NY Times Magazine

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Sexta, 8 de junho de 2007, 18h52

Devemos globalizar também a mão-de-obra?

A rodovia Arniko sai de Katmandu em uma sucessão de curvas apertadas que prestam tributo tanto à inacessibilidade do terreno no Himalaia quanto à implausibilidade de seu desenvolvimento. Fora da África, nenhum país é mais pobre que o Nepal. A renda per capita do país à primeira vista parece um erro de revisão: US$ 270 - a do Sudão, por exemplo, é duas vezes maior. Quase dois terços dos nepaleses não dispõem de eletricidade. Metade das crianças em idade pré-escolar sofrem de má nutrição. À lista de problemas recentes do país, é preciso acrescentar o regicídio - 10 membros da família real foram chacinados em 2001 por um príncipe suicida - e uma insurgência maoísta.

A jornada pela estrada termina, depois de 12 árduas horas, mais ou menos como começou: diante de uma garganta desolada nas montanhas. Mais ou menos pela metade da encosta na qual cactos florescem, um fazendeiro empobrecido chamado Gure Sarki recentemente adquiriu quatro cabras.

A história das cabras de Sarki envolve décadas de pensamento sobre a assistência estrangeira e a espécie de programa muitas vezes visto como melhor, na prática assistencial moderna. Dois anos atrás, um organizador apareceu no local e disse que o governo nepalês, com verbas do Banco Mundial, estava concedendo verbas para projetos que deveriam ser selecionados pelos aldeões pobres locais. Primeiro, eles precisavam fazer uma lista de seus problemas. Com Sarki como presidente do comitê, a aldeia de Chaurmuni organizou sua lista - "não conseguimos comer o ano inteiro"; "não conseguimos mandar as crianças à escola"; "falta de ração e pastagem para os animais"; "deslizamentos de terra e inundações"; "incapacidade de conquistar a confiança do agiota".

Uma semana mais tarde, eles decidiram iniciar um fundo de microcrédito e expandir seus rebanhos. Vinte dos aldeões comprariam 55 cabras, por US$ 50 cada animal. O plano especificava quem faria parte do comitê de aquisição, a diária que os compradores de cabras receberiam e a taxa de juros sobre os empréstimos (pouco mais de 1% ao ano). Os papéis foram a Katmandu, onde o governo aprovou a verba de US$ 3,7 mil.

Dois meses depois da primeira reunião, Sarki tinha suas cabras. Elas duplicaram o valor de seus rebanhos. O fazendeiro gosta tanto delas que as faz dormir dentro de casa, para protegê-las contra os leopardos. Seu plano é vendê-las no ano que vem, lucrando cerca de US$ 25 por cabeça.

Lant Pritchett, no entanto, diz que tem uma idéia melhor. Pritchett, economista especializado em desenvolvimento e famoso iconoclasta, acaba de deixar seu posto no Banco Mundial para lecionar em Harvard e ajudar o Google a planejar seus esforços filantrópicos de combate à pobreza mundial.

Em recente viagem a Chaurmuni ele elogiou as cabras como o melhor exemplo de desenvolvimento comunitário: uma forma rápida e flexível de oferecer assistência tangível aos mais pobres. "Mas as cabras não vão tirar o Nepal da pobreza", ele afirma, e tampouco acredita que um país pequeno e sem acesso ao mar, como o Nepal, possa prosperar por meio do comércio internacional.

A essas soluções padrão - assistência e comércio -, Pritchett gostaria de acrescentar uma terceira: ele deseja criar um imenso programa de trabalhadores convidados que levaria milhões de cidadãos de países pobres a empregos nas economias mais ricas do planeta. Se você quer mesmo ajudar Sarki, ele diz, deixe de lado as cabras e permita que ele corte a grama em sua casa.

O manifesto de Pritchett em defesa da migração, "Let Their People Come", foi publicado no ano passado mas não recebeu grandes elogios - ou elogio algum, na verdade. Quando tentam ser polidos, os amigos de Pritchett pigarreiam e dizem que ele está adiante de sua era. Os críticos menos gentis dizem que um exército de trabalhadores estrangeiros convidados erodiria a soberania do Ocidente, deprimiria os salários nacionais, facilitaria o terrorismo, roubaria talentos aos países em desenvolvimento, separaria pais e filhos pobres e destruiria a coesão cultural do Ocidente.

A vida no Nepal é difícil. O mesmo poderia ser dito sobre a Irlanda na década de 1850, a Itália nos anos 1880 ou Oklahoma na década de 30. Em todos esses casos, grandes populações sofreram choques econômicos e reagiram da mesma maneira: emigraram. Depois da fome causada por uma praga que destruiu as plantações de batatas, a população da Irlanda se reduziu em 53%, devido à emigração tanto quanto à fome. Isso beneficiou os migrantes, claro. Mas Pritchett aponta que a Irlanda, em conseqüência, tinha menos gente a sustentar, e por isso o Produto Interno Bruto (PIB) nunca caiu.

Embora algumas regiões problemáticas possam se reformar e prosperar - a solução claramente preferível -, Pritchett argumenta que centenas de milhões de pessoas estão presas a lugares com pouca chance de desenvolvimento. "Para eles, apenas a emigração pode impedir uma queda prolongada ou permanente dos salários".

O Nepal é um país pequeno e isolado, com um relevo desafiador, pouca indústria, baixa alfabetização e escassa infra-estrutura. O único recurso do país é mão-de-obra barata, que ele já exporta em volume considerável. Embora a maioria desses trabalhadores se dirija a países de baixa renda, como a Índia, as remessas de dinheiro deles para o Nepal ultrapassam o US$ 1 bilhão ao ano, o equivalente a 12% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Apesar dos problemas nepaleses, essas remessas ajudaram a reduzir a pobreza em 25%, e poderiam ir além, diz Pritchett, caso mais nepaleses fossem admitidos como trabalhadores no Ocidente.

Os países ricos dispõem de empregos. As pessoas pobres precisam de trabalho. Na visão orgulhosamente excêntrica proposta por Pritchett, procurar outro caminho equivale a simplesmente fechar os olhos diante dos fatos.

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