Atualizada às 14h37
David Gordon Smith
Der Spiegel
Trata-se possivelmente do mais controverso livro do século XX. De fato, a notória polêmica de Adolf Hitler, Mein Kampf, minha luta, não foi republicada legalmente na Alemanha desde o final da guerra. E muita gente se preocupa com a possibilidade de que as frenéticas idéias expostas no livro se tornem uma espécie de bíblia para os extremistas de direita.
Agora, porém, um historiador de Munique pediu que o livro volte a ser publicado no país ¿como forma de prevenir possíveis abusos praticados por neonazistas interessados em explorar o texto para fins próprios.
Horst Möller, diretor do Instituto de História Contemporânea de Munique, gostaria de ver Mein Kampf republicado em forma de edição acadêmica, acompanhado por anotações abrangentes. "Enquanto o livro não estiver disponível em edição cuidadosamente anotada, não vão cessar as especulações, muitas das quais simplistas, sobre o que o tomo de fato contém", disse Möller em entrevista publicada na segunda-feira pelo jornal "Frankfurter Allgemeiner Zeitung". "Uma edição acadêmica poria fim aos mitos que cercam Mein Kampf".
O livro, escrito enquanto Hitler estava servindo uma sentença de prisão por uma tentativa de golpe de Estado em 1923, foi ao prelo originalmente em 1925. Nele, o futuro ditador expõe sua visão de mundo e a ideologia do nazismo, misturadas a detalhes autobiográficos e a tiradas contra os judeus e outros grupos. O livro está amplamente disponível em diversos países, entre os quais o Reino Unido e os Estados Unidos, mas não pode ser publicado na Alemanha.
Ao contrário da crença popular, o trabalho não é proibido pela censura na Alemanha. Em lugar disso, seus direitos autorais são propriedade do governo estadual da Baviera, que assumiu os direitos detidos pela Eher-Verlag, a principal editora do partido nazista - entre os quais os de Mein Kampf -, como parte do programa de erradicação do nazismo imposto pelos aliados vitoriosos depois da guerra.
Como detentor dos direitos autorais, o Estado vem recusando permissão para que o livro seja publicado, sob a alegação de que serviria para promover o extremismo de direita. O Ministério do Exterior alemão recomendou repetidas vezes que o livro não seja publicado, por medo de prejudicar a imagem do país no exterior.
Möller afirma que pediu autorização repetidas vezes ao Ministério das Finanças bávaro, que controla os direitos autorais, para a produção de uma edição acadêmica, mas nunca conseguiu licença. O governo bávaro no passado tomou medidas legais contra a publicação do livro em outros países, por exemplo a Suécia, em 1992, e a Polônia, em 2005.
Mas o Estado não conseguirá manter essa situação por muito tempo. Em 2015, terão passado 70 anos da morte do autor, Adolf Hitler, e o direito autoral expirará, nos termos das leis padronizadas de propriedade intelectual. A partir dali, qualquer um poderá publicar Mein Kampf.
"Haverá número suficiente de editoras interessadas em vendê-lo, quando essa hora chegar, e o sensacionalismo será inevitável", afirmou Möller, segundo o qual seria melhor produzir uma edição anotada explicando por que Hitler estava errado agora do que esperar pelo dilúvio de edições comerciais sem anotações.
Mas o Ministério das Finanças bávaro está aderindo à sua orientação original, pelo menos por enquanto. Em mensagem a "Spiegel Online", na terça-feira, o ministério informou que continuaria a vetar a publicação do controvertido texto. "Em termos de administração (dos direitos da Eher-Verlag), o Estado da Baviera assumiu uma posição restritiva nas últimas décadas", escreveu a porta-voz Judith Steiner em mensagem de e-mail. "Não foi concedida permissão para que as obras completas fossem publicadas, na Alemanha ou no exterior, com a intenção de prevenir a distribuição da ideologia nazista".
A mensagem acrescenta que a posição do Estado se baseia em "responsabilidade e respeito pelas vítimas do Holocausto, para as quais a republicação representaria uma afronta... ao que sofreram". Ao contrário de Möller, o Ministério das Finanças bávaro não acredita que uma edição acadêmica anotada seja útil. "É possível para os historiadores que desejam estudar Mein Kampf criticamente fazê-lo por meio de trabalhos anotados já publicados", afirma a mensagem.
Outros acadêmicos tampouco se deixam convencer de que republicar o livro seja boa idéia. "Acredito que a idéia seja absurda", disse Wolfgang Benz, diretor do Centro de Pesquisa sobre o Anti-Semitismo, em Berlim, à Spiegel Online. "Como se poderia anotar um monólogo de 800 páginas que expõe a visão de mundo insana de Hitler? Depois de cada linha seria preciso escrever que Hitler estava errado, que Hitler estava completamente equivocado, e assim por diante".
O argumento de que é melhor publicar uma edição acadêmica agora do que esperar por edições sensacionalistas não se sustenta, na opinião dele. "Os neonazistas e extremistas de direita vão publicar o livro de qualquer forma, quando os direitos autorais expirarem", diz. "E ninguém vai comprar uma edição acadêmica por centenas de euros quando pode comprar uma versão de bolso publicada por uma editora de direita ao preço de apenas dois ou três euros".
Ele aponta que o livro está livremente disponível, com o texto integral, em sebos, bibliotecas e na Internet e muitas famílias ainda dispõem de cópias. "Quem quiser lê-lo, não encontra dificuldades", disse. "O texto não desapareceu".Der Spiegel
Capa do livro Mein Kampf em foto de arquivo
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