NY Times Magazine

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Quinta, 17 de maio de 2007, 11h15 Atualizada às 12h27

Al Gore conquista 'status de profeta' e diz o que quer

Seis anos depois que a Corte Suprema declarou Al Gore derrotado em uma disputa presidencial na qual sua vitória parecia certa, o ex-vice-presidente de Bill Clinton conquistou algo que só se pode definir como "status de profeta", e o fez ao agir como não podia, ou queria, quando candidato: dizendo exatamente aquilo em que acredita, com clareza, paixão, domínio intelectual e até humor.

Certa manhã de fevereiro, Al Gore estava esperando para embarcar em um vôo comercial de Nashville para Miami, onde ele faria uma apresentação tendo por base o material básico usado para o documentário An Inconvenient Truth, sobre o aquecimento global, que ele produziu e com o qual conquistou o Oscar.

Gore estava me contando sobre Ilya Prigogine, um químico belga que ganhou o prêmio Nobel em 1977 devido às suas percepções sobre a termodinâmica dos sistemas abertos, um assunto intrigante que pouco tem a ver com o aquecimento global.

Uma mulher que vestia uma camisa alaranjada e chamativa gritou "aquele não é AL GORE?" e, enquanto ela se aproximava para agradecer o antigo vice-presidente dos Estados Unidos por seus esforços de salvar o mundo, percebi que minhas malas estavam em seu caminho. "Vou retirá-las", eu disse, e Gore, por instinto, respondeu "não, por favor".

Em todo lugar a que chega, as pessoas insistem em que ele se candidate à presidência. É provável que não o faça ¿ainda que exista a possibilidade. ("É complicado", ele me disse, "ainda que não misterioso".) Ele diz acreditar que, dessa vez, poderia ser um candidato melhor do que em sua tentativa anterior, e é provável que tenha razão.

Gore tem talento para explicar, e o faz de maneira incansável. Nas últimas três décadas, ele vem tentando explicar que a humanidade ameaça seu futuro no planeta ao expandir enormemente a presença de dióxido de carbono na atmosfera. Agora, graças em parte ao seu trabalho, cada vez menos gente contesta essa premissa.

Gore e os mais importantes grupos ambientais do país estão envolvidos, agora, em uma campanha de três anos para persuadir o povo e partidos políticos norte-americanos a tomar medidas drásticas para conter as emissões de gases responsáveis pelo efeito-estufa. Trata-se de um objetivo tão imensamente ambicioso que quase se torna possível imaginar que ele se disporia a abrir mão de disputar a presidência para poder continuar envolvido em seu atual esforço.

O casal Gore vive em uma mansão neoclássica, de paredes brancas, no elegante bairro de Belle Meade, em Nashville. Tipper Gore, a mulher de Al, concordou em se encontrar comigo lá, e nos sentamos para conversar à beira da piscina. O antigo vice-presidente estava no andar de cima, estudando as provas de seu novo livro, The Assault on Reason o ataque à razão, um tomo erudito sobre a extinção do discurso público e da "meritocracia das idéias", que deve ser lançado este mês.

Perguntei a Tipper quanto tempo seu marido havia demorado a superar a agonia de 2000. Nenhum dos dois, ela respondeu, na verdade conseguiu fazê-lo de todo. Eles deixaram Washington e se instalaram em Nashville, onde começaram a construir uma vida nova. No começo de 2001, ela relembra ter dito que "sabe, Al, por que você não começa a apresentar aqueles seus slides de novo?" Para ele, disse Tipper, seria como "voltar às raízes".

Gore vem usando apresentações em slides como ferramentas para ensinar sobre o aquecimento global há mais de 20 anos. Depois da derrota na eleição, ele substituiu o projetor de slides antiquado que usava e usa computação gráfica enquanto viaja pelo país falando sobre o tema. Também começou a contemplar a possibilidade de voltar às urnas contra George W. Bush, perspectiva que muitos de seus partidários encaravam com mal disfarçado temor.

Gore retirou oficialmente seu nome da disputa no final de 2002, e se concentrou em pregar o evangelho das alterações climáticas, e em ganhar dinheiro como vice-presidente da Metwest Financial, uma administradora de ativos.

Assim que se libertou do imperativo político da cautela, Gore começou a pronunciar estrondosas - e, como o tempo provou, prescientes - acusações contra o governo Bush. Ele denunciou a guerra no Iraque e o que entende como incansável interferência do governo com as liberdades civis e as prerrogativas do Congresso. Terminou por se tornar o queridinho das esquerdas e dos blogs.

Em 2005, os estudos científicos sobre as alterações climáticas haviam avançado a ponte de tornar manifesta a necessidade de reduzir as emissões de dióxido de carbono, ainda que apenas junto a um pequeno círculo de pessoas bem informadas. Gore começou a conversar com membros do "grupo verde", como o lobby ambientalista é conhecido, sobre a necessidade de organizar uma campanha de maior apelo popular.

As imagens apocalípticas do furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans no final de agosto de 2005, não só fizeram com que essa campanha parecesse mais urgente como também a tornaram mais conveniente, e o antigo vice-presidente parecia o homem certo para liderar essa cruzada.

Mas o Al Gore de setembro de 2005 era um símbolo da postura de suposta superioridade moral que caracteriza o movimento ecológico. Ele tentou resolver o problema atraindo um republicano como co-líder, mas suas abordagens foram rejeitadas por uma sucessão de candidatos. Por isso, em dezembro daquele ano, o conselho da Aliança de Proteção ao Clima foi estabelecido - e Gore não fazia parte dele.

Quando perguntei por que os esforços da aliança haviam demorado tanto a se organizar, Gore respondeu: "Porque eu não fui escolhido como presidente da organização". Isso parece de fato ser verdade. De acordo com um dos fundadores da aliança, nos meses seguintes, sem Gore, "nada aconteceu, nada aconteceu, nada aconteceu".

Tradução: Paulo Eduardo Miggliaci ME

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AP O ex-vice-presidente americano Al Gore discursa no Capitólio, em Washington O ex-vice-presidente americano Al Gore discursa no Capitólio, em Washington

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