Der Spiegel

Der Spiegel

Quarta, 30 de maio de 2007, 11h58 Atualizada às 13h02

G8: ativistas são recebidos por moradores locais

Os moradores de Heiligendamm estão tentando começar com o pé direito seu relacionamento com a primeira onda de ativistas de oposição ao Grupo dos 8 países mais ricos do mundo, o G8. Os manifestantes estão montando acampamento nessa cidade à beira do Mar Báltico para protestar contra a conferência de cúpula do grupo que se realizará nos dias 6 a 8 de junho.

Axel Hackendahl avistou o primeiro ativista contra a globalização duas semanas atrás. "Ele tinha uma foice nas mãos e estava tentando aparar a grama", conta o açougueiro. Depois de algum tempo, Hackendahl se apiedou do rapaz e "me aproximei dele para explicar que, daquele jeito, nem em quatro semanas ele terminaria. Eu disse que primeiro era preciso remover as pedras e que traria meu trator".

A grama foi aparada e o terreno preparado rapidamente ¿e isso permitiu que os novos vizinhos de instalassem. A ordeira casa de Hackendahl fica em Reddelich, a nove quilômetros de Heiligendamm, que abrigará a conferência do G-8. Estacas feitas de madeira recém-cortada podem ser vistas fincadas ao solo, logo além de sua cerca viva aparada com cuidado. Uma bandeira se agita ao vento, ouve-se o barulho de panelas e os novos vizinhos trouxeram um trailer no qual se lê o lema do grupo, "vamos despedaçar o capitalismo".

Se os manifestantes de Heiligendamm usassem uniforme, seria o seguinte: calças de corte militar, com bolsos largos; botas de trabalho; camisetas desbotadas; cabelos encardidos. Ou pelo menos essa é a aparência do primeiro grupo de manifestantes contra o G-8, acampados em um terreno vazio em Reddelich. Os ativistas não gostam de conversar com jornalistas, e não querem ser fotografados.

A cerca viva é tudo que separa o jardim de Hackendahl do acampamento dos manifestantes. A expectativa é de que cinco mil deles venham à cidade, e no começo o açougueiro não estava nada feliz. "Se cinco mil pessoas urinarem em minha cerca por dias, ela ficará arruinada", ele declarou a um repórter do "Ostseezeitung", um jornal local. Mas até agora apenas um grupo avançado com algumas dezenas de ativistas chegou. Barracas e trailers foram instalados como em um acampamento. A cena parece uma mistura de festival campestre e expedição de escoteiros.

Hackendahl continua zangado com as autoridades por instalarem o acampamento logo ao lado de sua casa sem consultá-lo. Mas ele não têm mais queixas sobre os novos vizinhos. Conformou-se com a situação. Há cabos elétricos e tubos vindos de seu açougue, no terreno vizinho, ligados ao acampamento. A empresa de Hackendahl fornece aos visitantes as necessidades básicas ¿eletricidade e água quente para banhos, inicialmente por apenas uma hora, à noite, mas agora o dia todo. "Eles queriam instalar um medidor de água", conta o açougueiro, "mas eu disse que não precisavam se incomodar".

Como gesto de agradecimento, um dos manifestantes consertou a casa de árvore da filha de Hackendahl. E, no dia seguinte, a família foi convidada para assistir a um show musical no acampamento. "Eles tocaram jazz excelente", conta o açougueiro, animado. Quando um vizinho deu um leitão de presente aos manifestantes, ele imediatamente o preparou em seu açougue. "Um a mais não faz diferença", afirmou.

Hackendahl parece na verdade estar apreciando a diversão que seus novos vizinhos propiciam. Ele mesmo provavelmente não acreditaria, algumas semanas atrás. Mas relações amistosas são a melhor garantia contra vandalismo, raciocina.

Michael Joppeck, outro vizinho do acampamento, não tem tanta certeza, e prefere tomar medidas adicionais de proteção. Ele instalou uma segunda cerca, mais alta, em torno de sua empresa ¿e a encimou com arame farpado. Joppeck dirige uma empresa de segurança e se sente especialmente ameaçado porque participou da instalação da cerca de segurança que protege Heiligendamm. Mas ele tampouco soa muito alarmado. "Caso os outros cinco mil manifestantes sejam tão razoáveis quanto este primeiro grupo, não tenho motivo de preocupação", disse.

Os filhos de Hackendahl conseguem ver as barracas sendo montadas, do alto de um brinquedo instalado no jardim de sua casa. Os manifestantes estão escavando um grande buraco no centro do terreno, para instalar o pilar principal da barraca de comida. Um deles está serrando metal corrugado para cercar os chuveiros. Uma fileira de banheiros químicos já foi estabelecida no extremo oposto do acampamento. A chuva pesada amaciou o terreno. Não vai demorar para que o acampamento se transforme em um mar de lama.

A nove quilômetros de distância, em Heiligendamm, um grande evento está sendo preparado. As nove bandeiras, dos países do G8 e da União Européia, já foram erigidas diante do hotel Kempinski. O gramado foi aparado de maneira ainda mais profissional do que no terreno ao lado da casa de Hackendahl. Frauke Müller, relações públicas do hotel, caminha apressadamente em seus saltos altos, pelos corredores brancos e estéreis do estabelecimento, conduzindo jornalistas em uma visita. "Bush dormiu aqui, na Hohenzollern House, da última vez", ela conta, apontando para um edifício em forma de castelo, com torres. O presidente norte-americano visitou a chanceler primeira-ministra alemã em Stralsund, no verão passado, e se hospedou no Kempinski.

Mas o hotel continua recebendo convidados comuns, no feriado alemão de pentecostes. Duas das suítes que os governos ocuparão estão reservadas até depois do ferido. A distribuição de hóspedes como Bush e o presidente russo Vladimir Putin pelos aposentos é um segredo bem guardado. As conferências dos líderes acontecerão no salão de bailes do hotel, que tem paredes verdes e um pé direito de nove metros de altura.

  • Imprima esta notícia
  • Envie esta notícia por e-mail

Busca

Busque outras notícias no Terra: