National Geographic Traveler

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Terça, 22 de maio de 2007, 21h15

Viagem de moto pelo México une aventura e tradição

Um dia pode mudar uma vida. Vinte e quatro horas atrás, eu era um trabalhador estressado e encontrar energia suficiente para pedir uma pizza antes de cair dormindo no sofá era uma tarefa difícil. Hoje, Born to be Wild, do Steppenwolf, não pára de tocar em minha cabeça enquanto dirijo minha montaria de metal pela ponte que atravessa o Eagle Pass, no Texas, e leva a Piedras Negras, México.

Conheci Tim Bearden 30 anos atrás, no começo da faculdade, no Texas. Uma das coisas que tínhamos em comum era o amor por motocicletas. E agora Bearden estava insistindo em que celebrássemos com uma longa viagem de moto pela região cultural do México - um percurso de 4 mil km pelo altiplano central, o coração cultural do país. E Burden tinha uma surpresa: "Murdoch também vai" - James Murdoch, outro de nossos colegas de faculdade.

A noite nos encontra instalados em um motel em Pedras Niegras. Na manhã seguinte, partimos para sul sob um céu azul sem nuvens, enfrentando o calor do deserto no Estado de Coahuila. Bearden lidera o grupo em uma Triumph Tiger, e impõe um ritmo feroz. Murdoch segue em sua Yamaha FJ 1200. Eu fecho o grupo com minha Liebchen, uma velha BMW. Pelo final da tarde, avançamos 560 km rumo ao sul pelo altiplano central do México, galgando a íngreme Sierra Madre Oriental, onde tudo que nos separa dos precipícios são placas de advertência.

Rapidamente aprendi o que "curva peligrosa" quer dizer, em espanhol, e me acostumei com os sinais universais para curvas fechadas e trechos sujeitos a derrapagem. Mas o pior eram os quebra-molas, conhecidos como topes, que infestam as rodovias mexicanas. Eles incluem sistemas de destruição de rodas em formato de pirâmide e pequenas tartarugas de ferro dispostas no chão em formação alternada. Nós tomamos a estrada de duas faixas que nos conduzirá a Real de Catorce, a uma altitude de 2.756 m. A cidade, que no passado foi rica devido à mineração de prata, teve seu apogeu no final do século 19, e depois iniciou um lento declínio. Hoje, ela atrai viajantes e cineastas que desejam uma representação autêntica do México do passado.

De nosso pátio no topo do hotel Corral del Conde, admiramos as colinas vizinhas e os edifícios de pedra em estado precário que emprestam à cidade seu ar de opulência perdida. A igreja local, conhecida como la Parroquia, oferece beleza neoclássica e atrai peregrinos para ver a estátua de São Francisco de Assis instalada ao lado altar, que segundo a tradição local é responsável por mais de um milagre.

Do lado de fora, usando camisas multicoloridas e chapéus, há diversos índios da tribo huichol. Eles consideram Real de Catorce como o lar espiritual do milho sagrado, do peiote e dos cervos, que continuam a ocupar posição central em sua cultura. A cada ano, os huichols viajam centenas de quilômetros para colher peiote que cresce em estado selvagem nas colinas vizinhas. O cacto alucinógeno atrai peregrinos de outro tipo, exemplificado pelo casal de europeus que vi estendidos em um banco de parque. Eu tinha mais ou menos a idade deles quando li Don Juan, de Carlos Castañeda, o best seller dos anos 60 que muita gente considera como responsável por ter colocado Real de Catorce no mapa.

Agora, os investidores estão transformando as velhas construções coloniais da cidade em hotéis e restaurantes. Uma comunidade artística vem crescendo, e Hollywood descobriu o lugar. Alguns anos atrás, Brad Pitt e Julia Roberts estiveram aqui para filmar A Mexicana. De Real de Catorce, partirmos rumo ao sudoeste. Pelo final da tarde, estamos duelando com o trânsito de outra das cidades coloniais mexicanas, Zacatecas, localizada em um árido altiplano, a 2,5 mil metros de altitude. Zacatecas foi a capital mundial da prata, e essa riqueza se manifesta na arquitetura local. A catedral da cidade, por exemplo, talvez seja a mais excentricamente barroca das construções do país.

Hoje, essa cidade de 120 mil habitantes, repleta de universitários, se assemelha a uma cidade européia da moda, com ruas estreitas e tortuosas, limpas e bem conservadas. Os estudantes bem vestidos passeiam pelas calçadas e passam muito tempo sentados às mesas que os cafés instalam nas calçadas. O crepúsculo nos encontra em Cerro de la Bufa, um mirante rochoso onde, em 1914, as forças de Pancho Villa aniquilaram os soldados do ditador Victoriano Huerta, em uma batalha da revolução mexicana (1911 a 1921) comemorada por três estátuas de proporções monumentais. Nós vemos a noite cair, de lá, e depois prosseguimos viagem.

Dois dias depois, visitamos uma das mais bizarras atrações turísticas do México, El Museo de las Momias, que exibe corpos despejados de um cemitério vizinho. Os corpos foram exumados porque as famílias dos falecidos não mantiveram em dia os pagamentos das sepulturas. O museu foi criado em 1894, quando mineiros locais perceberam que os corpos desenterrados pareciam de certa forma mumificados. Quando entramos, tento não pensar no conto de Ray Bradbury sobre as múmias de Guanajuanato que me causou muito medo na juventude, mas termino desistindo já na primeira sala, Angelitos, Tradición y Muerte, uma coleção de fotos de pais em roupas formais exibindo seus filhos mortos para as câmeras.

Pelo final da tarde do dia seguinte, estamos 800 quilômetros ao norte de San Miguel, enfrentando um calor de 54 graus, tentando atingir a fronteira antes que a noite caia. Estou voltando ao Texas com muito mais do que vislumbres de minha juventude - levo de volta um pedaço de minha alma que eu nem sabia existir.

Chegamos ao posto de controle, onde soldados mexicanos inspecionam os veículos. Quando nos aproximamos, o jovem oficial em comando diz "levantela para arriba", e Bearden obedece empinando a moto. Os soldados aplaudem. Quando alcanço Bearden, Born to be Wild está de novo tocando em minha mente, mas dessa vez em ritmo latino, e estou pensando em uma letra que rime com curva peligrosa, topes e, pecialmente, "levantela!".

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