Der Spiegel

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Quarta, 30 de maio de 2007, 11h47

Não faltam crises políticas na Europa Oriental

Quase duas décadas depois da queda do comunismo, diversos países da Europa Oriental ainda continuam enfrentando dificuldades para estabelecer suas democracias. Entre direitistas radicais a pós-comunistas autoritários, falta um centro no panorama político.

No sábado passado, em Bucareste, terminada toda a confusão e estabelecida a vitória do povo sobre o Parlamento romeno, Traian Basescu tomou o microfone. Ele parecia a um só tempo orgulhoso e exausto ¿aparentemente tão atônito diante da enormidade de sua realização quanto se tivesse acabado de conduzir um golpe de Estado bem sucedido. "Os romenos", afirmou, "não querem mais que seu país pertença a uma oligarquia".

Três quartos dos parlamentares romenos acusam Basescu de violar a constituição do país e chegaram a votar sua remoção do poder. Eles alegavam que o presidente havia violado os deveres, em larga medida cerimoniais, de seu cargo, interferindo na condução dos assuntos de governo. Mas Basescu não ficou deposto por muito tempo. Três quartos dos eleitores romenos discordaram do Parlamento, e votaram em referendo na semana passada permitir que o presidente, que vem promovendo uma cruzada contra a corrupção e o nepotismo no serviço de informações do país, continue no cargo.

O referendo foi apenas o mais recente capítulo na troca de acusações que perturba a política romena desde que o país foi recebido na União Européia, em janeiro. Mas, por mais caótica que a crise no governo venha sendo, outros países na periferia leste da União Européia oferecem acirrada concorrência.

Já há algum tempo vem surgindo sinais de alerta na Hungria, República Tcheca, Polônia e Eslováquia. Reportagens sobre escândalos relacionados a escutas ilegais, protestos violentos e incidentes racistas estão se tornando comuns. As figuras centrais em todos esses casos são tanto jovens políticos quanto antigos agentes de inteligência, tanto comunistas reformados quanto neoliberais assumidos que, em nome da democracia e do livre mercado, protagonizam campanhas contra tudo que não lhes agrade, por exemplo regulamentos da União Européia, códigos parlamentares de conduta e direitos das minorias.

O governo da República Tcheca deve sua sobrevivência ao persistente esforço de Jiri Cunek, primeiro-ministro assistente e líder dos democratas cristãos. Cunek está sendo investigado por corrupção, mas nega todas as acusações. Ainda assim, os políticos do governo de coalizão querem sua renúncia imediata, e o mesmo se aplica à comunidade roma. Cunek atraiu a ira da minoria cigana tcheca ao afirmar publicamente que qualquer pessoa que quisesse receber assistência pública país deveria primeiro "escurecer a pele, causar o caos em sua família e acender uma fogueira na praça da cidade".

Na vizinha Eslováquia, Ján Slota, presidente da coalizão governamental SNS, começou atacando a minoria húngara do país (Slota os definiu como descendentes de "figuras mongolóides feias e de pernas tortas que chegaram montadas em cavalos fedorentos"). Depois, partiu para o ataque contra alvo maior os Estados Unidos, aliado do país e, como a Eslováquia, membros da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan). O eslovaco radical acusou os norte-americanos de estabelecerem uma "ditadura mundial, liquidando nações inteiras e bombardeando quem quer que eles desejem".

Na Hungria, as facções rivais parecem ter se acalmado, temporariamente, mas a paz só se estabeleceu depois de uma série de confrontos de rua violentos diante da sede do Parlamento, em Budapeste, e de protestos da oposição conservadora e direitistas radicais contra o primeiro-ministro Ferenc Gyurcsány, que eles definem como "o primeiro-ministro da mentira". Os partidos suspenderam suas disputas temporariamente depois que o esqueleto do ex-chefe de Estado e secretário geral do Partido Comunista, János Kádár, e uma urna contendo as cinzas de sua mulher foram roubados do cemitério de Fiume, no começo de maio.

Por fim, na Polônia, foi necessária uma decisão do tribunal constitucional, na metade de maio, para conter a feroz determinação dos irmãos Kaczynski, que ocupam os postos de presidente e primeiro-ministro. Os juízes do mais alto tribunal polonês decidiram pela inconstitucionalidade de uma lei que determina que as conexões de altos funcionários do país com os serviços de inteligência na era do comunismo sejam investigadas. De acordo com o tribunal, "um Estado democrático e constitucional não pode funcionar com base em cruzadas vingativas".

Passaram-se 16 anos desde que Lech Walesa, József Antall e Václav Havel, em uma cerimônia conjunta em Visegrad, assumiram o compromisso de "integrar plenamente" a Polônia, Hungria e Tchecoslováquia à ordem européia. As imagens da transição pacífica, dos operários poloneses em greve nos estaleiros de Gdansk, do arame farpado cortado na fronteira húngara e das manifestações na praça Wenceslas, de Praga, continuam na memória. Mas a esperança gerada naquele dia, a de que a Europa Oriental pudesse ser reconstituída a partir dos escombros deixados pela desintegração do bloco socialista, desapareceu.

Havel, Walesa e a maioria dos heróis da revolução pacífica de1989 abandonaram a política, nos anos seguintes. Outros, como Viktor Orbán, ativista de 1989 que hoje lidera a oposição húngara, trocaram o ideal de uma sociedade civil regida pela autodeterminação pela idéia obsessiva de um Estado estritamente patriótico e anticomunista.

O que ainda falta a muitos dos países da Europa Oriental é uma sociedade civil que incorpore o legado daqueles dias de esperança depois da queda do comunismo. Não existe uma cultura de diálogo.

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