Der Spiegel

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Segunda, 23 de abril de 2007, 10h37

Cidade alemã tenta viver sem empresa de energia

Börnsen, no norte da Alemanha, é um lugarzinho tranqüilo. Quando os agricultores locais precisam de uma churrasqueira para uma festa local ou de dinheiro para renovar o jardim de infância da aldeia, eles procuram "Walter", na sede da prefeitura. Walter Heisch é o prefeito dessa aldeia, próxima de Hamburgo. "Todo mundo se conhece", ele escreve no site da comunidade. "Nós nos encontramos sempre na mercearia".

Mas quando a questão é a energia, no entanto, os temperamentos se inflamam e Heisch se transforma em combativo líder local ¿uma figura que parece saída das históricas de Asterix, como sugere o boneco em miniatura de Abracurcix, o chefe da aldeia gaulesa, que o prefeito mantém em sua mesa. E é isso que faz de Börnsen um pequeno bolsão de resistência.

O inimigo, no caso, é o grupo alemão de energia E.on. Börnsen demonstrou à subsidiária local da E.on no Estado de Schleswig-Holstein, E.on Hanse, como uma pequena cidade pode escapar ao domínio da gigantesca empresa de energia produzindo gás e eletricidade por conta própria ¿e uma família média consegue economizar cerca de 75 euros (US$ 100) ao ano nas contas de gás apenas.

As estatísticas foram extraídas de uma comparação estadual de preços preparada pelo Gabinete Federal de Combate a Cartéis alemão, no final do ano passado, e mostram uma aldeia onde muita coisa funciona sem ajuda da poderosa empresa de infra-estrutura.

Já que a E.on não deseja que Börnsen inspire outras iniciativas municipais de fornecimento de energia, porém, a empresa decidiu abandonar o projeto de economia de energia da aldeia. A empresa está se defendendo, e isso desperta a combatividade dos moradores da aldeia. "E.on é palavrão em Börnsen", diz Joachim Reuland, diretor da empresa local de energia, Gas und Wärmedienst Börnsen,ou GWB.

Energia em tamanho aldeia
Dez anos atrás, os moradores de Börnsen decidiram construir pequenas estações comunais de aquecimento, alimentadas por gás natural, que agora fornecem calefação aos novos conjuntos residenciais e eletricidade a 80% da aldeia. As caldeiras nas três usinas miniaturizadas de energia "são alimentadas com uma poção mágica", diz Reuland com um sorriso.

Börnsen simplesmente se adiantou aos planos que algumas grandes empresas municipais de energia pretendem adotar como parte da desregulamentação gradual do mercado energético europeu. Muitas cidades de grande e pequeno porte na Alemanha querem reduzir sua dependência com relação às grandes empresas de energia, construindo usinas locais.

Os departamentos de obras públicas de oito cidades alemãs ¿entre as quais Hanover, Frankfurt e Munique, se reuniram na semana passada para formar uma aliança que se tornaria o quinto grande concorrente em um mercado dominado pelo que na verdade é um cartel formado por quatro empresas: E.on, RWE, Vattenfall e EnBW.

O projeto em Börnsen começou como iniciativa dos cidadãos para garantir suprimento mais ecológico de energia. A proximidade entre a aldeia e a usina nuclear de Krümmel, localizada a apenas 12 quilômetros, e os alarmes noturnos que costumavam levar os moradores para a rua usando pijamas, causaram muitas queixas. Reuland foi um dos co-fundadores da empresa local de energia, GWB, em 1996. Uma empresa municipal de gás chamada Hamburger Gaswerke (na vizinha Hamburgo) fornecia o gás e detinha 40% de participação na nova empreitada.

O arranjo funcionou bem até quatro anos atrás, quando a E.on Hanse adquiriu a Hamburger Gaswerke. Foi então que "a confusão toda começou", segundo o prefeito Heisch.

Ele diz que a E.on pediu que a aldeia abandonasse seu conceito de fornecimento de gás. "Em lugar de usarmos nossas estações comunitárias de aquecimento, eles queriam que os usuários adquirissem gás natural diretamente da E.on", diz Heisch, "porque isso lhes ofereceria mais lucros... Desejavam retorno de 12%".

Carsten Thomsen-Bendizen, porta-voz da E.on Hanse, discorda, mas apenas quanto ao "montante específico" da solicitação. Ele diz que tudo foi discutido com a aldeia e que houve um acordo. Mas os funcionários locais não estavam preparados quando a E.on cortou os fundos da GWB.

"Eles simplesmente congelaram nossas contas", diz Heisch. Reuland, que dirige a GWB em suas horas vagas, estudou estratégias de defesa. Seria difícil para a aldeia cancelar seu contrato com a E.on como fornecedora oficial de gás, mas Reuland descobriu outras maneiras de influenciar os preços. As idéias dele são tão inventivas, na verdade, que podem causar problemas mais amplos às empresas de energia.

Seguindo as pegadas das gigantes da energia
A primeira decisão de Reuland foi contratar a Vattenfall, concorrente da E.on, para cuidar da manutenção das estações de energia de Börnsen, a preço mais baixo. Ele também descobriu como economizar na aquisição de gás.

Desde o ano passado,a GWB vem obtendo 25% do gás natural que utiliza na Dinamarca. Depois de descobrirem que a soma do consumo registrado pelos medidores de gás residenciais individuais era 2% mais alta do que o total de gás que a aldeia adquiria da E.on, os moradores de Börnsen substituíram os medidores individuais por um coletivo.

A Associação Alemã dos Consumidores de Energia confirma que esse não é um incidente isolado.

Mas a manobra mais ousada dos moradores foi a construção de um tanque de gás de 100 metros de comprimento e um metro de diâmetro, algo que a aldeia tinha direito de fazer porque gere sua própria rede de gás desde 1997.

Com isso, Börnsen abastece o tanque à noite, quando as tarifas são mais baratas, e usa o gás durante o dia. Ainda que a E.on tenha tentado bloquear o projeto do tanque, a aldeia descobriu como contornar o veto. Reuland sorri ao comentar o espírito comunitário de Börnsen: "Quando trabalhamos juntos, somos insuportáveis".

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