Stefan Simons
Da Spiegel, em Paris
Yves Montand gravou uma canção chamada À Bicyclette, uma balada de amor para uma mulher cujo nome, Paulette, convenientemente rima com o do meio de transporte. É um exemplo de algo que os estrangeiros poderiam considerar "tipicamente francês" - tanto a canção quanto o sentimento. Se ignorarmos o fato de que, na França do século 21, tanto as magrelas quanto Montand são vistos como antiguidades. Existem exceções - bicicletas equipadas com recursos de alta tecnologia e reformuladas como instrumentos de atletismo de alta velocidade. Os ciclistas esportivos pedalam em trajes fluorescentes que podem ser admirados quando eles passam velozmente pelas pistas de hipismo do Bois de Boulogne, por exemplo. Eles usualmente passeiam em grupos grandes, o que tem pouco em comum com o caráter francês.
Mas tudo isso pode mudar caso o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, e Denis Baupin, político que lidera o Partido Verde, conseguirem o que desejam. Seu plano é converter seus compatriotas ao uso saudável e ecologicamente correto da bicicleta como meio de transporte. Em 15 de julho, um dia depois do feriado da queda da Bastilha, a data nacional francesa, Paris introduzirá um sistema de locação de bicicletas públicas chamado Vélib, que cobrirá toda a área municipal e tem por objetivo promover o poder do pedal junto ao povo.
A idéia emprega a alta tecnologia, e envolve permitir que tanto parisienses como turistas aluguem bicicletas em estações públicas usando um cartão inteligente. Em julho, não menos de 750 estações, equipadas com mais de 10 mil bicicletas para locação, entrarão em operação. O governo municipal, uma coalizão entre os socialistas e os verdes, vem promovendo a idéia de que as bicicletas não emitem poluentes, mantêm sua mobilidade mesmo em meio aos congestionamentos e - o mais importante - são fáceis de estacionar. Eles querem que as pessoas de Paris optem pela bicicleta de preferência ao automóvel, o ônibus ou o metrô. O deslocamento em bicicleta nem mesmo é mais lento que o uso do automóvel, já que em Paris a velocidade média dos motoristas em meio ao trânsito é de apenas cinco quilômetros horários.
Bicicletas liberadas
O modelo Vélib de locação de bicicletas públicas - variações do qual já estão em uso em outras cidades, como Rennes, Estrasburgo e Lyon (para não mencionar Berlim)- é bastante simples. Cada estação contará com 15 bicicletas. Os usuários podem liberar uma bicicleta para uso por meio de um cartão inteligente, que permite que a devolvam em qualquer outra estação ao final do percurso. O pagamento acontece eletronicamente. Os usuários terão de carregar o cartão comprando uma assinatura do serviço, disponível na Internet, nas agências de correio ou nas repartições municipais. Em algumas estações, também será possível usar um bilhete de metrô como forma de locação de bicicletas.
As bicicletas - "elegantes e cosmopolitas", de acordo com Céline Lepault, do governo municipal; pintadas de um "cinzento elegante", de acordo com o jornal francês Le Monde - são objetivos genuinamente singelos. Pesam 22 kg e dispõem de uma cesta afixada ao guidão. Também estão equipadas com faróis, cadeados e um câmbio de três marchas e uso simples. Não são aparelhos de corrida ou bicicletas de montanha cheias de recursos, o que poderia causar tentação de roubo, mas sim meios sólidos de transporte adequados à selva urbana e para percursos curtos. A chave do sistema Vélib é que as bicicletas podem trocar de mãos rapidamente e com freqüência. A estrutura de preço encoraja os usuários a usá-las para percursos curtos e depositá-las de novo nas estações eletrônicas, em lugar de manterem as bicicletas alugadas por um dia ou uma semana inteiros.
A agência de publicidade JCDecaux, que forneceu as bicicletas, prometeu duplicar o número até o final do ano. Pelo final de 2007, quase 21 mil bicicletas devem estar em circulação por toda a Paris no sistema Vélib, mantidas por 300 funcionários da JCDecaux.
Como caminhoneiros em Citroëns
A estréia do sistema Vélib surge depois da adoção de diversas iniciativas governamentais e privadas para encorajar as pessoas ao uso da bicicleta. Na França, 300 cidades celebram o "festival da bicicleta", em junho, e no mesmo mês ciclistas saíram nus às ruas como parte de um protesto internacional para promover o transporte não poluente e colocar em destaque a vulnerabilidade dos ciclistas nas cidades.
Baupin e Delanoe pretendem tomar medidas para reduzir essa vulnerabilidade, porque pedalar uma bicicleta Paris afora continua a exigir boa dose de coragem. Aprisionados entre uma muralha sólida de tráfego motorizado e motociclistas que dirigem em velocidade espantosa -ou usuários kamikazes de lambretas -, os ciclistas nesta cidade de dois milhões de habitantes precisam de nervos fortes, além dos músculos desenvolvidos nas pernas - ainda mais porque o ciclista francês médio tende a navegar as ruas demonstrando espírito jacobino de revolta. Para eles, sinais vermelhos não querem dizer "pare" - 71% dos ciclistas disseram ao jornal Le Parisien que atravessam qualquer cruzamento sem parar por conta dos carros. A idéia de mãos de direção também é apenas simbólica. O ciclista francês é agressivo e irresponsável, como o motorista parisiense, que tende a se comportar como caminhoneiro mesmo que esteja sentado ao volante de um Citroën.
Der Spiegel
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