Atualizada às 12h46
Ainda que a flutuação gravitacional seja pequena - desvio da ordem de um em 25 mil, ou o equivalente a 3 gr para uma pessoa de 80 kg, os cientistas vêm debatendo a causa há anos.
Uma possibilidade é que as rochas do manto terrestre, sob a região, estejam lentamente afundando. "Seria como estar a bordo de uma jangada atravessando um estreito em um rio caudaloso", disse Mark Tamisiea, o responsável pelo estudo, geofísico do Laboratório Oceanográfico Proudman, de Liverpool, Inglaterra.
"Se a água estivesse fluindo para baixo, por uma fenda, a jangada seria igualmente puxada naquela direção", ele diz. Mas o novo estudo também oferece sustentação a uma teoria alternativa: a de que, 20 mil anos atrás, geleiras da era glacial pressionaram a crosta terrestre na área, como se uma pessoa se sentasse sobre uma cama d'água extremamente viscosa.
O peso de todo aquele gelo forçou as rochas do manto a deslizar lentamente em sentido lateral, e então o gelo derreteu, antes que a camada tivesse tempo de recuperar sua forma original. Tamisiea e seus colegas determinaram que a tese de um retorno pós-degelo de fato responde por cerca de metade da flutuação gravitacional constatada. O estudo deles foi publicado pela revista Science.
Os pesquisadores, trabalhando para o Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian e para a Universidade de Toronto, basearam seu trabalho nas observações de dois satélites de alta sensibilidade operados pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) norte-americana, conhecidos como GRACE.
Os dois satélites seguem rigorosamente a mesma órbita, mas mantêm uma distância de cerca de 200 km. Microondas são usadas para medir a distância entre os dois aparelhos com extrema precisão. À medida que varia a gravidade terrestre, varia também a distância entre os satélites.
"É como se tivéssemos dois objetos do tamanho de automóveis, um em Los Angeles, um em San Diego, e pudéssemos medir a distância que os separa com precisão semelhante ao tamanho de um glóbulo sangüíneo", disse Michael Watkins, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, em uma conferência científica realizada no final do ano passado. Watkins não participou do mais recente estudo.
O método permite que os cientistas não só mapeiem, do espaço, o campo gravitacional terrestre como também que procurem por pequenas alterações de um ano a outro. Essa capacidade ajudou a resolver o mistério da anomalia gravitacional no Canadá. Se uma depressão no manto responde pela flutuação gravitacional, então não deveria haver alterações detectáveis, segundo Tamisiea, porque a convecção do manto ocorre em escalas de tempo bastante dilatadas.
Mas havia um sinal - a gravidade na região está crescendo em ritmo comparável ao que existiria caso 5 cm de água fossem despejados sobre toda a região a cada ano. "É um sinal considerável", diz Tamisiea. E provavelmente significa que a região está recuperando cerca de um centímetro ao ano.
"O novo estudo dos satélites GRACE também é importante para as pessoas que estudam as alterações no clima planetário", diz Watkins. Os satélites foram projetados principalmente para estudar mudanças na água, como o derretimento das geleiras na Groenlândia e Antártida.
"A água tem peso, e portanto tem atração gravitacional que o GRACE pode observar", disse Watkins. As novas observações, porém, ajudam a mostrar que recuperação pós-glacial está ocorrendo em muitos lugares. "No caso da Groenlândia, não é muito grande", ele afirma, "mas na Antártida, quando o GRACE vê sinais de que alguns centímetros de gelo mudaram, parte disso se deve à recuperação".
Assim, diz Watkins, "o sistema permite que removamos uma fonte de erro em nossas mensurações climáticas".
National Geographic
Busca
Busque outras notícias no Terra: