Atualizada às 19h43
Carl Hoffman
O rio é de um marrom doce e brilha ao sol. Restam 2,2 mil km a percorrer, depois dos 4,2 mil km que ficaram para trás. O céu é distante, e largo, e épico, e a brisa me areja como se fosse um ventilador de pás largas, ligado em velocidade mínima.
O samba marcado e acompanhado por uma sanfona me chega aos ouvidos, do convés abaixo. E estou com água na boca, porque sinto o cheiro de peixes ribeirinhos sendo fritos inteiros em uma grelha.
Li Peter Fleming, Tobias Schneebaum e Joe Kane, assisti Aguirre: A Cólera dos Deuses, de Werner Herzog. O Amazonas corre em minha cabeça há uma década. E ele continua aqui. Imutável.
Iquitos, a principal cidade da Amazônia peruana, fica a 3,7 mil sinuosos km da foz do rio, no Atlântico, e só se pode chegar à cidade de barco ou avião. É um lugar quente, enevoado, cheirando a fumaça, peixe e chuva sobre o concreto. Chego ao pôr do sol e toda a cidade, ao que parece, está concentrada na calçada, ou avenida, à beira-rio. Vejo malabaristas e um palhaço travesti; casais de mãos dadas; vendedores de balões, chiclete e brincos; mendigos e engraxates.
Na manhã seguinte, compro uma passagem em um rapido, ou lancha fluvial, que vai partir em direção à fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil, cerca de 500 km rio abaixo. Caminho pela margem do rio até o mercado de Iquitos ¿ um labirinto de pequenas barracas que se estende por muitos quarteirões e sobrecarrega os sentidos com a presença intensa da humanidade, suas necessidades e desejos. Há carne de animais da selva grelhada, à venda: macacos e cervos, lagartos e tartarugas. Cabeças de porcos e salsichas brancas feitas de intestinos. Laranjas, limões, papaias; especiarias e ferramentas, folhas de coca e piranhas, e quarteirões inteiros dedicados a nada além de remédios e afrodisíacos exóticos.
Pelas 6h30 da manhã seguinte, meu rapido percorre rapidamente as águas do rio histórico. O rapido é apenas o primeiro estágio de minha jornada até a fronteira, onde espero apanhar um barco maior, mais lento, para uma viagem fluvial mais relaxada. A lancha é longa, estreita, apertada; uma cápsula de fibra de vidro com sete fileiras de assentos, como um ônibus escolar, impulsionada por dois motores de popa Yamaha de 225 cavalos. Mas minha janela é larga, e está aberta, e estou a apenas meio metro da água. Bastam 10 minutos para nos afastar da cidade; só vejo, água, floresta tropical e céu.
Encontrei o lugar certo para mim, no topo, e as nuvens flutuam sossegadas enquanto o barco oscila em meio a uma brisa fresca, perfeita. Pequenos botos saltam na água. Aves mergulham das árvores para rasantes velozes sobre o rio. Ocasionalmente passamos por uma canoa de tronco de árvore ou por uma ou duas casas com topos de palha, de onde crianças sorridentes nos acenam. Mas isso é pouco freqüente, e o que o cenário oferece é quase sempre nada ¿nada além de céu, rio e selva, hora após hora.
É aqui que a escala da Bacia Amazônica realmente me atinge pela primeira vez. Inimaginavelmente vasta. Há pessoas não muito longe de mim que jamais viram um arranha-céus. Araras e papagaios. Onças e preguiças. Não importa que eu não possa vê-los. Estou aqui para deixar minha vida de lado por uma semana. O que surpreende é a facilidade com que isso está acontecendo, e como o mundo do rio e céu está rapidamente se transformando no único mundo. Olho para a floresta tropical, e ela ocupa todo o território, incluindo o da minha imaginação.
O barco pára para reabastecimento às 16h30, em uma bonita aldeiazinha, e depois prosseguimos. O rio brilha. O crepúsculo equatorial passa rápido, e a noite cai. Há uma esguia lua crescente no horizonte, e a Via Láctea é tão visível que parece uma nuvem branca próxima o bastante para que eu a toque com os dedos. Na escuridão, por não enxergar, presto atenção ao cheiro: rico, fecundo, úmido.
Os rios são estradas milenares. O explorador espanhol Francisco de Orellana sentiu o mesmo cheiro e viu a mesma Lua, em 1542. O naturalista Alfred Russel Wallace passou pela mesma experiência, em 1850, e Tobias Schneebaum, que largou as roupas e desapareceu por meses entre os nativos, viveu isso tudo em 1955. Nos rios, o tempo pára e flui com os séculos; há poucos outros lugares nos quais é possível ver e experimentar o mundo como um dia foi.
Chegamos à cidade peruana de Santa Rosa por volta da meia-noite, com 10 horas de atraso. Santa Rosa é minúscula, um posto de fronteira, e do lado de lá do rio brilham as luzes de Leticia, Colômbia, e Tabatinga, Brasil. Um policial no cais flutuante da aldeia recolhe nossos passaportes, à luz de uma lanterna, e o seguimos por uma prancha de 15 centímetros de largura até a margem, em meio à escuridão e ao calor. O homem que carimba passaportes, percebemos então, está "borracho", bêbado. Apanhamos nossos passaportes e contratamos um barco para atravessar o rio, mesmo assim.
Parece surreal estar no escuro, vendo os enxames de insetos atraídos pelas poucas lanternas, mas não demora para que cheguemos ao Brasil. As ruas de Tabatinga estão desertas e silenciosas. Vejo uma placa de hotel por sobre um restaurante, e bato na porta.
De manhã, quando saio à rua, tudo mudou. Estou na mais movimentada esquina de Tabatinga. Apanho um táxi e chego ao porto em 5 minutos. Meus sonhos se realizaram. Ancorado a uma das docas, veja um barco amazônico de casco de madeira e 30 m, o Almirante Monteiro. A embarcação oferece três conveses, uma proa aguda e uma cintura baixa que termina em uma popa semicircular. "Partimos às 15h", diz o homem sentado a uma mesa dobrável vendendo passagens. "Uma rede custa US$ 70".
A minha jornada representa uma pausa. Mas meu percurso de cinco dias por um dos mais poderosos rios do planeta me faz sentir como se tivesse percorrido uma artéria viva da Amazônia - ainda que, para dizer a verdade, eu tenha esquecido de trazer um mapa.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
National Geographic
O rio Amazonas: a artéria viva da mata sul-americana é um dos pucos lugares nos quais é possível ver o mundo como um dia foi
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