Der Spiegel

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Terça, 10 de abril de 2007, 18h05

Vivendo e aprendendo nas universidades chinesas

A educação voltou a ser muito valorizada na China, e o objetivo da liderança do Partido Comunista é tornar o país um dos mais avançados do mundo no campo da ciência. Mas atingir essa meta requereria dar aos estudantes mais liberdade para exercer sua criatividade ¿e de preferência em universidades menos lotadas.

A manhã é enevoada no campus da Universidade Normal de Pequim, e oito estudantes estão alinhados em uma pequena viela. "Um, dois, três! Juntem-se à união dos estudantes", eles gritam, enquanto distribuem formulários de inscrição. O objetivo é recrutar novos membros para que possam pressionar os diretores da universidade por uma melhora nas condições de estudo.

"Nossos alojamentos são pequenos demais e velhos demais", se queixa uma aluna de literatura, de 19 anos, que usa o nome "Melody" e um par de óculos elegantes. "E o período de funcionamento dos chuveiros é curto demais".

Depois de uma longa busca, Mei Lan, 22, aluna da mesma universidade, enfim encontra um lugar no refeitório superlotado. "Há alunos demais aqui", ela se queixa, comendo arroz, legumes e carne de porco acomodados em uma bandeira de aço inoxidável. "Nós temos de entrar na fila na biblioteca às cinco da manhã para podermos estudar em paz. Tive de alugar um quarto fora da universidade para me preparar para os exames finais, porque não havia espaço em outro lugar".

Ela divide seu quarto de 12 metros quadrados com sete outros estudantes. Estudar no quarto é extremamente difícil, e as salas de estudo passam o dia lotadas.

E não existe muito espaço nas salas de aula, tampouco. "No meu curso, há entre 70 e 80 alunos", diz Mei. "Isso significa que normalmente não há como fazer perguntas ou debater os temas". Os pais dela, comerciantes na província de Zhejiang, pagam 5,5 mil yuan (550 euros) ao ano pelo seu curso universitário de quatro anos. O quarto com quatro beliches e sete outros colegas custa mais 650 yuan anuais.

A superlotação dos alojamentos, as salas de aula também lotadas, as anuidades caras "que os jovens pobres do oeste do país não têm como pagar", segundo Mei: é isso que a vida universitária representa para os estudantes ¿e não só na Universidade Normal de Pequim mas em todo o país.

E, no entanto, a educação e a pesquisa voltaram a ser considerados como qualidades preciosas na China ¿40 anos depois que Mao Tsé-Tung denegriu os intelectuais como uma "fedebunda nona categoria". E agora uma geração nova e bem treinada tem por objetivo fazer do país uma superpotência científica, ao menos se o Partido Comunista conseguir realizar o que planeja. O líder do partido e do governo, Hu Jintao, declarou que ciência e tecnologia desempenham "um papel importante em promover o desenvolvimento econômico e social e em garantir a segurança do país".

Mas a estrada para um nível elevado de educação e o status de superpotência científica será longa. Apenas 5% dos chineses entre os 25 e os 64 anos têm diploma universitário, no momento, ante 21% dos habitantes da União Européia e até 34% no Japão. A fim de recuperar o atraso, o governo chinês está investindo mais na educação a cada ano ¿cerca de US$ 62 bilhões em 2006. Mas alguns representantes do setor de ensino superior chinês, como Zu Zhihong, ainda consideram que esse montante seja unsuficiente.

Há mais de 1,7 mil universidades e faculdades técnicas na China. Mas dos 8,8 milhões de candidatos que passaram pelo difícil vestibular nacional no ano passado, apenas 5,4 milhões conseguiram vagas. Os demais 3,4 milhões formandos do segundo grau terão de procurar escolas privadas, ou empregos ¿ainda que tenham o direito a fazer novo vestibular este ano. Apenas uma pequena elite ¿usualmente preparada de maneira sistemática para os exames de admissão nas grandes escolas das cidades importantes- consegue vagas nas universidades de primeira qualidade. O processo seletivo é rigoroso, e as anuidades das faculdades e universidades não param de crescer.

De fato, o ensino superior está se tornando um privilégio reservado aos filhos da nova classe média urbana que, de acordo com o Banco da China, investe boa proporção de sua poupança na educação dos filhos, e não em carros ou apartamentos novos. Para os milhões de filhos de camponeses e operários que exibem aptidão especial, por outro lado, um diploma universitário continua a ser um sonho distante.

Ainda assim, o número de alunos quintuplicou nos últimos 10 anos, enquanto o número de estudantes que concluem doutorados também passou por dramática elevação, de 45 mil a mais de 190 mil, entre 1998 e 2005. No ano passado, havia 17,4 milhões de jovens estudando no terceiro grau chinês, ante apenas 15,6 milhões em 2005.

A fim de garantir que a ciência chinesa seja capaz de competir internacionalmente, a maioria dos recursos está sendo canalizada para 38 universidades essenciais., As demais universidades ¿algumas das quais profundamente endividadas- terão de se bancar por conta própria.

A Universidade Normal de Pequim, com 17 mil alunos, e a Universidade de Pequim são parte da elite. Recentemente, uma nova e impressionante biblioteca ¿uma construção de vidro em formato audacioso, com um telhado em projeção- foi acrescentada ao campus. No saguão, os estudantes usam computadores para verificar a disponibilidade dos volumes individuais no imenso acervo de 2,9 milhões de livros que a instituição oferece.

O campus tem o tamanho de uma pequena cidade, e conta com creches, escolas, campos de esportes e supermercados. Alojamentos cinzentos para professores e alunos ocupam os terrenos que separam as instalações de ensino austeras e modernas. Os alunos de pós-graduação contam com novos edifícios de alojamentos, mas mesmo estas construções recentes já estão superlotadas, e os estudantes vivem à base de quatro alunos por quarto.

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