Atualizada às 14h34
Stephen S. Hall
Caso uma pessoa desenvolvesse suficiente "integridade do ego" ao longo da vida, a aproximação iminente da enfermidade e morte viria acompanhada da sabedoria como virtude. Infelizmente para os pesquisadores posteriores, Erikson não definiu o que entendia por sabedoria.
A sabedoria historicamente é alvo de estudo em ramos como a filosofia e a religião. Só nas últimas três décadas o assunto começou a merecer a atenção dos cientistas sociais. As observações de Erikson abriram a porta ao estudo formal da sabedoria, e alguns psicólogos audaciosos correram a explorar esse campo.
Em determinados aspectos, eles não conseguiram avançar para muito além da primeira questão sobre a sabedoria: afinal, o que é isso? Trinta anos depois de iniciados os primeiros estudos empíricos de sabedoria, os psicólogos ainda não chegaram a consenso sobre a resposta. Mas é igualmente verdadeiro que a jornada pode, de diversas maneiras, ser tão esclarecedora quanto chegar a um paradeiro.
Diversas qualidades associadas à sabedoria são recorrentes nos estudos acadêmicos: uma visão clara da natureza e do sofrimento humanos; resistência emocional e a capacidade de enfrentar adversidades; abertura a outras possibilidades; capacidade de perdoar; humildade; e o dom de aprender com as experiências da vida.
O estudo formal da sabedoria como disciplina acadêmica pode ser traçado legitimamente aos anos 50, quando uma jovem e observadora mulher chamada Vivian Clayton se deixou fascinar por qualidades que ela atribuía a seu pai, Simon Clayton, e a sua avó materna.
Havia alguma coisa que distinguia os dois de todas as demais pessoas que ela conhecia. A despeito da educação formal limitada que receberam, os dois tinham a capacidade de manter a calma em meio a crises, tomavam decisões corretas e transmitiam uma sensação quase palpável de satisfação emocional, mesmo quando enfrentavam adversidades ou incertezas.
Clayton disse recentemente que "meu pai tinha 41 anos quando nasci, e ele era, de longo, o mais velho entre os pais de todos os meus amigos. De fato, ele tinha quase a idade dos avós de outras crianças. Ele nasceu e viveu na Inglaterra,antes de emigrar, e lá enfrentou a Segunda Guerra Mundial e os bombardeios alemães; tinha de cuidar de sua mãe moribunda, que estava doente a ponto de recusar qualquer esforço para se proteger nos abrigos antiaéreos."
"Os dois viviam no East End, onde as docas da cidade estavam localizadas, e a região era bombardeada constantemente. Ele ficava ao lado dela enquanto as bombas caíam, e quando o ataque acabava ela dizia que era hora de tomarem um chá".
"Era um homem muito humilde, muito ciente de suas limitações, mas sempre parecia capaz de ponderar as coisas e tomar as decisões certas para a família. Ele sabia quando responder rápido e quanto parar para refletir", ela afirma.
Clayton lembra de ter ponderado essas questões quando começou sua pós-graduação, na Universidade do Sul da Califórnia, trabalhando com o psicólogo gerontológico James Birren, um dos líderes de um projeto que procurava encontrar aspectos positivos do envelhecimento.
Entre 1976, quando concluiu sua dissertação, e 1982, Clayton publicou diversos estudos inovadores que hoje são reconhecidos por quase todos os especialistas como os primeiros trabalhos a sugerir que pesquisadores podiam tratar a sabedoria de maneira empírica. Ela identificava três aspectos das atividades humanas que eram essenciais à sabedoria ¿ a aquisição de conhecimento (aspecto cognitivo) e a análise de informações (aspecto reflexivo), filtrados pelos emoções (o aspecto afetivo). Depois, ela montou uma bateria de testes psicológicos, com base em ferramentas já existentes, para medir a sabedoria.
Clayton deixou marcas importantes ao criar esse campo de estudos. Ela compreendeu que "os velhos nem sempre são sábios, e muitas vezes não falta sabedoria aos jovens". Ela também argumentou que, embora a inteligência representasse um domínio não social de conhecimento que poderia diminuir de valor ao longo da vida, a sabedoria representava uma forma social, interpessoal, de conhecimento sobre a natureza humana que resistia à erosão e podia crescer com a idade.
Uma das pessoas que compreenderam imediatamente a importância de seu trabalho foi Paul Baltes, lendário psicólogo da Universidade Estadual da Pensilvânia. Baltes ajudou a desenvolver as primeiras teorias sobre o desenvolvimento humano ao longo da existência, e argumentava que para compreender uma pessoa de 60 anos, por exemplo, seria necessário levar em conta aos contextos biológico, psicológico e sociológico em diferentes estágios da vida, bem como a era histórica e cultural em que a pessoa vivia.
De onde vem a sabedoria, portanto, e como adquiri-la? Surpreendentemente, boa parte dos indícios acumulados em décadas de estudos sugerem que as sementes da sabedoria são plantadas bem antes da velhice, e às vezes antes da meia-idade e da idade adulta. Há fortes indícios de que a sabedoria deriva de exposição a adversidades ou fracassos quando a pessoa é jovem. A idéia de que as pessoas possam ser "vacinadas" pela adversidade, no começo da vida, me faz pensar no pai de Vivian Clayton, e nos dias em que ele cuidava de sua mãe moribunda enquanto as bombas alemãs caíam sobre Londres. Sabedoria talvez seja celebrar a sobrevivência com uma xícara de chá.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times Magazine