planejado. O nome dele é John Seo, 39 anos, e em 2005 ele dirigia um fundo de hedge sediado em Westport, Connecticut. Seo havia investido US$ 1 bilhão de dinheiro alheio na compra dos chamados "cat bonds", títulos financeiros vinculados a catástrofes. Os compradores desses papéis estão, na prática, vendendo seguro contra calamidades. Eles investem seu dinheiro e perderão tudo caso uma determinada desgraça aconteça, em prazo específico um grande furacão varra Miami, digamos, ou uma seguradora perca mais de US$ 1 bilhão com um único desastre natural.

O vendedor do cat bond, de sua parte - em geral uma seguradora que pretende se precaver contra prejuízos excessivos - paga juros elevados aos investidores. Seo (pronuncia-se "sou") se formou em Física pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e se doutorou em Biofísica pela Universidade Harvard. Mas depois de se formar em Harvard, quando sua mulher estava grávida do segundo filho do casal, o plano de saúde da Universidade Brandeis, que o havia contratado, decidiu que a gravidez dela era pré-existente. Para cobrir os custos do parto, Seo aceitou um emprego temporário em uma trading chamada O¿Connor and Associates, em Chicago.

Depois de oito semanas ajudando a O¿Connor a estipular os preços de títulos exóticos de opções, Seo foi convidado para um posto permanente, com salário anual de US$ 250 mil, 27 vezes mais do que ele ganharia como professor iniciante. Seo logo transformou o mercado financeiro em laboratório pessoal, e voltava sempre a um problema espinhoso o preço certo a cobrar pelo seguro contra potenciais prejuízos causados por eventos financeiros altamente improváveis.

O mercado usa a gíria "tail risk" (risco de cauda) para designar qualquer cataclismo financeiro cuja chance de acontecer seja inferior a 1%. Na metade dos anos 90, quando Wall Street primeiro percebeu que era possível ganhar dinheiro cobrindo os riscos associados a furacões e terremotos, era inevitável que alguém procurasse Seo. Ele deixou seu emprego e passou seu primeiro ano no banco de investimento Lehman Brothers aprendendo tudo que podia sobre o antiquado mundo dos seguros.

Quanto mais Seo estudava o mundo dos seguros, mais ele o via como oscilando à beira do abismo. Por sua própria natureza, os grandes riscos de catástrofe do começo do século XXI não podiam ser eliminados por diversificação, como no passado. A riqueza estava muito concentrada em um punhado de locais altamente traiçoeiros. A única forma de enfrentar os riscos era distribui-los amplamente, e isso só poderia ser feito em Wall Street. Os prejuízos causados até mesmo pelo maior dos desastres naturais seriam uma gota no oceano dos mercados de capital mais amplos.

Modelos desenvolvidos por profissionais dos seguros como Karen Clark serviram como ponto de partida para Seo. Ainda que imperfeitos, eram suficientes para sustentar decisões financeiras. Em 2001, para surpresa dos colegas, Seo deixou o emprego e montou um fundo de hedge. Mas quatro anos mais tarde as seguradoras ainda não compreendiam plenamente a sua situação a exposição do setor a catástrofes era de US$ 500 bilhões e havia apenas US$ 5 bilhões de cat bonds em circulação.

As ameaças que nos parecem mais remotas são aquelas que menos conhecemos. O risco de catástrofe lida com eventos raros a ponto de não fornecerem exemplos baseados em experiência. Quanto mais improvável o evento, maior a incerteza. Quando maior a incerteza, mais seria preciso pagar para que um investidor convivesse com ela.

A parte de Wall Street que lida com eventos financeiros improváveis havia compreendido a dinâmica. Mas os seguros contra colapsos extremos de mercado, os tail risks, eram vendidos por quatro a cinco vezes o prejuízo previsto; ainda que os preços fossem consistentes ao longo do setor, eles estavam sendo determinados não por lógica, mas por "achismo".

E Seo descobriu uma maneira lógica de determinar esses preços, em 2000, no Lehman Brothers, quando uma empresa que operava fábricas em zonas sujeitas a terremotos no Japão e Califórnia procurou o banco para descobrir como se proteger contra o possível fechamento simultâneo de suas duas fábricas devido a terremotos.

Seo considerou o problema: os terremotos que preocupavam a empresa acontecem em média uma vez a cada 10 anos; uma solução simplória seria procurar uma seguradora e adquirir apólices contra terremotos no Japão e na Califórnia, pagando US$ 2 milhões por apólice para obter US$ 10 milhões em cobertura. Mas havia solução melhor ele só precisava de seguro contra o terremoto na Califórnia caso houvesse terremoto no Japão no mesmo ano. Por isso, Seo só precisava comprar seguros para um terremoto no Japão por um valor que lhe permitisse pagar o custo pleno da apólice na Califórnia. Em lugar de duas apólices ao custo de US$ 2 milhões, ele pagou US$ 2 milhões por uma e apenas US$ 400 mil pela segunda.

Por conta do Katrina, as seguradoras começaram enfim a recorrer cada vez mais a fundos como o de Seo. O segmento de mercado em que ele opera cresceu até um movimento anual da ordem de US$ 14 bilhões. "As seguradoras estavam basicamente fugindo da sociedade", diz. "O que deveriam fazer era assumir os riscos e transferi-los a nós".

Ainda que o Katrina lhe tenha causado prejuízos, Seo continua a confiar no setor. Ele sabe que os investidores aceitam prejuízos no contexto de um jogo que vejam como justo ¿ eles não abandonam o mercado de ações quando acontece um crash. "É só isso que preciso saber", afirma. "Se surgisse um evento de grande porte e não tivéssemos prejuízos comensuráveis, eu me sentiria envergonhado. Isso significaria que não servimos a sociedade como deveríamos. Que fracassamos".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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AP Foto tirada do avião presidencial mostra área inundada pelo Katrina na cidade de New Orleans. Foto tirada do avião presidencial mostra área inundada pelo Katrina na cidade de New Orleans.

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