Atualizada às 15h49
O Oriente Médio abriga alguns dos projetos de arquitetura mais inovadores do mundo, hoje em dia. Arranha-céus extravagantes estão sendo construídos nas grandes cidades da região, como a florescente Dubai e Riad, e Abu Dhabi tem planos para um ambicioso complexo de museus.
Mas há pelo menos um xeque cujas expectativas são mais amplas. "Você não tem alguma coisa baseada em uma idéia interessante, só para variar?", se queixou Abdel Hadi Sadiq Pasha, em uma reunião. O diretor da divisão de arquitetura, no departamento geral de projetos da prefeitura de Dubai, estava se queixando sobre projetos de arquitetura brilhantes mas cujo valor se limitava, na opinião dele, à simples beleza.
O acaso determinou que Eckhard Gerber, o homem capaz de satisfazer o desejo de inovação expresso pelo xeque, estivesse presente e ouvisse suas palavras. Gerbel vem de Öspel-Kley, um subúrbio obscuro da cidade alemã de Dortmund, onde ele dirige um escritório de arquitetura instalado em uma mansão do século 19 que no passado abrigava a mais importante família de fazendeiros da região.
Um pequeno grupo de arquitetos que trabalham com ele recentemente concebeu a idéia de uma torre com tecnologia de última geração, um edifício de 68 andares e com a notável altura de 322 m, que ocuparia a 22ª posição na lista dos mais altos edifícios do mundo. O mais impressionante não é só que a Burj al-Taqa (Torre da Energia) consumirá pouca energia, mas que ela mesma deve produzir toda a energia que consome.
"Não existe nada parecido no mundo", diz Gerber, elogiando seu próprio trabalho. O arquiteto não sofre de falsa modéstia, quando o assunto é avaliar seu projeto. "Uma realização como essa é bastante rara", diz.
Governos municipais e incorporadores imobiliários em diversas cidades árabes já elogiaram a ecotorre auto-suficiente, que no momento existe apenas em forma digital, usando adjetivos como "fantástica" e "brilhante", diz Gerber. O arquiteto quer chegar a um acordo com a Almoayed Holdings, de Bahrain, o grupo de investimento que aparentemente deseja financiar todo o projeto de 300 milhões de euros, antes do final do ano. Os investidores pertencem a uma das cinco mais poderosas famílias do emirado ilhéu. O arquiteto alemão também está atraindo a atenção de financistas em Riad e Dubai, graças à sua torre de alta tecnologia, cuja energia provém apenas da luz solar, do vento e da água.
Gerber não é completamente desconhecido na região, porém. Seu escritório de arquitetura está construindo tanto a Biblioteca Nacional Rei Fahd quanto um centro científico, que inclui até um shopping center, na capital saudita, Riad.
Agora, com a Burj al-Taqa, ele está envolvido em uma experiência muito mais audaciosa - mas que não teria sido concebível sem o apoio da DS-Plan, uma empresa de engenharia de Stuttgart. O escritório de consultoria a arquitetos respondeu por praticamente toda a tecnologia que será empregada no edifício.
A superfície externa é considerada especialmente problemática, no caso de construções gigantescas revestidas em vidro. Um estudo do Instituto de Habitação e Meio Ambiente de Darmstadt, por exemplo, revelou condições preocupantes nos edifícios de escritório alemães, onde no verão os trabalhadores ocasionalmente suam sob temperaturas superiores aos 40ºC, de acordo com o estudo.
Por isso, o formato cilíndrico da Burj al-Taqa foi concebido para expor a menor superfície possível à luz solar. Um escudo protetor contra o Sol recobre o edifício do chão ao teto, em uma faixa de 60 graus da torre, do lado mais atingido pela forte luz solar, o que garante que as salas não fiquem diretamente expostas ao sol. A luz difusa nas outras faces da torre é temperada por um revestimento mineral nas janelas.
A fachada da Burj al-Taqa será feita de uma nova geração de vidros produzidos a vácuo que só estará disponível em 2008. As novas janelas de alta qualidade têm por objetivo proteger o interior da torre contra o calor externo ¿algo indispensável em uma região na qual as temperaturas externas podem atingir os 50 graus, no verão. Isso foi tornado possível por novos avanços quanto à qualidade dos materiais utilizados. As novas janelas transmitem até dois terços menos calor do que os produtos atuais.
"Um edifício como esse precisa funcionar à maneira de uma garrafa térmica", diz Peter Mösle, gerente de energia da DS-Plan. "Precisa exercer efeito refrigerador no verão e manter o calor no inverno".
Os arquitetos escolheram um antigo modelo da arquitetura persa como fonte de inspiração. Centenas de anos atrás, mercadores prósperos erigiam torres de vento nos telhados de suas casas, uma idéia que terminou exportada ao mundo árabe. As construções, que se tornaram atrações turísticas, representam um sistema natural de condicionamento de ar. Aberturas laterais nas torres sugam o ar frio como uma chaminé, e o ar frio, mais pesado, desce e substitui o ar quente, mais leve, o que cria uma temperatura confortável no espaço interno, a despeito do sol escaldante.
O projeto de Gerber deve funcionar de maneira semelhante. A pressão negativa do vento que atinge a torre sugará o ar desgastado das salas por meio de fendas de arejamento na fachada. O plano é que ar fresco seja bombeado para o interior do edifício por um sistema de dutos, ao mesmo tempo. Água marinha será usada na pré-refrigeração desse ar. Três grandes unidades de resfriamento no subsolo reduzirão a temperatura do ar a confortáveis 18ºC.
Der Spiegel
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